Xingu

(Xingu), Brasil, 2012. Direção: Cao Hamburguer. Roteiro: Helena Soarez, Cao Hamburguer e Anna Muylaert. Elenco: João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Tapaié Waurá, Maria Flor, Augusto Madeira, Fábio Lago. Duração: 102 minutos.

Herdamos de nossos ancestrais, colonizadores portugueses, uma imensurável dívida com a população nativa brasileira: os índios. Sua cultura, seus costumes e seu estilo de vida dizimados pela ganância capitalista e pela cegueira de supostos intelectuais que julgam a articulação do paradoxo ‘índio civilizado’ a chave para acomodar os anseios protecionistas e preservacionistas em face das milhares de aldeias espalhadas no brasil afora, além de manter uma consciência tranquila ao repousar a cabeça no travesseiro. Nem todos, porém, pensavam da mesma maneira, e Orlando, Cláudio e Leonardo, os irmãos Villas-Bôas, buscando interferir o mínimo na vida das comunidades indígenas e retardar a inevitável chegada da civilização, colaboraram por décadas com as populações do Xingu, defendendo-as, no que culminou na construção da maior reserva indígena do mundo, hoje com 50 anos, e na manutenção da diversidade cultural ali existente. São autênticos heróis brasileiros homenageados com o prêmio Nobel da paz em 1971 e protagonistas de mais um belo exemplar do cinema nacional: Xingu.
Não se limitando a ser mero tomo histórico, o roteiro escrito a seis mãos é um estudo de personagens sobre três aventureiros no rastro da prometida liberdade do sertão central durante a Marcha ao Oeste que se encontraram em uma cruzada altruísta e humanitária. Contando a história desde o tenso e aflitivo primeiro contato com os índios até a regulamentação da política silvícola no Xingu, o roteiro define sua cronologia na demarcação de eventos determinantes, como o desmatamento para a primeira pista de pouso na região, o interesse militar de construir uma base na serra do Cachimbó e a construção da transamazônica. Sem correr o risco de soar episódico, o roteiro concentra-se, mormente na primeira década de ocupação e fluidamente estabelece o arco dramático de Orlando (Camargo), Leonardo (Blat) e Cláudio (Miguel), o protagonista, os quais parecem viver, a princípio, uma sonhada utopia no relacionamento amistoso com os indígenas.

Basta, entretanto, adentrar na densa vegetação para descobrir que a felicidade experimentada cede lugar a uma batalha política, a ânsia dos fazendeiros em se apossarem das terras virgens mascarada na discussão governamental pró-desenvolvimentista. Há, especialmente, ramificações íntimas nos irmãos que, sentindo-se responsáveis por àquela população, lutaram contra desejos – Leonardo apaixona-se por uma índia, uma repercussão mal-vinda diria Orlando -, indistintamente provocaram uma devastadora epidemia de gripe na região e se aculturaram de modo a abandonar práticas e costumes da classe média burguesa. Observa-se, sobretudo em Cláudio, uma insurgente vontade de confrontar o paradigma de civilização e a lucidez de se posicionar discordando dos “brancos”, os quais afirma, certo momento, serem os inimigos, conscientemente atestando que a cor da sua pele especificamente nada revela acerca da sua orientação protecionista.

Ilustrando o espanto no primeiro encontro entre brancos e índios durante uma travessia de um rio, na qual estes são vistos em segundo plano, pouco amistosos e empunhando lanças, o diretor Cao Hamburguer mostra que o sentimento era recíproco na recepção na aldeia, com closes oportunamente desconfortáveis, o inquieto choro das crianças e o medo no manuseio dos óculos de Cláudio. E enquanto desfila pelo fascínio de Cláudio ao testemunhar o naturalismo daquele povo e a felicidade no relacionamento dos três irmãos, vistos juntos na maior parte da projeção, Cao Hamburguer reserva momentos angustiantes, como no close que evidencia o pavor e incredulidade no rosto de Cláudio e precede a revelação do massacre numa aldeia, sugerido pelo corpo de um índio morto amarrado em um poste de madeira.

Na verdade, não houve o pacífico e idílico no decorrer da estada dos irmãos Villas-Bôas no Xingu, o que o plano-detalhe de um arame farpado insinua muito bem. Nem o reflexo do pôr-do-sol no calmo curso do rio bastaria para afugentar a pressão governamental sofrida pelos irmãos e as (supostas) tentativas de assassinato. Assim, gradualmente Cláudio, Orlando e Leonardo trilham caminhos e entendimentos as vezes conflitantes, o que o genial contra-luz do diretor de fotografia Adriano Goldman, durante a discussão na sacada de um casebre, ilustra soberbamente. Da ingenuidade romântica de Leonardo, o caçula, à postura política  negocial de Orlando dono de acesso quase irrestrito ao alto-escalão do governo, ao pragmatismo de Cláudio, todos eles inevitavelmente divergirão, como ocorre na decisão de resgatar membros perdidos dos Kaiabis no interior do Pará ou no tocante ao contato com os Krenakarore, tribo mais isolada da região.

O que nos leva às três ótimas atuações centrais: Caio Blat, dono de ar jovial adequado à imaturidade de Leonardo, o único que parecia estar vivendo uma aventura e não a vida real; Felipe Camargo, assumindo a postura disciplinadora de primogênito, cuja autoridade advém de respeito nato que os irmãos nutrem por suas decisões, mas que não o impede de tomar uma atitude drástica e demasiadamente racional que abala o âmago familiar; e João Miguel, um monstro em cena, cuja atuação, preponderantemente, origina-se do olhar curioso e criterioso lançado e de uma expressão facial uniforme e misteriosa, escondendo um homem de convicções firmas e inabaláveis. Junto a eles, o elenco indígena composto de atores amadores é convincente e confere a verossimilhança adequada ao decorrer da narrativa.

Feliz no retrato da dimensão das ocas, mas pecando na intromissão de letreiros jornalísticos que, se por um lado acrescentam um tom documental à trajetória daqueles desbravadores, pecam justamente por lembrar-nos de que estamos diante de uma obra cinematográfica, tamanha era a qualidade do trabalho de Cao Hamburguer em nos inserir naquele admirável mundo novo.

Um mundo no limiar da violenta segregação racial e cultural, provocada pela ambição de fazendeiros e políticos engravatados que, ultimamente, julgaram-se donos das terras do Xingu, a qual afirmam ser meramente “boa para gado“. Felizmente, esta mentalidade não prosperou de plano pois, se considerados inferiores a animais para muitos, os índios, reais donos das ancestrais terras, formaram uma acolhedora família para aqueles falhos, porém bondosos irmãos. O retrato de que não há nem índios nem brancos; há apenas seres humanos.

Confira também o termômetro do Kritz.
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7 Comments on “Xingu”

  1. Cao Hamburger novamente provando que o cinema brasileiro é sim de qualidade e capaz de produzir obras de respeito até mesmo internacional. Ótimo texto!

  2. Cenas impactamtes : a hora de se inscreverem com piões, a beleza dos rios e florestas, as paisagens do cerrado, o encontro com a tribo hostil onde nem chegamos qs ver os atacantes que saem da floresta, as fugas de canoas rodeados de floresta misteriosa e ameaçadora, os primeiros encontros( achei incrível) , a vida na aldeia com as crianças brincando,, as danças , as músicas, a curiosidade dos indios em tocá-los e brincarem com suas barbas e roupas, o primeiro vôo do cacique e sua turma, a breve atuação do Janio Quadros,….

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