Crítica | Deixe-me Entrar

O título Deixe-me Entrar apresenta um elemento da mitologia dos vampiros que afirma que as criaturas só podem entrar na residência (ou na vida) de alguém se forem convidadas. Pouco conhecido do público, pois não ajuda a vender livros, tem sido mais rentável transformar os vampiros em monstros cuja pele brilha ao serem expostos à luz do sol, fazendo com que Nosferatu e Drácula se tornassem bichos em extinção. Assim, é um sopro de vida que a refilmagem de Hollywood do excelente terror sueco Deixe Ela Entrar de 2008 seja tão bom nos aspectos certos e retome às origens do vampirismo criando uma personagem forte e enigmática como Abby.

Sem abandonar a essência do terror, proveniente dos medos interiores, a história gira em torno do relacionamento de figuras marginalizadas em seu ambiente: o garoto Owen (Kodi Smit-McPhee, de A Estrada) e a vampira Abby (Chloe Moretz, a Hit-Girl de Kick-Ass). Owen é um isolado em sua própria família – a figura materna apenas é vista à distância ou ligeiramente desfocada -, vítima de bullying no colégio e que começa a dar sinais de que poderá se tornar um perigoso serial-killer (vê-lo trajando máscara e faca é assustador). Até o hobby do garoto de espionar os outros vizinhos revela a natureza perturbada de sua mente. Já Abby é uma vampira que tem “12 anos há muito tempo” e é acompanhada de uma figura aparentemente paterna interpretada por Richard Jenkins – que aos poucos revela sua real natureza.

Revelando a natureza religiosa da luta entre o bem e mal, destacada no discurso de Ronald Reagan e nas imagens religiosas presentes no quarto da mãe de Owen, a narrativa questiona a definição de maldade. Somos capazes de julgar Abby que apenas busca saciar sua natureza, mas internamente exigimos uma espécie de punição cruel e retaliação aos jovens que subjugam Owen.

Fotografado com felicidade por Greig Fraser, cujo branco opressivo e gélido da neve e os tons avermelhados revelam o tom da narrativa, a direção de arte de Guy Barnes cria ambientes tomados por uma tristeza e ausência de vida, como é o caso dos apartamentos de Owen e Abby, este quase sem nenhum móvel.

O diretor Matt Reeves (Cloverfield) acerta na refilmagem nos bons aspectos, apesar de menos sutil que o original sueco. Em parte, porque a produção de terror norte-americana exige uma trilha sonora agitada nos momentos mais catárticos, e a trilha de Michael Giacchino investe em fortes batidas, similares ao batimento cardíaco. Apesar da trilha discreta, as melhores cenas recorrem a sons diegéticos como o acidente de carro visto do interior do veículo e na melhor cena do filme que ocorre dentro de uma piscina em que a câmera insiste em se esconder debaixo d’água. Por outro lado, elementos do original são modificados e a sexualidade de Abby, que antes afirmava “não ser uma garota”, parece ser ignorada na versão americana, e a escolha da bem feminina Chloe Moretz diverge da garotinha andrógena do original.

Por falar nela, Chloe Moretz comprova seu talento ao misturar ingenuidade e violência nos ataques realçada pela maquiagem e prejudicada pelo excesso de efeitos especiais. Uma espécie de Claudia, personagem interpretada por Kirsten Dunst em Entrevista com Vampiro, é curioso como Abby, mesmo talvez tão velha quando Claudia, enxergue as coisas como se fosse a primeira vez. Enquanto isso, Kodi Smit-McPhee está regular e explora a fraqueza do rapaz e a excitação ao ver brotar sangue de seu antagonista. Fechando o elenco, Richard Jenkins dá um show como a frágil figura paterna de Abby (inominado aqui), combinando uma voz fraca e um andar vacilante e pouco convicto.

Desnecessário do ponto de vista prático, Deixe-me Entrar pode até ser fruto da preguiça do espectador norte-americano em ler legendas pois, se é estranho refilmar uma obra com menos de 3 anos, ao menos Matt Reeves abraçou completamente o projeto e compreendeu sua alma, criando um filme que, apesar de inferior ao material de origem, é uma homenagem quadro a quadro e um eficiente exemplar de terror.

4 estrelas em 5.

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