Imortais

Imortais (Immortals, Estados Unidos, 2011). Direção: Tarsem Singh. Roteiro: Charley Parlapanides e Vlas Parlapanides. Elenco: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans, John Hurt, Joseph Morgan, Anne Day-Jones, Greg Bryk. Duração: 110 minutos.
A Grécia antiga é um repositório de ótimas histórias de coragem e aventura de um povo hábil em narrar os mitos de seus heróis, conciliando o ritualismo e a adoração a suas divindades com os pormenores da humanidade na antiguidade. Importante social e religiosamente para a época, a mitologia grega foi responsável por educar as crianças e entreter os jovens e adultos, provando seu valor histórico ao conquistar a sociedade contemporânea com os feitos de Hérculos e seus doze trabalhos e a lendária batalha de Perseu contra a medusa, ou apresentando lições de moral e relatos psicológicos nas entrelinhas da vaidade de Narciso, no complexo de Édipo ou no sonho de grandeza de Ícaro e suas asas de cera. Filmes como Fúria de Titãs e a adaptação de Percy Jackson e o Ladrão de Raios comprovam que a indústria hollywoodiana voltou seus olhos à Grécia e não esqueceu dos lendários e icônicos embates entre deuses, titãs, semideuses e heróis, produzindo o visualmente belo, mas narrativamente oco Imortais.

Dirigido por Tarsem Singh, conhecido pelo rigor estético e o visual arrebatador que acrescenta a suas obras sem o devido suporte no conteúdo e na substância narrativos, características comprovadas em A Cela e Dublê de Anjo, não deixa de ser irônico que Imortais tenha ares de um filme mais autoral do que uma adaptação de um mito grego. Pudera, o roteiro de Charley e Vlas Parlapanide descarta completamente a lenda de Teseu (Cavill), transformando-a em uma espécie de 300 e substituindo a Batalha das Termópilas pela desesperada tentativa de conter o avanço do sanguinário rei Hipérion (Rourke) que deseja vingar-se dos deuses libertando os titãs aprisionados no Monte Tártaro.  Afim de não esquecer suas raízes, os roteiristas, ansiosos em reproduzir a famosa batalha de Teseu contra o minotauro de Creta, desastradamente incluem não apenas uma, mas duas referências explícitas da besta e comprovam o enorme calcanhar de Aquiles – irresistível e oportuna menção! – no roteiro bobo e quadradão que trabalha subtítulos como o herói messiânico, livre-arbítrio, paganismo e fé com a destreza de uma criança empunhando o arco de Epiro.
Aliás, a busca por esse artefato é o momento mais embaraçoso de Imortais. Incrustrado em uma rocha e, acidentalmente, descoberto por Teseu, o arco de Epiro eventualmente pára nas mãos de Hipérion após uma armadilha orquestrada por seus asseclas, pressentida por Teseu e Stavros (Dorff) e avisada ao monge (Bryk), e que ingenuamente são vítimas do embuste. Além disso, a trajetória de Teseu é esquemática, exigindo que o campesino testemunhe a violenta morte da mãe para motivá-lo a buscar vingança, mas não antes dele se tornar escravo nas minas de sal, fugir, apaixonar-se pelo oráculo Phaedra  (Pintio) e liderar os Helenos na batalha final depois de um discurso motivacional chulé estranhamente capaz de reanimar os quase desertores soldados. Abundante em diálogos expositivos (a conversa dos escravos sobre os Oráculos) e outros clichês e artificiais (“Em tempos de paz, os filhos enterram os pais. Em tempos de guerra, os pais enterram os filhos” ou “Ele pode liderar, mas tem que ser a escolha dele”), os roteiristas ainda incluem um estranho discurso sobre a importância do sêmen proclamado pelo rei Hipérion.
Por mencionar o vilão da narrativa, Mickey Rourke parece não ter aprendido nada do ostracismo que experimentou durante mais de uma década. Escolhendo quaisquer projetos que jogam na sua frente, o ótimo ator acrescenta virilidade ao rei Hipérion, mas baseia a sua composição exclusivamente em mastigar frutas na frente de seus interlocutores (especialmente o traidor Lisandro, interpretado por Joseph Morgan) ou castigar e torturar seus inimigos e inclusive aliados, como válvulas de escape de momentos de raiva e crueldade. Essa maldade é inversamente proporcionalmente a inteligência de Hipérion pois, buscando vingar-se dos deuses, omissos quando sua família perecera, o roteiro sequer determina exatamente como o rei domaria os titãs depois de libertados na Terra. Esse desempenho abaixo da média abre espaço para que Henry Cavill destaque-se, apesar das limitações evidentes no material original, revelando-se competente e carismático (um bom sinal para os fãs do homem do aço, pois Cavill será Kal-El no lançamento vindouro). E se Stephen Dorff ou Freida Pinto não tem o que fazer com seus personagens engessados, os deuses do monte Olimpo liderados por Zeus (Evans) tem o único propósito de parecer grandiosos nos figurinos dourados, e protagonizar intervenções decepcionantes (o tsunami é decididamente um anti-clímax) e lutas meia-boca.
Nesse sentido, Tarsem Singh faz um trabalho extremamente burocrático e repetitivo na condução de combates lineares e duelos mano-a-mano. Afinal, como justificar quatro flechas que disparadas consecutivamente, misteriosamente atingem alvos distintos simultaneamente? Recorrendo à violência gráfica, Tarsem investe no 3D que, embora não seja narrativamente funcional, ao menos não é descartável. Assim, se a projeção de um galho é preciosista e supérflua e a fotografia de Brendan Galvin demasiadamente escura em ambientes fechados, os planos com grande profundidade de campo e as tomadas panorâmicas destacam-se na escala da utilização do 3D, como a visão da Terra do Monte Olimpo e o vultuoso acampamento de Hipérion visto de uma montanha. Por sua vez, a predileção de Tarsem por planos plongés que, de maneira óbvia, mas eficiente, remetem a visão dos deuses e introduzem inteligentemente a prisão dos ameaçadores titãs, e por elegantes travellings que conferem o aspecto visualmente épico da aventura, não conseguem infelizmente suprir as carências e deficiências narrativas.
Tratando-se de um filme claramente de Tarsem, os figurinos das virgens do Oráculo apresentam-se belíssimos e impactantes, embora não desempenhem nenhum papel quiça o de uma burca estilizada. Da mesma forma, os elmos utilizados por Hipérion também não refletem nada a respeito de sua personalidade sendo particularmente irrelevantes para o decurso da ação. Mais feliz é a direção de arte de Tom Foden, grandiosa e sombria, destacando-se o cemitério onde Teseu sepulta a sua mãe e os caminhos que culminam na bela prisão dos titãs. Por outro lado, a montagem de Wyatt Jones, Stuart Levy e David Rosenbloom falha em imprimir o ritmo de urgência e perigo que a narrativa exige, tornando-a enfadonha na vã tentativa de conferir fluência a fusões infantis como aquele que busca a correspondência entre uma máscara e o navio
Culminando na montagem derivada entre três batalhas distintas e igualmente entediantes, Tarsem não hipnotiza o espectador como fizera em A Cela, tornando impossível desviar os olhos dos defeitos de uma narrativa que encanta os olhos, mas envergonha a fonte original de sua inspiração. Eu poderia recomendá-los Melpômene, apesar de duvidar que os produtores de Imortais reconhecem a enorme importância de uma musa.
Próximo

