Paraísos Artificiais

(Idem), Brasil, 2012. Direção: Marcos Prado. Roteiro: Pablo Padilla, Cristiano Gualda e Marcos Prado. Elenco: Nathalia Dill, Luca Bianchi, Lívia de Bueno, Bernardo Melo Barreto, César Cardadeiro, Divana Brandão, Emílio Orciolllo Neto, Ronney Villela, Erom Cordeiro e Cadu Fávero. Duração: 96 minutos.

Após assistir a filmes e documentários da geração paz e amor do rock, em festivais como o Woodstock, é estarrecedor constatar que, mais de 40 anos depois, o comportamento dos jovens permanece perigosamente inconsequente, abraçando incondicionalmente a liberdade sem limites. A mudança do gênero musical nas vertentes da música eletrônica, o surgimento de novas drogas sintéticas ainda mais alucinógenas e agressivas e a migração do cenário hippie para isoladas e edênicas praias não alterou a ânsia dos jovens de se integrar nos círculos sociais, independentemente do preço que se pague. Esse salto de cabeço dos frequentadores das raves na busca do sublime e sensações extremas se esconde detrás do irônico e genial título de Paraísos Artificiais.

Dotado de uma cronologia fluida que salta no tempo convenientemente e sem avisos, o roteiro escrito a seis mãos apresenta Nando (Bianchi), recém-saído da prisão por tráfico internacional de drogas, lidando com um desolador retrato familiar, no qual seu irmão caçula Lipe (Cardadeiro) trilha obstinadamente os mesmos passos rumo às drogas. Paralelamente, viajamos a Amsterdã, onde Nando curtiu intensas férias anos atrás ao lado do amigo Patrick (Barreto) e se apaixonou pela DJ Érika (Dill). Retrocedendo novamente no tempo, vamos a uma rave nas praias do nordeste onde Érika, ao lado da amiga Lara (de Bueno), caminhava em direção ao sucesso na cena eletrônico. Essas fatias satisfatoriamente desenvolvidas acompanham o gradativo amadurecimento dos protagonistas, levando-os a questionar as impensadas ações anteriores e a conviver com as consequências destas.

Mas, se o título denota a incessante busca escapista da juventude nas sensações artificiais, a direção de Marcos Prado encena uma experiência sensorial intensificada pelo neon, presente nas acentuadas batidas sonoras e na reprodução de uma viagem alucinógena, onde Érika e Lara, atiçadas pela liberdade provocada pelas drogas, literalmente se despem para comungar com a natureza. Esta, apesar de transcendental, causa medo e calafrios nas meninas, um esboço lúdico dos devastadores efeitos provocados depois do “barato”.

Sincero, Marcos Prado leva a sério que “a gente é o que a gente sente“, e revela, no discurso proselitista de Mark (Villela), que as drogas apenas potencializam sentimentos que teimavam se recolher na íntima timidez dos pensamentos. Não obstante, os personagens entregam-se a desinibido estupor erótico, devendo-se louvar a coragem de Nathália Dill, Luca Bianchi e Lívia de Bueno por protagonizar ousadas e longas cenas de nudez e sexo. Estas, ao invés de soarem gratuitas e polêmicas, demonstram a autêntica entrega de seus personagens, além de remeter à orgia de sentidos provocada pelos estímulos sensoriais narrativos.

Nesse cenário, destaca-se a atuação marcante da apaixonante Nathália Dill. Raro exemplar de atriz cujo talento frui naturalmente, ela confere a Érika doçura, ímpeto e serenidade, além de permitir vislumbrar seu amadurecimento recorrendo a singelas oscilações na postura e no olhar. Assim, quando abordada por Lipe numa danceteria, a DJ abaixa suas defesas e se envaidece quando ele cita o minuto de silêncio escondido num de seus sets para, segundo depois, ofender-se e adotar uma postura agressiva diante da indecente oferta de drogas.

Já Luca Bianchi (ou o Christian Bale brasileiro) acerta justamente ao transformar Nando num jovem deslocado, mas que intransigentemente segue o ritmo puxado por seu melhor amigo Patrick. E se Érika entregava-se às drogas num sonho idealista hippie, Nando é a sua antítese (e por isso mesmo, sua alma gêmea), buscando superar a caretice na busca por prazer. Aliás, a maneira com que os dois reagem ao luto apenas sedimenta as já notórias diferenças. Imprescindíveis um para o outro, embora desconheçam isto, o espectador envolve-se no tórrido romance a tal ponto que seu fracasso torna-se inadmissível, e se importar com os personagens é um dos segredos do sucesso dos filmes.

Paraísos Artificiais também tem uma lógica estética invejável nas mãos do diretor de fotografia Lula Carvalho. Ratificando o amadurecimento dos personagens na sensível mudança na paleta de cores, o visual colorido e quente da praia nordestina cede lugar ao frio europeu nos tons azuis para atingir o grão grosso e cores chapadas no realismo implacável do presente. E, a transição de jovens inconsequentes a adultos pragmáticos acaba sugerindo que o paraíso idealizado pode encontrar espaço na conturbada rotina, seja na reconciliação com a família ou na descoberta do amor.

Se é melancólico testemunhar promissores jovens presos na busca do paraíso artificial do título, o otimismo dos minutos finais é um refrescante sinal de que a luta para reverter esse quadro ainda pode ser ganha.

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11 Comments on “Paraísos Artificiais”

  1. Não gostei tanto assim do filme. O filme começou bem, e entrar no clima das raves dentro do cinema é gostoso. A Natalia Dill é tão estonteante que faz o filme perder um pouco o realismo….. Achei que o filme vai se perdendo aos poucos e o final é insatisfatório, sem falar que um filme sobre drogas em que alguem morre de overdose, outro vai preso por trafico internacional e com brigas familiares acaba sendo muito clichê.

  2. Só mesmo de uma mente brasileira poderia sair tamanha podridão. Será que a única coisa que somos capazes de criar é isso…? DROGAS, SEXO CORRUPÇÃO?
    Mas parece que nós somos é isso mesmo. APENAS ISSO.
    Nosso mundinho se resume nisso. Não é à toa que vivemos de forma tão miserável. DROGAS, SEXO CORRUPÇÃO. Isso tudo é nossa mente. Parabéns para nós.
    Tudo isso me dá nojo.

  3. Ainda li num artigo da net: "PARAÍSOS ARTIFICIAIS é um filme moderno, com discussões atuais e importantes para um público ANTENADO e INTELIGENTE", acho que está mais para um público drogado e dependente. Isso sim.

  4. E o pior é que ainda há investimentos do governo através do Ministério da Cultura para patrocinar uma p… dessa.
    É inacreditável.
    Só brasileiro mesmo.

  5. Entendo aonde você quer chegar, mas não vejo como poderia fazê-lo. Entendo a sua raiva pelas drogas e a apologia a elas, mas não vejo como um esforço artístico tenha o condão de alterar perceptivelmente o retrato nacional. É isto que esse filme faz, como toneladas de outros filmes, romantiza e noutras vezes pinta de tons cinzas a realidade do nosso país.

    Todos os cinemas são assim, aliás, todas as artes buscam no mundo concreto inspirações para depor a sua ficção. O que seria da arte cinematográfica se surgissem apenas alegorias rasteiras, em tons de um mundo feliz e perfeito que não existem? Onde ficariam grandes filmes como Transpotting, Réquiem para um Sonho, e muito outros sobre drogas e os seus efeitos?

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