Amanhã Nunca Mais

Amanhã Nunca Mais (Idem, Brasil, 2011). Direção: Tadeu Jungle. Roteiro: Tadeu Jungle, Marcelo Muller, Maurício Arruda. Elenco: Lázaro Ramos, Maria Luiza Mendonça, Fernanda Machado, Milhem Cortez. Duração: 74 minutos.
Criticar a qualidade do cinema nacional, superestimando a produção norte-americana, é um erro crasso habitualmente cometido pelo espectador brasileiro, adepto a buscar a nova comédia romântica ou o thriller de ação do momento e incapaz de enxergar que tem uma das mais diversificadas e culturalmente ricas produções do mundo inteiro. Na minha opinião, apenas atrás da Coréia do Sul, Romênia e Argentina, o cinema brasileiro somente este ano nos brindou com uma dezena de ótimos filmes, como O Homem do Futuro, O Palhaço ou Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios. É uma pena, portanto, que precipitadamente julgamos o nosso catálogo de filmes por algumas bobagens desprezíveis como Cilada.com ou Assalto ao Banco Central, grandes produções nacionais, esteticamente similares às novelas da Globo (argh!), e que justamente por causa destas duas características, poluem o maior número de salas em todo o Brasil, enquanto pequenas gemas como este Amanhã Nunca Mais as vezes sequer vêem a luz do dia.

Escrito por Tadeu Jungle, Marcelo Muller e Maurício Arruda, o roteiro nos apresenta Walter (Ramos), um médico paulistano diariamente submetido à estressante panela de pressão cotidiana, na sua família, no trânsito caótico ou no hospital onde é médico anestesista residente, o que o impede de dormir há dois dias. No dia do aniversário de sua filha, ele gentilmente se dispõe a buscar o bolo da festa da garota sem saber que a sua exagerada subserviência e incapacidade de dizer Não iriam lhe proporcionar um dia inesquecível, na pior forma possível.

Desenvolvido como uma espécie de Um Dia de Fúria, sem evidentemente a bazuca e trajando o jaleco branco, inoportunamente confundido com o traje dos enfermeiros, Amanhã Nunca Mais é uma crítica ao estilo de vida caótico e implacável das grandes cidades, maltratando os seus habitantes a viverem escravos de uma rotina desgastante, engessados nos excessos de uma metrópole. Dessa forma, o diretor estreante Tadeu Jungle captura e transmite perfeitamente os estímulo visuais (as luzes de neón e a iluminação intensa) e sonoros (as nefastas buzinas dos carros), e consegue a partir deles traçar um perfil adequado do estado psíquico de seu protagonista.

Homenageando Fellini e o clássico 8 1/2 no claustrofóbico e sufocante engarrafamento, onde até mesmo um balão não consegue flutuar e escapar, Tadeu Jungle exibe alguns excessos de estreante, principalmente em enquadramentos deselegantes ou sem propósito narrativo, como o fetiche de destacar os pés de Wálter na praia ou no dormitório do hospital. Por outr lado, o cineasta é feliz ao exibir o retorno antecipado da praia à capital e a montagem anterior que transforma a experiência de Wálter em um tormento, desde a sogra controladora a um sujeito flertando com a sua esposa. Apesar disso, é repetitivo e irritante o esforço dos montadores Estevan Santos e Jon Kadoska de enfatizar exaustivamente os momentos em que Wálter diz que algo é impossível de fazer, para no corte seguinte estar fazendo-o.

Restringindo-se a acontecimento pitorescos e inusitados, o roteiro apresenta uma cirurgia grosseiramente mal feita, o atropelamento de um motoqueiro e um casamento judeu (!), e nesse universo, coadjuvantes de luxo como Milhem Cortez (o colega médico narcisista), Maria Luiza Mendonça (uma ex-moradora de sua rua) e Luís Miranda (o motoqueiro) roubam a cena e impõem um gigantesco peso nas costas de Wálter sempre que se dirigem a ele. Por sua vez, Lázaro Ramos, ator competente e talentoso, enfatiza a fragilidade de seu personagem no gaguejar e na articulação precária de idéias, na postura curvada e cansada e na ausência de contato visual com os interlocutores. Os próprios óculos do protagonista robustecem, em dois momentos, a vulnerabilidade do protagonista.
Enquanto isso, a fotografia de Ricardo Della Rosa, um de nossos melhores profissionais em atividade, é excepcional, capta a tensão e o nervosismo nos menores detalhes da expressão de Wálter, confirmando que o sujeito está à beira de ruir em um ataque de nervos, além de conferir vida a uma metrópole movimentada e agitada como São Paulo.

Encerrando com uma rima temática inteligente, que na velocidade dos carros nas ruas contrasta com o ritmo acelerado dos créditos iniciais, Amanhã Nunca Mais é rápido, tenso, ágil e engraçado, sobretudo, um indício de que Tadeu Jungle é um talento a se observar atentamente.

Obs: Crítica originalmente publicada na Cobertura da 35ª  Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
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