Carlos

Carlos (Idem, França/Alemanha, 2010). Direção: Olivier Assayas. Roteiro: Olivier Assayas, Dan Franck e Daniel Leconte. Elenco: Édgar Ramírez, Alexander Scheer, Alejandro Arroyo, Fadi Abi Samra, Ahmad Kaabour, Talal El-Jordi, Juana ... Read more

Anterior

Tudo pelo Poder

Tudo pelo Poder (The Ides of March, Estados Unidos, 2011). Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon baseado na peça de Beau Willimon. Elenco: Ryan Gosling, ... Read more

10 Comments on “Imortais”

  1. O mérito do filme vai pelo visual, bem típico do Tarsem Singh.

    Mas a cena final, dos guerreiros lutando no céu, é sensacional! (Mas uma vez o visual que cega! Até que gosto disso).

  2. Lógico que é exagerada a crítica! Combates meia-boca???? O crítico viu o filme???

    Abundante em diálogos artificiais: "Em tempos de paz, os filhos enterram os pais. Em tempos de guerra, os pais enterram os filhos"
    Ora, ora, mas isso não é verdade?

    As flechas acertando ao mesmo tempo o alvo. Caro crítico, ZEUS existiu? Então, quatro flechas disparadas por um arco mágico podem fazer qualquer coisa. tsk…tsk…tsk… É UM FILME!!!

  3. O Márcio apresenta suas ideias com argumentos. Acho que sua crítica promove o debate, como deve ser, mas estes se baseiam em argumentos. Você só retrucou – o que é válido e de direito seu, é claro – sem estruturar suas ideias. Acho que acusar o crítico de não ter assistido o filme pelo simples fato de discordar de você, bem, isso sim é exagerado.

    Enfim, sobre o filme, todo mundo me alertava e eu relutava em aceitar que não seria bom, já que adorei o trailer – só eu, mas ok. Me parece uma cópia de 300, que não sou fã e acho que o excesso de slow-motion interrompe a ação e torna ela menos eficiente, não sei se é o caso. Pra todos os efeitos, estou curioso e devo conferir!

  4. JMGonçalves, eu vi o filme e pelas razões que expus mantenho que a ação é burocrática e sem graça, o filme é clichê e, bem, não é porque é um filme de deuses, monstros, fadas ou super-homens que todas as regras da lógica devem ser quebradas.

    Se você gostou, é um direito seu, e obrigado pelo comentário.

  5. esse filme é uma droga!!!! não tem nenhum enredo, a estoria é um lixo!!!! perdi meu tempo vendo essa porcaria.

  6. Assisti o filme e concordo com boa parte da crítica. Ainda adiciono alguns detalhes: transformar o minotauro em um cara com capacete de arame foi péssimo, e isso sem falar no mítico labirinto de Minos que virou meia dúzia de corredores sem o menor mistério. Outra coisa foi ver os imponentes e poderosos deuses transformados em um monte de moleques magrelos com capacetes imbecis. Cadê o Zeus forte, imponente, com sua longa barba e cabelos brancos? Ah! Não está aí não! No lugar colocaram aquele magrelinho de barbicha adolescente! Infelizmente não convenceu.

    Só não concordo com a crítica ao Rourke. Claro que ele não é um super ator, mas se prestou muito bem ao papel de rei dominante e assustador. Ele trouxe para o papel o efeito que o Kiefer Sutherland trazia para o Jack Bauer, do tipo de cara que fala: ou você faz o que mandei ou te dou um tiro no meio da cara! E você acredita! Rourke convenceu como o rei violento, brutal, sujo e, nessa parte concordo, burro feito uma porta.

  7. Mas não falei do Rourke, e sim do papel que ele escolheu. Evidentemente que apenas por sê-lo, o rei Hiperion tem uma carga de brutalidade maior graças a quem o interpreta, porém a unidimensionalidade do vilão (e esqueci de comentar que ele quer se "vingar dos deuses") beira a bobagem.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *