A Mulher de Preto

(The Woman in Black), Inglaterra/Canadá/Suécia, 2012. Direção: James Watkins. Roteiro: Jane Goldman baseado no livro de Susan Hill. Elenco: Daniel Radcliffe, Janet McTeer, Ciarán Hinds, Sophie Stuckey, Roger Allam, Shaun Dooley, Mary Stockley. Duração: 95 minutos.



Desvincular-se de um personagem depois de quase 10 anos não é tarefa fácil, sobretudo se esse foi um dos maiores ícones do cinema recente, sugerindo a imediata estigmatização de seu intérprete. Assim, associar Daniel Radcliffe a Harry Potter é inevitável, pesando em seu desfavor o legado do bruxo, atualmente um esmagador fardo sobre as pretensões artísticas do jovem ator. Na verdade, Radcliffe tem um percurso duas vezes ingrato pois, apesar de ter amadurecido pessoal e profissionalmente ao longo dos 8 episódios da cinessérie, ele se inseria em um contexto infanto/juvenil e, outros atores de enorme potencial acabaram relegados ao ostracismo depois de emplacar sucessos antes da maioridade, como Macaulay Culkin e Haley Joel Osment. Sendo assim, é louvável o esforço do ator em reinventar-se no terror A Mulher de Preto, um exemplar convencional, mas eficiente, cujo propósito de borrar as não tão longínquas lembranças de Hogwarts do espectador é ligeiramente atingido.

O roteiro de Jane Goldman apresenta o advogado Arthur Kipps (Radcliffe), enviado a um vilarejo no interior da Inglaterra no final do século XIX para realização de um inventário de uma família abastada. Assumindo a feição adulta, na barba a fazer e na responsabilidade paterna, Radcliffe não tem dificuldade em abandonar a varinha mágica, embora restrinja-se ao semblante deprimido de um viúvo cuja esposa pereceu no parto do seu filho único. Enxergado com desconfiança pelos supersticiosos nativos e acolhido pelo rico Sr. Daily (Hinds, em um papel distinto do habitual), a roteirista envia Kipps à assustadora mansão de Eel Marsh, mesmo que ignore os porquês dele trabalhar in loco (seria mais cômodo só coletar os documentos necessários e levá-los a Londres!). Lá, Kipps começa a escutar rangidos, barulhos, sussurros, vozes e gritos vindos dos cômodos da mansão e enxergar a aparição da misteriosa mulher de preto do título cuja visão é seguida da morte violenta de uma das crianças no vilarejo.

Apostando em uma narrativa derivada, que explora clichês (os documentos da mansão contêm a vingativa motivação da mulher de preto) e sustos de filmes de fantasmas e casas mal assombradas, inclusive aquele envolvendo o buraco de uma fechadura, a direção de James Watkins é eficiente em conceber um tom ameaçador e inquietante na neblina que permeia a região, investindo uma referência não tão original ao clássico Os Outros, e na rudimentaridade daqueles homens e mulheres não alcançados pela modernidade da capital. Além disso, a direção de arte de Kevin Quinn acerta na ambientação vitoriana dos cenários atmosféricos, poeirentos e escuros, introduzindo longos corredores, imponentes quadros pendurados na escadaria e misteriosos cômodos, povoados de bonecas de dentes afiados, arlequins e brinquedos de corda amedrontadores. Atento a detalhes, James Watkins ilustra economicamente as consequências do luto de Kipps no não cumprimento dos prazos no trabalho e o risco de inundação no pântano e, mesmo quando o roteiro apresenta relatos episódicos, estes soam imprescindíveis e não sintomas de preguiça, nesse sentido, a Senhora Daily (McTeer) é sacrificada, obrigada a desenhar e/ou descrever momentos cruciais.

James Watkins também tem domínio da linguagem do gênero, e frugal e contemplativamente desenvolve satisfatoriamente a narrativa, revelando aos poucos a mulher de preto (coincidências a parte, similar a uma das assombrações de Sobrenatural). Dessa maneira, sugerindo discretamente o véu negro no suicídio de três garotas, a fantasmagórica aparição é avistada a distância no cemitério improvisado em frente à mansão e nas janelas do segundo andar da mansão, para, enfim, aterrorizar Kipps no soberbo interlúdio de quase 20-25 minutos. Acentuando a insegurança no bom trabalho de câmera, Watkins equilibra o ponto de vista de Kipps com o de um “terceiro” oculto acompanhando silenciosamente os passos do advogado, brincando ao introduzir um “alarme falso” em um susto anunciado.

