Crítica | Os Agentes do Destino


Filão exaustivamente explorado, a obra de Philip K. Dick vem produzindo ao longo de décadas irrepreensíveis clássicos da ficção científica, como Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report, e outros menores, embora conceitualmente intrigante, como O Imposto e O Pagamento. Este Os Agentes do Destino infelizmente adentra na segunda categoria, girando em torno de uma Agência responsável por forçar todos a se manterem no caminho do plano de suas vidas, em outras palavras, evitar que o livre-arbítrio frustre as intenções de uma entidade maior, o Presidente, e as consequências contaminem o curso de todo o restante da coletividade. No entanto, quando o candidato ao senado David Norris (Matt Damon) descobre a existência da Agência e se apaixona por Elise (Emily Blunt, quem não se apaixonaria?), ele vai de encontro ao destino traçado para ele enfrentando os misteriosos agentes do título e seus super-poderes. A partir daqui, apenas recomendo a crítica para quem já viu o filme porque partes importantes serão inevitavelmente discutidas.

Mas, quem são os agentes do destino? Base da narrativa, a pergunta jamais é respondida apropriadamente pelo roteiro, bastando que saibamos que eles não são humanos e que existem desde o princípio da história da Terra. O vazio permanece na associação instintiva da figura do Presidente a uma espécie de Deus e os agentes a anjos implicando em uma saída na religião para ignorar maiores questionamentos. Infelizmente, os questionamentos vão mais além de meros conceitos e entender o porquê da água interferir nos poderes dos agentes é uma pergunta suspensa no ar jamais respondida (meses chuvosos, imagino, representam férias coletivas dos agentes?), assim como a necessidade de trajar um chapéu para transitar pelas portas ou como os agentes se viram em uma porta sem maçaneta circular.

Se ao menos oferecesse indícios ao espectador para criar teorias sobre estas perguntas, ótimo, porém a narrativa escrita e dirigida por George Nolfi se sustenta sobre palitos de fósforos cuja ruína é inevitável. Como ignorar as repercussões de inúmeras mudanças no dia-a-dia de David Norris na vida das outras pessoas? Ou será que derramar café no paletó e uma ligação de um ex-namorado são pequenos o bastante para que não surtam efeitos concretos no plano pessoal de outros indiretamente envolvidos? Se assim o for, certamente um violento acidente de carro com dois feridos alteraria a vida das vítimas, o que o roteiro parece ignorar terminantemente. Muito mais do que isso, os agentes parecem mais estúpidos do que os sujeitos que eles precisam ajustar. Apenas isto para explicar o cochilo de Harry (Anthony Mackie) ou como os demais ignoram este deslize na formação de um novo percurso na vida de David. Mas, pior do que estas perguntas, é a dúvida que provoca o procedimento de recalibragem realizado em Charlie (Michael Kelly), que modifica a sua opinião em certo momento, embora jamais seja realizado em David para que este mudasse seu sentimento em relação à Elise (espero alguém mencionar alguma coisa envolvendo coração e amor). Finalmente, o que dizer dos poderes aparentemente telecinéticos dos agentes e a jamais utilização destes naqueles momentos realmente importantes?

Apesar disto, Os Agentes do Destino não é uma catástrofe porque a direção constrói uma narrativa que, se não atinge o tom conspiratório ideal, ao menos é suficientemente interessante pela obstinação da história de amor de David e Elise. Destinados um para o outro desde planos anteriores, David e Elise têm intensidade, vivacidade e química nas competentes atuações de Matt Damon e Emily Blunt. Isto é fundamental para que aceitemos como David abdicaria de uma carreira na política apenas pelo desejo de vencer o determinismo imposto pelos agentes.

Com uma narrativa ágil que não apela para trilha sonora e uma montagem frenética, Nolfi elabora créditos iniciais que apresentam a ascensão e declínio de David nas pesquisas da eleição, e a fuga no mundo das portas consegue obter o efeito desejado, mostrando saltos cada vez maiores dos personagens até atingir a curiosa ironia de se encontrarem sem saída aos pés da Estátua da Liberdade. No entanto, o diretor não disfarça a descrença latente em diálogos antiquados (“Não importa quem vocês são, importa quem eu sou”) ou na infantilidade de, correndo o risco de ser flagrados pelos tabloides, David resolve ir para uma danceteria junto com Elise e o restante do eleitorado.

Contentando-se na alegoria livre-arbítrio versus determinismo, e ignorando subtramas como as consequências das pequenas ações de um sujeito na vida da comunidade em que está inserido e a supremacia do interesse público sobre os interesses pessoais de cada um, Os Agentes do Destino consegue a “proeza” de atear fogo nos poucos palitos de fósforo restantes que sustentavam a frágil narrativa naquele que é certamente o anticlímax mais decepcionante do ano.

Ou pelo menos é a prova de que uma boa premissa é uma oportunidade desperdiçada se não estiver acompanhada de um filme minimamente razoável.

2 estrelas em 5.

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One Comment on “Crítica | Os Agentes do Destino”

  1. Rapaz, eu vi esse filme ontem. Não fico pensando tanto como você faz. Valeu como diversão. Aurélio.

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