Crítica | Como Treinar seu Dragão

Animações nascem especiais, em razão de todo o esforço para produzir personagens e mundos que antes não existiam. Elas fascinam até mais do que longas metragens tradicionais e não é surpresa que nos últimos 10 anos, muitos dos melhores filmes sejam animações, como Os Incríveis, Ratatouille, Wall-E, UP!. Logo, é em parte uma surpresa que Como Treinar seu Dragão seja tão bom e emocionalmente ressoante. Isto porque é fruto da Dreamworks – cujas boas animações como Shrek e Kung Fu Panda são em essência passatempos divertidos, porém sem grandes valores narrativos como as da Pixar.

Elaborado sobre um inquestionável clichê, a amizade entre dois seres absurdamente antagônicos, o desajeitado e socialmente excluído filho de viking Soluço e o dragão Banguela, Como Treinar seu Dragão logo em seu ágil prólogo consegue estabelecer satisfatoriamente a dinâmica do povo viking, a batalha contra os dragões e a distribuição de funções.

Destacam-se, narrativamente, belas rimas que demarcam bem o relacionamento entre Soluço e Banguela. Sem conseguir voar, em razão de haver perdido uma das asas, Banguela apenas se torna completo quando “pilotado” por Soluço através de uma asa falsa e uma maquinaria criada pelo garoto. A outra rima, ainda melhor, nos é revelada no epílogo, e é perfeita na concepção e no paralelo que desenvolve.

Os diretores Dean DeBlois e Chris Sanders investem no 3D, felizmente sem recrutar os truques infantis de arremessar algo na tela. A dupla está mais interessada em criar cenas de tirar o fôlego nos vôos do dragão, com uma extraordinária sensação de imersão em profundidade. E se temos momentos densos, embalados pela boa trilha sonora de John Powell, como aquela em que vários dragões surgem pouco a pouco na neblina até preencher completamente o quadro ou em um ataque de uma criatura gigantesca, também registramos o satisfatório uso da comédia e a existência de inúmeras espécies de dragões se prova um recurso acertado.

Detalhista, das sardas dos jovens vikings aos pelos no braço de Stoick, das escamas ao olhar profundo do dragão. Até as cenas aquáticas são tecnicamente perfeitas, e a água é um dos maiores desafios dos animadores. Também observe como o olhar triste e melancólico de Stoick ao confrontar e se desapontar com Soluço ganha mais vida do que se muitos atores de carne e osso o tivessem encenado.

Como Treinar seu Dragão é divertido, engraçado, dramaticamente eficiente e impactante ao deixar uma sensação agridoce enquanto testemunhamos o último vôo de uma excelente história de amizade.

Avaliação: 5 estrelas em 5.

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