Jules e Jim – Uma Mulher para Dois

Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (Jules et Jim, França, 1962). Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault baseado no livro de Henri-Pierre Roché. Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Serge Rezvani, Anny Nelsen, Sabine Haudepin, Marie Dubois e Michel Subor. Duração: 105 minutos.
CATHERINE, JULES E JIM – UM TRIO MEMORÁVEL
Antônio Nahud Júnior, O Falcão Maltês

Um dos filmes mais amados da história do cinema, JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS (“Jules et Jim”) é um bem disposto conto romântico francês realizado por François Truffaut (1932-1984) em 1962. Adaptado do romance semi-biográfico de Henri-Pierre Roché, no qual o escritor relata algumas lembranças de sua juventude, começa com as escapadas boêmias de dois companheiros inseparáveis (o alemão Oskar Werner e o francês Henri Serre) e continua com ambos nos braços de Catherine (ponto alto da carreira da musa Jeanne Moreau, na época namorada do diretor), uma garota libertária muito mais que uma simples conquista. Ela torna-se rapidamente o centro da vida dos dois, culminando numa longa série de ajustamentos emocionais e sexuais entre os três que se prolongam durante anos. A história termina em 1933 com uma trágica ocorrência. Influente, abordou de forma bastante polêmica o tema do triângulo amoroso e chegou a ser uma espécie de bandeira do movimento do amor livre nascido nos anos 60. Inspirou dezenas de outros filmes, entre eles “Willie e Phil / Idem” (1980), de Paul Mazursky.

Um dos exemplos máximos da filmografia do cult diretor, afirmando sua paixão por adaptações literárias. Despojado, com uma montagem fragmentada e vários toques criativos na narrativa, como legendas que aparecem de repente no meio da imagem ressaltando diálogos, celebra a amizade, o amor e a própria vida. A narração em off da história mostra que Truffaut quer ser o mais fiel possível à literatura quando faz cinema. Num jogo de cumplicidade entre literatura e cinema, o filme se desenvolve naturalmente. Cativante e extremamente sólido, destaca-se também com a bela trilha sonora composta por George Delerue – um dos nomes obrigatórios da Nouvelle Vague – e os desempenhos assombrosos de Jeanne Moreau, Henri Serre e Oscar Werner (que trabalharia novamente com Truffaut em “Fahrenheit 451”, 1966) – um dos maiores atores do cinema europeu. Leviana e egoísta, a personagem da magnífica Jeanne rouba a cena. Ela nos brinda com uma memorável atuação e inesquecíveis momentos, como ao cantar “Le Tourbillon de La Vie”, ou na cena em que corre vestida de rapaz. A atriz voltaria a filmar com Truffaut no excelente noir “A Noiva Estava de Preto” (1968).

Denso, ousado, imaginativo e irreverente, evidencia também o estilo humanista do diretor, que realiza aqui mais um dos seus notáveis trabalhos. Ele imprime uma direção ágil, visceral e enérgica, apoiada pelo jogo de câmeras de Raoul Coutard. Lírico e ardente, é um filme repleto de paixão, cheio de vontade de viver, e aborda um tema tabu com tamanha delicadeza que fica difícil não se apaixonar pelos personagens. Truffaut considerava esse longa um dos prediletos de sua filmografia, e dizia sempre que foi feito para celebrar a intensidade e a fugacidade das paixões mais incendiárias. JULES E JIM deveria ser programa obrigatório para qualquer cinéfilo. Imperdível.

Publicação gentilmente produzida por Antônio Nahud Júnior, autor e editor do blog O Falcão Maltês, para o especial François Truffaut do Cinema com Crítica.

* Esta crítica faz parte do Especial François Truffaut do Cinema com Crítica que continua na segunda, 30 de janeiro, com Um só Pecado (1964).
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