A Hora do Espanto (2011)

A Hora do Espanto (Fright Night), 2011, Estados Unidos. Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Marti Noxon (baseado no filme e história de Tom Holland). Elenco: Anton Yelchin, Colin Farrell, Toni Collette, David Tennant, Imogen Poots, Christopher Mintz-Plasse. Duração: 106 minutos.
Ninguém jamais poderá acusar Hollywood de não adotar práticas ambientalistas pró-sustentabilidade: as reciclagens nessa indústria são tão intensas que o nascimento de novas idéias parece existir em uma utopia. Têm-se sequências, prequels, spin-offs, refilmagens, e outras coisas muito estranhas reaproveitadas igual a uma refeição requentada no micro-ondas. E após os personagens mais famosos do gênero de terror terem renascido na última década, chega a vez de produções menores, mas igualmente importantes e assustadoras, como o vindouro O Enigma do Outro Mundo e este A Hora do Espanto, refilmagens de clássicos que me recordo com enorme carinho da década de 80. Desnecessárias? Certamente! Mas, ei, há males que vêm para bem, e esta geração Crepúsculo (argh!) precisa de um vampiro assustador que não brilha no sol como uma fada.

Dito isto, o novo A Hora do Espanto funciona nos seus próprios termos, principalmente porque não se resume a apenas sugar a história original, realizando substanciais modificações nos arcos dos personagens e nos acontecimentos sem estragar a essência do clássico de 1985: evidentemente que, algumas surtem efeito imediato, enquanto outra empalidecem e transformam-se em pó. O que não retira o mérito da roteirista Martin Noxon em ousar, e poucas sabem como Hollywood é preguiçosa, conservadora e obsoleta nesse ramo!
Situando os acontecimentos em Las Vegas, uma idéia brilhante considerando o estilo de vida da maioria dos habitantes da cidade, somos apresentados a um lugar cercado por um estéril deserto em que condomínios de casas, isolados uns dos outros, parecem o reduto ideal para um vampiro secular. Este é o microuniverso onde Charlie Brewster (Anton Yelchin) descobre da pior maneira possível que o seu novo vizinho, Jerry Dandrige (Colin Farrell), é um vampiro que não vai se saciar enquanto não se alimentar de toda a vizinhança e construir uma tribo de vampiros – uma novidade que, longe de acrescentar algo relevante, apenas envergonha no terceiro ato. Auxiliado por Peter Vincent (David Tennant), o mais próximo que ele consegue de um caçador de vampiros, Charlie tentará cravar uma estaca definitiva no coração de Jerry enquanto tenta salvar sua mãe (Toni Collette) e sua namorada Amy (Imogen Poots).
Se a premissa é similar a de 85; o transcorrer da narrativa é antagônico: Charlie deixa de ser voyeur e quem desmascara a identidade de Jerry é Ed Evil (Christopher Mintz-Plasse); por falar em Ed, a sua vilania busca uma justificativa infantil na recusa da amizade de Charlie, diferentemente de quando o personagem era naturalmente cruel. Analogamente, Peter Vincent, menos aproveitado do que quando foi vivido pelo excelente Roddy McDowall, tem um elo de ligação desnecessário com Jerry, o que pouco influi ou modifica no resultado final. Além disso, A Hora do Espanto incha o seu elenco acrescentando coadjuvantes cujo único destino é forrar o estômago de Jerry e acrescentando a morte obrigatória dos minutos iniciais, sinais de novos tempos em que jovens contentam-se com quantidade ao invés da qualidade.

Esmiuçando elementos da mitologia de vampiros, necessários em face da lavagem cerebral feita por Stephanie Meyer, Ed recorda a tradicional regra que proíbe que um dentuço entre na casa alheia sem ser convidado e Peter Vincent descreve o que acontece quando esse é atingido por fogo. Apesar de expositivo nesses momentos, esses delizes podem ser perdoados porque a direção de Craig Gillespie acerta na ambientação inquieta, e graças à eficiente atuação de Colin Farrell, contemporaneamente diferente de Chris Sarandon, que tem uma ponta como o desafortunado motorista que colide no carro de Charlie no deserto.
Ao invés da abundante neblina e sombras, a fotografia de Javier Aguirresarobe acerta no isolamento claustrofóbico e no tom sombrio das noites mal iluminadas do deserto de Las Vegas. A trilha sonora de Ramin Djawadi também é boa, tornando-se excepcional nos momentos em que evoca os acordes agudos e desafinados das primeiras produções de vampiros. A direção de Gillespie julga necessária a inclusão de uns sustinhos aqui e outros acolá; entendo o diretor, pois busca seduzir um público mais jovem e influenciável. E, embora isto não justifique a anticlimática cena na boate – no original era um dos pontos altos -, Gillespie na revelação de Jerry a todos e a posterior perseguição no deserto de Las Vegas o melhor momento da narrativa (e você sequer desconfia o destino da moto de Charlie).

Acertando na escalação de Anton Yelchin, mais seguro do que William Ragsdale era, o filme peca na mudança abrupta de comportamento de Charlie da mesma maneira em que transforma Peter Vincent em um cara nem um pouco interessante (imagine um Russell Brand sem graça). Por outro lado, Colin Farrell afugenta o ar aborrecido e desinteressante de Sarandon (que funcionou em 85), e desenvolve um vampiro cativante e perigoso, igualmente apaixonado na caçada a suas presas. Disparando frases de efeito (a minha preferida é “encontro vocês mais tarde“), é uma pena que o momento capital da narrativa, “a hora do espanto pra valer“, dure tão pouco, e seja tão desinteressante e óbvia.
Substituindo a eficiente maquiagem e efeitos de Richard Edlund, por uma computação gráfica menos impactante por ser mais fictícia, e conferindo ares contemporâneos aos personagens, A Hora do Espanto sequer alcança as solas do sapato do original; mas, a seus termos, é uma diversão decente.
P.S.: clique aqui para ler a crítica de A Hora do Espanto de 1985.
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