Adorável Avarento

Adorável Avarento (Scrooge, Inglaterra, 1970). Direção: Ronald Neame. Roteiro: Leslie Bricusse baseado na história de Charles Dickens. Elenco: Albert Finney, Edith Evans, Kenneth More, Michael Medwin, Laurence Naismith, David Collings, Alec Guinness, Suzanne Neve. Duração: 113 minutos.
Tão popular quanto a história de Kris Kringle, nome atribuído popularmente ao bom velhinho nos Estados Unidos, é o conto de natal de Charles Dickens sobre o avarento e solitário Ebenezer Scrooge que, visitado pelos fantasmas do natal passado, presente e futuro, descobre o verdadeiro valor da festividade desprezada anteriormente. Tendo originado dezenas de adaptações para o cinema e televisão, como musicais, animações e reimaginações (nesse especial vimos Os Fantasmas Contra-Atacam, mas é salutar lembrar que inclusive uma comédia romântica usou a proposta, no caso, Minhas Adoráveis Ex-Namoradas), a história original de quase dois séculos de idade é riquíssima em possibilidades e liberdades criativas para os cineastas, além de possuir uma das mensagens mais inspiradoras para o período de festas. Por sua vez, esta adaptação musical, batizada nacionalmente de Adorável Avarento, é a mais completa e recompensadora das adaptações da história de Dickens.
Boa parte do sucesso deve-se a atuação inspirada de Albert Finney, visto desde os minutos iniciais meticulosamente contando moedas, afugentando as crianças do coral no beiral de seu comércio ou ignorando o convite de seu sobrinho Harry (Medwin) para a ceia natalina. Manco, curvado, constantemente ofegante e ligeiramente paralisado de um lado do corpo, o que torna a entonação de suas falas mais gutural e ameaçadora, Ebenezer Scrooge certamente sobreviveu a um derrame fruto possivelmente das vivência e experiências que teve na sua vida. Incapaz de afeiçoar-se das pessoas, não hesitando inclusive de cantarolar que as odeia, Scrooge parece destinado a passar o restante dos seus dias cobrando empréstimos, arrastando-se inevitavelmente para um solitário e triste fim de vida.
Até que na véspera do natal de 1860,  Scrooge é visitado pelo fantasma de Jacob Marley (Guinness), antigo sócio falecido alguns anos antes. Carregando as pesadas e dolorosas correntes levadas da vida terrena para o além, Marley comunica que ainda naquela noite Scrooge seria visitado por outros três fantasmas que lhe apresentariam os natais passado, presente e futuro. Dessa maneira, a estrutura do roteiro de Leslie Bricusse não apresenta invencionices na narrativa, e essa simplicidade torna a adaptação tão bem sucedida e charmosa. Em primeiro lugar porque Scrooge apresenta uma evolução evidente diante de nossos olhos, atravessando a fase da nostalgia (passado), a da melancolia (presente) e finalmente, chegando no arrependimento (futuro), e tornando fácil observar como aquele sujeito inicialmente bondoso torna-se cínico, frio e avarento. Além disso, o absoluto voyeurismo atingido pela incapacidade de Scrooge de influenciar as ações a sua frente, permite a reanálise dos erros e pecados que cometera ao longo da vida.
Ao revisitar sua infância e lembrar de como fora negligenciado no passado ou como abriu mão de um grande amor na belíssima cena envolvendo uma balança, duas moedas e uma aliança, Scrooge consegue tocar no momento exato em que a felicidade passou a importar menos do que o acúmulo de riquezas. Nesse momento, a fotografia de Oswald Morris é competente em acrescentar cores e luzes no passado saudosista, contrastando com o presente descolorido e escuro. De forma análoga, depois de convidado a testemunhar o pobre, mas feliz natal de seu empregado Bob (Collings) ou a ceia de seu sobrinho, Scrooge percebe a importância de estar acompanhado daqueles que o ama e que nutrem carinho e admiração por ele, notadamente, a importância da família.
Facilitando a aceitação da narrativa, apesar das manifestações sobrenaturais frequentes, a direção de Ronald Neame não hesita em retornar ao leito de Scrooge após cada nova visita dos fantasmas. Introduzindo detalhes que ajudam a enriquecer a personalidade de Scrooge, Neame ressalta o hábito do protagonista de, com os dedos umedecidos, conferir se a vela está realmente apagada, ou o roçar de mãos de Bob para indicar o frio rigoroso no banco de empréstimos. Enquanto isso, a direção de arte de Terence Marsh, além de recriar a Inglaterra da metade do século XIX, transforma a casa de Scrooge é um assustador e escuro ambiente, cheio de teias de aranha, cortinas rasgadas e móveis envelhecidos, sinais da podridão que consome inclusive a personalidade de seu proprietário. 
Por sua vez, apesar da maioria dos números musicais não ser contagiante, as melodias I like life, cantada por um embriagado Scrooge e o fantasma do natal presente, e Thank you very much, entoada pelos felizes devedores surpreendidos com a notícia da morte do avarento credor, sobretudo no recompensador clímax, emocionam e dão a grata sensação da plena recuperação da generosidade inerente e aprisionada no interior do coração de Scrooge. Além disso, é inegável que as músicas empurram a narrativa adiante, acrescentando elementos discretos e sugestivos de cada personagem – a resignação de Bob no princípio materializa-se na maneira agradecida que adquire presentes misteriosos ou um franzino peru de natal.
Contando com excelentes efeitos especiais, alguns verossímeis e atuais mesmo para os elevados padrões atuais, a atuação de Albert Finney destaca-se assim como a presença do Sir Alec Guinness (para quem não o conheci, o jedi Obi Wan Kenobi). Porém, a contagiante mensagem guardada na alegre celebração natalina nos 20 minutos finais prova que relembrar o passado e ponderar o futuro são armas importantíssimas para que, no presente, possamos ser pessoas melhores com o próximo e com nós mesmos. 
Lição que Ebenezer Scrooge aprendeu, e embora tardiamente, é o suficiente para que ele consiga se tornar um homem melhor no restante de tempo que lhe sobra.
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