O Homem que Amava as Mulheres

(L’homme qui amait les femmes), França, 1977. Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Michel Fermaud e Suzanne Schiffman. Elenco: Charles Denner, Brigitte Fossey, Nelly Borgeaud, Geniviève Fontanel, Leslie Caron, Nathalie Baye, Valérie Bonnier, Jean Dasté, Sabine Glaser. Duração: 120 minutos.



Depois de uma filmografia praticamente dedicada a mulheres fortes, emocionalmente opressoras e, as algumas vezes, física e intelectualmente capazes de subjugar os homens ao seu redor, François Truffaut finalmente se retratou com o sexo masculino neste curioso e absorvente estudo de personagem que, assim como seu protagonista, é capaz de nos seduzir sem sequer vislumbrarmos, em um primeiro momento, os mecanismos do advento desta súbita atração. Não que o incorrigível casanova Bertrand Morane não tenha charme ou um olhar distinto, apto a despir uma mulher de ponta a cabeça e fazê-la regozijar disto, mas sua inerente timidez (acredite!), beleza ordinária e meia-idade não pareceriam “qualidades” almejadas por uma mulher a ponto de transformá-lo na reencarnação do Don Juan.

Antes disto, o título não poderia conceber uma ironia mais adequada e feliz, e “O Homem que Amava as Mulheres” ao mesmo tempo em que ratifica a atração sexual do casanova Bertrand Morane pelo sexo frágil, também alude a uma implícita misoginia mascarada de um vaidoso narcisismo. Vício este escondido no repentino impulso de elaborar uma autobiografia das aventuras amorosas vividas, a qual é escudada por uma editora (sim, uma mulher do sexo feminino, ao passo que seus colegas, do sexo masculino, torceram o nariz), embora cause repulsa e, ultimamente, leve a resignação da datilógrafa contratada para corrigir a ortografia e gramática, e transcrever os capítulos.

Para contar esta história, ocasionalmente narrada por Bertrand no decorrer da leitura das páginas do seu livro, François Truffaut opta por um tom episódico que, naturalmente, molda-se à imagem do inveterado sedutor e a forma como ele enxerga as mulheres ao seu redor. Suas conquistas, ao invés de representar alguma espécie de catarse emocional, e apesar de certas mulheres participarem de sua vida mais ativamente, não significam mais do que páginas a serem devoradas e posteriormente foleadas, deixando para trás o conteúdo e plantando na memória um broto de outra aventura sexual. Algo que Truffaut ressalta com especial inteligência ao lado da montadora Martine Barraqué nos saltos de um relacionamento para outro de maneira abrupta, desrespeitando não a fluidez e lógica narrativa, e sim a imagem das mulheres representadas pela “vítima” da vez de Bertrand.

Evidentemente que, adicionando elementos de sua experiência pessoal, François Truffaut não poderia deixar de recordar sua vida pregressa, e reparem como certas atitudes de Bertrand assemelham-se às de Antoine Doinel, o alter-ego do cineasta nos cinemas, especialmente em “Beijos Proibidos”. Além de exibir um complexo de Édipo insuperável pela mãe, o que justifica o comportamento volúvel na vida adulta, Bertrand também recorreu a bordéis, embora lhe falte a ingênua falsa impressão de que Doinel tinha de si mesmo ao julgar-se o amante ideal. Aqui, estamos diante de um homem mais cínico, o que não o torna um personagem desprezível graças a boa composição de Charles Denner, submisso à influência feminina quando esta lhe espera nua na cama e mantendo um tom de voz adocicado e rouco que jamais reflete as grosserias de sua visão deturpada, pelo contrário, o vulnerabiliza (o que fica claro quando certa personagem afirma que “ele possui um jeito especial de pedir as coisas, quase como se sua vida dependesse daquilo”). Nesse sentido, o roteiro escrito por seis mãos esforça-se em tornar Bertrand não o predador, mas ultimamente a vítima de seu próprio estilo de vida… literalmente, o que rende uma das conclusões mais antológicas da filmografia de Truffaut (mesmo que soe descaradamente exagerada, e o é).

Concebendo o fetiche de Bertrand pelas pernas nuas das mulheres, comparadas a compassos, desde logo na decepção poética ao encontrar-se com uma mulher trajando um vestido longo, o sujeito chega a ignorar as consequências de seus atos (provocar um falso sinistro automobilístico) mormente para descobrir o nome de uma mulher que surgiu ocasionalmente na sua vida. Quase uma espécie de imã do sexo feminino, provocando a repulsa dos poucos personagens masculinos da narrativa, Truffaut concebe quadros mais distanciados nos raros momentos em que Bertrand divide a cena com outro homem, o que leva a decisão de uma menor profundida de campo em quadros apertados e íntimos apenas a instintiva representação da personalidade magnética do sujeito.

Esboçando os preceitos da nouvelle vague, sobretudo na câmera em mãos acompanhando o caminhar de Bertrand beirando o clímax e nas externas, “O Homem que Amava as Mulheres” brinda o espectador com alguns dos diálogos mais memoráveis da fértil filmografia do seu autor, como a sarcástica constatação de que “Havia medicamentos para nos manter felizes. Isto não é muito romântico, mas eu acho engraçado, a ideia de que histórias de amor com finais tristes podem ser curadas usando drogas” que poderia muito bem ter saído de um dos contos de Woody Allen, ou a que resume trágica e adequadamente a compulsão de Bertrand, proclamando que ele “(…) buscava uma felicidade impossível através da quantidade. Por que buscamos isto em tantas pessoas se a educação afirma a buscar em apenas uma?”.

Não obstante, apenas alguém com a sensibilidade feminina resumiria perfeitamente, em poucas palavras, um personagem fantástico e peculiar como este Bertrand Morane. O que, na anunciada superação dos fortes traços femininos de trabalhos anteriores, ressalta apenas que seu realizador, o verdadeiro homem que amava as mulheres, jamais ousaria objetificar e não conceder a legítima importância a estas sem as quais não vivemos plenamente!

Algo que, reforça, espontaneamente, a purgação emocional que Bertrand não experimentou.

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