Crítica | O Aprendiz de Feiticeiro

Jerry Bruckheimer, de A Lenda do Tesouro Perdido, é um dos produtores mais prestigiados em Hollywood – o que é sinônimo de talento, e sim atestado de seu enorme conhecimento de mercado. Baseando sua obra em blockbusters, Jerry aposta na fórmula clássica com mocinhos e vilões bem delimitados, um roteiro linear e simplório e o uso maciço de efeitos especiais. Apesar de ser (quase sempre) sucesso nas bilheterias, suas obras apenas ganham mais relevância quando fogem da mesmice, como em Os Piratas do Caribe.

O Aprendiz de Feiticeiro, porém jamais se prontifica de se aproximar desse exemplar. Superficialmente inspirado no clássico da Disney Fantasia, estrelado por Mickey Mouse, a aventura encontra a velha história de um jovem que detém poderes além de sua compreensão e que precisa aceitar seu destino com a ajuda de um mestre pouco ortodoxo para salvar a humanidade de uma ameaça.

Apresentando sua narrativa em um confuso prólogo onde conhecemos a história de Merlin e seus três discípulos, Balthazar (Nicolas Cage), Horvath (Alfred Molina) e Veronica (Monica Bellucci), o filme salta vários séculos para conhecermos Dave (Jay Baruchel), um garoto que o anel do dragão escolheu como o Primeiro Merliniano. 10 anos depois de um incidente que custou ao jovem sua popularidade na escola, Balthazar o reencontra para recuperar e proteger o Grimhold em que estão aprisionados os mais perigosos magos.

Sem jamais fugir da velha escola de mocinhos e vilões, o roteiro escrito a seis mãos, e provavelmente pensado por outra dúzia de cabeças, apresenta inúmeras lacunas que, ao longo da projeção são escondidos pelo ritmo alucinante da ação e os bons efeitos especiais. Porém, depois me perguntei: por que um feiticeiro poderoso como Horvath sua para fugir de um metrô em sua direção se ele podia apenas usar a magia? Ou por que ele, que pode rever o passado dos objetos (ou seja lá como for), precisa que o garoto diga onde está o Grimhold se na cena posterior ele o encontra sem ajuda? E por que ele não obtém a informação hipnotizando-o, se ele faz o mesmo com um atendente da faculdade?

Essas perguntas têm a óbvia resposta de que se ele conseguisse tudo isso não haveria filme. Pois bem, reconhecendo que os efeitos especiais são a verdadeira estrela da produção, o diretor Jon Turteltaub sabiamente utiliza um vasto arsenal de poderes e magias que os feiticeiros se divertem ao longo do roteiro. A luta inicial de Balthazar e Horvath é um exemplo de um momento, que longe de excepcional, ganha pontos por mostrar que para aqueles homens, qualquer coisa ao redor deles pode ser usado como armas. Turteltaub também é feliz quando recria o momento de Fantasia em que o aprendiz tenta domar vassouras encantadas.

Porém, O Aprendiz de Feiticeiro tem problemas que tornam a experiência menos agradável. As gags não funcionam da maneira esperada, e a cena do treinamento (clichê neste gênero) com os raios de plasma ou a piada que se passa em um banheiro e envolve a prisão no espelho falham em arrancar sorrisos. A narrativa também carece de ousadia como no caso do espelho Húngaro, em que tudo ocorre de maneira invertida, mas é mal aproveitado.

Atuando no piloto automático, Nicolas Cage e Alfred Molina interpretam os rivais Balthazar e Horvath sem nenhuma camada de dimensionalidade – Cage é atormentado por um amor passado aprisionado na Grimhold e Molina quer destruir o mundo da maneira que der. Já Jay Baruchel é carismático e facilita o processo de identificação com o jovem.

Ultrapassado, apesar dos efeitos especiais modernos, O Aprendiz de Feiticeiro não tem defeitos ou qualidades dignos de destaque. Mas, sua falta de personalidade e de ambição em ser algo mais que uma mera aventura (sonhando talvez em estabelecer uma franquia), acabam sabotando uma experiência que apesar de pouco original, poderia ao menos ser agradável e empolgante.

P.S.: Após os créditos, há uma homenagem e uma revelação.

2 estrelas em 5.

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