Por sua vez, a fotografia de Tim Maurice-Jones faz um excelente trabalho capturando o decadente e sombrio vilarejo na paleta de cores enegrecida e sufocante. Realizando um trabalho impressionante nos planos mais abertos, a panorâmica da isolada mansão de Eel Marsh contornada por um terreno pantanoso e diariamente inundado pela maré brilhantemente reforça o isolamento a que se submete Kipps. Por sua vez, ainda que os cortes secos prejudique a montagem de Jon Harris e vulgarize os sustos, mais ou menos amarrados à trilha sonora, o montador saí-se melhor na belíssima elipse da saída da locomotiva de Londres no pôr-do-sol alcançado o vilarejo na escura noite, um prenúncio do está a vir, concretizado no harmônico e satisfatório desfecho.

Pouco original, mas competente e corajosamente comprometido com a história contada, A Mulher de Preto pode ter um trabalho de interpretação de Daniel Radcliffe apenas competente mas, é um bom passo para ele se desvincilhar da figura que o alçou a fama.

Uma pena, porque com uma varinha mágica nas mãos e pronunciando o expecto patronum, ele poderia despachar facilmente essa dementadora… digo, a Mulher de Preto.

Curiosidade: o ator que interpretou Arthur na versão televisiva de 1989 de “A Mulher de Preto” fora Adrian Rawlins. Ele também participou das aventuras de Harry Potter, interpretando James Potter, pai do protagonista.


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16 Comments on “A Mulher de Preto”

  1. COMASSIM você fala que ele se reinventa logo nos primeiros minutos? O CARA PEGA O TREM PRA HOGWARTS E ENCONTRA COM O IRMÃO DO DUMBLEDORE! Não tem como ignorar.

    Só não consegui descobrir EXATAMENTE qual o final original do livro. No YouTube, tem o final do filme de 89, que é diferente desse de agora. Acho que ele só é viúvo nessa nova versão…

    Mas no frigir dos ovos, eu até gostei do seu texto. Ele é quase tão bom quanto o meu.

    TCHAU.

  2. Menininho revoltado. Harry Potter tinha família ou responsabilidade de adulto logo nos primeiros minutos? 😀

    Minha crítica está superior a sua, eu diria, 10 a 2.3!

    AU REVOIR.

  3. Gostei muito do filme. Levei uns bons sustos e acho que o Dan é bom ator, apesar do que dizem. Sempre parece melancólico demais, mas como você disse Márcio, ele e garante.

  4. Muito bom o filme. Remeteu-me quando criança assistia filmes com minha mãe até tarde… (pra dormir dava o que fazer depois…rsrs). òtima atuação de Daniel e ao meu ver, interpretou dentro das possibilidade que o filme apresentava.

    Sucesso

  5. O cão não sumiu. Ele aparece sendo levado dentro do carro, no banco traseiro do carro de Daily após aquela noite terrível. O filme é eficiente,simples e tem cenografia excelente. Não deve ser subestimado.

  6. Gente quero assistir o filme mas estou com medo de n conseguir dormir depois, quero saber se ele é mais terror ou suspense. Este filme se assemelha a qual tipo de filme?

  7. Tosco foi a velocidade como o trem passou sobre pai e filho no final do filme. Achei que passou naqueles trilhos um metrô ou trem bala por tanta velocidade. Se era uma estação de trem, porque o trem não parou ali e, se era uma Maria-fumaça, porque passou com tanta velocidade?

  8. Radcliffe vai precisar de um filme melhor pra mostrar se sua carreira vai ser como a do Leonardo DiCaprio ou como a do Macaulay Culkin. Aqui ele não tem muito o que fazer, além de ficar mostrando seus olhos azuis em closes totalmente desnecessários. É um festival de clichês, incluindo a trilha que avisa a hora do susto e estraga qualquer surpresa. Lá pelo meio, me deu até sono!

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