O Garoto Selvagem

O Garoto Selvagem (L’Enfant Sauvage, França, 1970). Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault baseado nas memórias de Jean Itard. Elenco: Jean-Pierre Cargol, François Truffaut, Françoise Seigner, Jean Dasté, Annie Miller, Claude Miller, Paul Villé, Nathan Miller e Mathieu Schiffman. Duração: 83 minutos.

François Truffaut dedicava grande interesse pelo amadurecimento de jovens personagens submetidos à carga de responsabilidade naturalmente imposta pela vida, e mesmo que o autobiográfico Antoine Doinel (Os Incompreendidos e Beijos Roubados) tivesse tido sua cota de frustrações, pesares e angústias, nada se compara à primitiva e feroz experiência de aprendizado retratada n’O Garoto Selvagem. Baseado na história real de um garoto-lobo, apelidado de Selvagem de Aveyron, afastado do convívio da sociedade e encontrado nos bosques franceses no século XVIII, o roteiro co-escrito por Truffaut e Jean Gruault investiga as memórias e os relatórios do professor Jean Itard, o responsável por acolher o garoto e desenvolver um método de educação rudimentar e eficiente para sua ressocialização.

Adotando uma abordagem narrativa formalista e sistemática desde a captura do garoto, que viria a ser batizado de Victor (Cargol), a brilhante fotografia preto e branco de Nestor Almendros revive os estágios iniciais do cinema mudo na abertura com o efeito de iris característico das obras de D. W. Griffith, as imagens sujas e rabiscadas e as sombras marcantes provenientes da iluminação natural. Essa me parece a decisão acertada, haja vista a inabilidade de Victor em se comunicar mediante a fala, evoluindo posteriormente para um preto e branco tradicional e clássico após o garoto atingir a civilização e conviver com seus pares. Submetendo-se às imposições intrínsecas do material, Truffaut demonstra um autocontrole invejável desprezando as técnicas cinematográficas que ajudou a popularizar na nouvelle vague em prol de uma narrativa estritamente documental: planos estáticos, discreta mise-en-scène, cortes secos e o desenrolar uniforme, analítico e aprofundado no processo de aprendizado.

Essa incomum frieza do cineasta permeia completamente a narrativa, transformando-a em um registro clínico – o que é metodologicamente enfatizado pela narração voice over dos estágios do processo de ensino de Jean Itard -, e que encontra uma fresta de emoção na comovente afeição da governanta Madame Guerin (Seigner) pelo bem-estar do garoto. Dessa forma, Truffaut limita o interesse de Itard à mera experimentação científica, evitando o estabelecimento de um improvável relacionamento de pai e filho que seduziria facilmente cineastas experientes. Entretanto, fazê-lo implica em abdicar de uma variável essencial: o espectador, que inexoravelmente compartilhará a visão de Itard (personagem dominante na tela), relegando à “felicidade” do garoto ao amargo e distante segundo plano e  substituindo-o mentalmente por um avatar animalesco. É o procedimento quem é decisivo e o método empregado, não o resultado, por mais animador (ou decepcionante) que este poderia ser.

Não à toa, Truffaut evita contaminar a narrativa com as idiossincrasias de Victor, pois ele é um objeto de estudo, não tão diferente do que um rato de laboratório. E nos raros momentos em que o garoto observa de longe o bosque, o seu habitat natural, confinado detrás de grades de uma “prisão” (a mansão ou uma carruagem), é fácil observar que Victor teria mais a oferecer do que agir ou resistir à sedutora e recompensadora abordagem educacional de Itard. Além disso, em função dos eventos transcorrerem no século XVIII, é inevitável o aborrecimento do espectador diante dos métodos empregados por Itard, que envolvem associações simples de objetos e gravuras ou o aprendizado de palavras simples.

Provocando questionamentos – novamente, em um nível intelectual, desprivilegiando o emocional e o visceral – a respeito do que realmente é o melhor para Victor, a vida no bosque, onde ele estava perfeitamente adaptado, ou o difícil ingresso na sociedade humana, submetido ao crivo do tenaz conselho, as convulsões causadas pela intensidade dos estudos sugerem um esforço descomunal e, porque não, infrutífero e desnecessário de certo ponto de vista! Defender Jean Itard parece análogo a não questionar a colonização das Américas e a imposição do Cristianismo e os “bons modos e costumes” Europeus à população indígena. Mas, Truffaut (como diretor, roteirista e ator) transforma Itard em um indivíduo complexo, distante, porém reconhecendo sua importância para Victor. Crendo obstinadamente no método empregado, o professor reflete e indaga pontualmente acerca da sua eficácia e não hesita acrescentar desafios além da simples lógica (a determinação do sentimento de justiça é um dos momentos principais da narrativa).

Enquanto isso, Jean-Pierre Cargol convence na animalização do comportamento de Victor, observe como, apesar de reproduzir algumas ações ou obedecer comandos, ele mantém hábitos selvagens no recorrente batucar nas portas e paredes. Finalizado com a ótima trilha sonora de Antoine Duhamel que utiliza bastante Vivaldi, O Garoto Selvagem leva ao extremo a curiosidade de seu realizador pelo processo de amadurecimento do ser humano.

Infelizmente, para isso, François Truffaut abdicou de sua principal qualidade, a sensibilidade, em prol do cinismo e racionalização. Não duvido que esse seja um dos filmes da cabeceira do mestres Werner Herzhog.

* Esta crítica faz parte do Especial François Truffaut do Cinema com Crítica que continua na sexta, 10 de fevereiro, com Beijos Roubados (1968).


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