Feliz Natal

Feliz Natal (Joyeux Noel, França/Alemanha/Inglaterra/Bélgica/Romênia/Noruega, 2005). Direção: Christian Carion. Roteiro: Christian Carion. Elenco: Diane Kruger, Brenno Furmann, Guillaume Canet, Gary Lewis, Dany Boon, Daniel Bruhl, Alex Ferns, Lucas Belvaux, Steven Robertson. Duração: 116 minutos.

O símbolo mais frequente apresentado durante Feliz Natal = indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006 – é o de uma vela acesa, a acolhedora e quente luz sobre aqueles que na escuridão da primeira guerra mundial, entregavam-se à violência e à carnificina na égide de suas baionetas. Essa é uma escolha adequada, não apenas pois este é um autêntico filme natalino, mas sobretudo, porque a universalidade do autosacrifício da vela, plenamente consumida para gerar luz, é similar ao daqueles homens, que contrariando os seus superiores e arcando com as consequências, não hesitaram em promover ao menos por um dia a fraternidade máxima na comunhão de três povos – franceses, alemães e escoceses – no mais improvável dos lugares, as trincheiras. É a afirmação da esperança na humanidade, idealizada na confraternização e encerrada em uma mensagem bonita e otimista.

Dramatização de eventos reais ocorridos na primeira guerra no ano de 1914, quando divisões na linha de frente do combate declararam, informalmente e sem autorização superiora, uma trégua por ocasião do Natal, o roteiro de Christian Carion apresenta a ficcionalização de uma daquelas seções e a união deles através da música e cânticos natalinos. Centrando-se especialmente nos líderes de cada fronte, o francês Audebert (Canet, o irmão gêmeo de Patrick Dempsey), o alemão Horstmayer (Bruhl) e o escocês Gordon (Ferns), e nos catalisadores daquela união, o casal de músicos Nikolaus (Furmann) e Anna (Kruger), bem como o conciliador padre Palmer (Lewis), Carion investe sensivelmente nas diferenças culturais daqueles povos e na transformação de adversários em irmãos de carne e osso, mais próximos do que aqueles que compartilham as mesmas cores da bandeira e clamam por sangue. Dessa forma, a doutrinação de três crianças nas salas de aulas segundo o pragmático zoom in inicial remonta a brutal alienação que nos conduz a odiar outros povos, fazendo com que aqueles homens isolados no frio invernal e nas pálidas cores da fotografia de Walther van den Ende, sacrifiquem além do âmbito militar, como adbicam das próprias cores das pátrias. Ironicamente, é isto o que os torna humanos.

Assim, Christian Carion fartamente abraça as semelhanças daqueles homens despindo-os do que os dinstingue na guerra (fardas, patentes, etc). Dessa forma, a celebração da missa natalina é antecedida por um belo momento no qual todos removem seus quepes e se unem em uma multidão não de pátrias, mas de seres humanos. Igualmente, o enterro dos mortos na guerra dissocia aquelas vítimas das armas e uniformes; todos eles serão sepultados debaixo da mesma terra, independentemente da nacionalidade ou do motivo que os levaram à guerra. O compartilhamento do ambiente e da paleta de cores sem vida, na qual nem mesmo o casaco vermelho de Anna destaca-se, e da iluminação fraca de velas e do reflexo do sol na alvura da neve une mais aqueles homens que não encontram distinção e questionam-se dos porquês daquela guerra descabida. Particularmente, me sensibilizou a conversa entre Audebert e Horstmayer sobre tomar um café, um desejo que pareceria banal, mas naquelas condições surge quase na forma de epifania.
Brincando com os símbolos introduzidos pela narrativa, a montagem de Judith Rivière Kawa e Andrea Sedlácková é pertinente no uso do raccord de velas – as apagadas, contraste com a ansiedade de ir para a guerra, e as acesas, no recital do Ave Maria e a anunciação da guerra – e nas elegantes elipses, especialmente a das chamas de uma lareira no reencontro de Nikolaus e Anna ou na leitura das cartas enviadas pelos soldados.
Mas, o apogeu de Feliz Natal é, sem sombra de dúvidas, o som das gaitas de fole acompanhada pelo tenor Nikolaus cantando Noite Feliz e Ó Vinde Adoremos com a entrega determinada de uma árvore de Natal a homens que naquele exato momento desconfiavam e sequer sabiam como proceder àquela gentileza e desapego. Reavivando a esperança a tristes soldados, o cessar fogo é um ápice emocional que o restante da narrativa não consegue superar. A destruição de uma gaita, a qual simboliza a rebeldia e comunhão daqueles soldados, seguida do murmuro de um cântico sibilante e forte, funciona justamente porque mantém uma coerência narrativa – é curioso também como aquele quem destrói a gaita seja quem se apresentou fascinado pelo recital promovido por Anna.
Diluindo o tom dramático e finalista da guerra, Carion permite-se a inclusão de alívios cômicos, como a disputa por um gato cujo nome pode ser Nestor ou Félix dependendo da pátria que o houver adotado, ou a destruição da trincheira francesa seguido da reclamação frustrada “teremos que reconstruir tudo isso”. A narrativa não ignora o criticismo e cutuca a figura de um alemão judeu ou a nociva pregação de um membro da Igreja, convocando seus fiéis a empunhar armas e derramar o sangue alemão. A intolerância do sermão confirma a participação da instituição católica legitimizando a carnificina, contrastando com homens misericordiosos e fartos da matança, sem a influência decisiva e cega de políticos e religiosos, que conseguem promover o bem de uma maneira simples e despretensiosa.

 

Com um elenco refinado e carismático – exceção ao seco e rígido escocês Jonathan (Roberts), cuja frieza, apesar de compreensível, destoa de todo o restante -, a contagiante beleza de Diane Kruger e a presença de coadjuvantes que surpreendem ou por um pequeno detalhe (como aquele que mantinha um relógio para lembrá-lo da vida cotidiana antes da guerra) ou por uma revelação, Feliz Natal é uma ode belíssima de se ver e sentir.
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