A Sereia do Mississipi

A Sereia do Mississipi (La Sirène du Mississipi, França/Itália, 1969). Dirigido: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut baseado no livro de Cornell Woolrich. Elenco: Jean-Paul Belmondo, Catherine Deneuve, Nelly Borgeaud, Martine Ferrière, Marcel Berbert, Yves Drouhet, Michel Bouquet e Roland Thénot. Duração: 123 minutos.

Na exótica ilha de Reunião, leste da África, o magnata do tabaco Louis Mahé (Belmondo) “encomendou” uma noiva para se casar através dos classificados de um jornal. Depois de meses se correspondendo e enquanto aguarda o desembarque do navio, ele é surpreendido por uma mulher que afirma ser Julie (Deneuve), apesar das feições não corresponderem as da foto que ele possuí. Alegando timidez para se justificar, ela não encontra muitos obstáculos para desposar o rico empresário e compartilhar a sua conta pessoal no banco, e tão logo os primeiros raios do sol dissipem-se no horizonte, ela foge com a fortuna de Louis.
Homenageando novamente Alfred Hitchcock após o ótimo A Noiva estava de Preto, François Truffaut adapta um outro livro de Cornell Woolrich que inclusive rendeu o recente (e fraco) Pecado Original com Antônio Banderas e Angelina Jolie. Engana-se, porém, quem pensa que a pretensão de Truffaut limitava-se a mimicar o estilo do mestre. Suas ambições eram maiores e, ultimamente, ruíram sobre ele no resultado final d’A Sereia do Mississipi, um dos maiores fracassos de sua carreira. Misturando a humanização e sensibilidade características da filmografia de Jean Renoir com o cinismo paranoico de Hitchcock, Truffaut elaborou uma obra cuja personalidade divide-se em dois extremos inconciliáveis: o clássico clichê do homem vítima da sua ingenuidade e refutada ousadia, e uma humilhante alienação emocional de personagens presos nas maquinações imprevisíveis de uma história de amor.
Incapaz de dimanar satisfatoriamente dentre elementos tão antagônicos, Truffaut tem mais êxito na primeira metade, mais racional, acrescentando furtivos detalhes de suspeita. Do estreito anel de casamento às mentiras na carta – “eu pensei que você preferisse chá!” – ou o desprezo em relação à morte do canário de estimação, Truffaut harmoniza a trilha sonora de Antoine Duhamel, inspirada nos trabalhos de Bernard Hermann, e os instantes de silêncio antecipados por Julie/Marion. Mas, apenas depois do inabalável plano-detalhe do baú, cujo conteúdo não havia sido ainda revelado, repousando pacificamente enquanto aguarda a infrutífera busca de Louis por sua esposa nos cômodos da casa,  que o inocente herói descobre o que os espectador já sabiam.
Mostrando-se econômico na narrativa, Truffaut insere a narração em voice over de Louis com o gerente do banco ao passo que aquele dirige imprudentemente pelas sinuosas estradas da ilha. Com a chegada de Berthe (Borgeaud) – a irmã de Julie -, a contratação de um detetive Comolli (Bouquet) e a decisão de Louis de matar a sua esposa, o roteiro começa a tropeçar nas coincidências que unem seus personagens, como a descoberta do paradeiro de Julie no comercial de um clube noturno ou um encontro às cegas nas ruas do litoral francês (é fácil imaginar como o acaso poderia ser facilmente sanável com retoques no roteiro). No entanto, é a mudança radical de tom de um filme de gênero inspirado no noir para um trágico romance que A Sereia do Mississipi revela enormes falhas.

Recorrendo a longos e embaraçosos monólogos para desvendar a personalidade dos personagens, Jean-Paul Belmondo é submetido à vexatória declaração de amor em frente à lareira ou ao desmedido escárnio no quarto de um hotel em Lyon, sintomas de que Truffaut desconhecia maneira adequada de demonstrar à obsessão de Louis. Incapaz de justificar de onde provém a fixação autofágica que consome seu herói (salvo, evidentemente, se julgar a beleza de Catherine Deneuve motivo suficiente),  Truffaut apela para o maniqueísmo de um relacionamento passado – novamente apresentado de maneira expositiva e equivocada.

Por outro lado, Catherine Deneuve tem mais sucesso com sua personagem, apesar das oscilações que ela exibe na narrativa. Típico retrato de uma mulher oportunista apaixonada pela vítima de sua trapaça, a piegas declaração de amor gravada no vinil acidentalmente destruída traduz perfeitamente a sua índole. Apaixonada, entretanto cativa da avidez por dinheiro, seu relacionamento é constantemente sabotado seja por influência de terceiros (o misterioso Richard que, inteligentemente, é ocultado na narrativa) ou pelo acaso, uma tirinha da Branca de Neve parece acusá-la injustamente (ou não?).

A exuberante fotografia de Denys Clerval, similar a das tramas internacionais de Hitchcock, ressalta a beleza paradisíaca da ilha de Reunião e do sul da França contrastando com a secura dos interiores da mansão e da casa de veraneio. Assim, a fotografia estabelece um paralelo importante entre os trajes caros e automóvel de luxo com sua aridez emocional, o que o torna mais próximo do que imaginava do metódico sócio.

Longe de ser o thriller noir esperado de um autor como François Truffaut, uma história de amor emocionante, convincente e rebuscada ou pelo menos um filme de gênero, A Sereia do Mississipi revela a confusão que seria conciliar os gênios de Alfred Hitchcock, Jean Renoir e François Truffaut no mesmo filme.

Eles poderiam gerar boas discussões e férteis ideias, mas no final, a necessidade de sobrepor-se ao estilo do outro acabaria produzindo uma desfuncional criatura sem identidade e apelo.

* Esta crítica faz parte do Especial François Truffaut do Cinema com Crítica que continua na quarta, 8 de fevereiro, com O Garoto Selvagem (1970).

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