II Festival Lume de Cinema – Dias 2 e 3

Não estou tendo vida fácil nestes dias, infelizmente, e está difícil acompanhar a meta de 10 filmes que estabeleci para mim mesmo. No domingo e na segunda apenas vi estes abaixo:

4) Policeman (Ha-shoter), Israel, 2011. Direção: Nadav Lapid. Roteiro: Nadav Lapid. Elenco: Ben Adam, Michael Aloni, Meital Barda, Gal Hoyberger, Yiftach Klein, Shaul Mizrahi, Michael Moshonov, Menashe Noy, Yaara Pelzig, Rona-Lee Shim’on. Duração: 105 minutos.

Mesmo que não investiga um tema particularmente novo, Nadav Lapid tem na estrutura narrativa de Policeman um ás na manga para transformar uma experiência que seria ordinária em algo muito acima da média. Similar a Submarino de Thomas Vinterberg, este longa explora duas narrativas isoladamente sem intercalar uma com a outra, até que estas se encontrem no explosivo clímax. A princípio, Lapid apresenta a equipe tática contraterrorista liderada por Yaron (Klein), sob sindicância depois da morte de alguns civis durante uma ação, além de terem que lidar com o câncer do colega Ariel. Exibindo uma curiosidade que beira o documental, Lapid acompanha Yaron, cuja esposa está nos meses finais da gravidez, em churrascos, um passeio de bicicleta nas montanhas e na praia, expondo sobretudo a camaradagem e imprescindibilidade de uns para com os outros.

Cerca de 40-45 minutos depois, Lapid desloca o foco da narrativa para o grupo terrorista composto de jovens burgueses, dos quais se destacam Nathanel (Aloni) e Shira (Pelzig). Planejando um golpe contra o capitalismo, no sequestro de dois pilares da economia de Israel, participamos da elaboração ideológica do crime e das dúvidas que permeiam a mente daqueles que adentram em um caminho sem retorno. Apostando numa retórica praticamente extraída do manifesto comunista marxista, o longa oferece um diálogo soberbo entre Shira e a noiva, filha de um dos empresários sequestrados, onde frisa a falta de personalidade desta com uma raiva intensa e adormecida, presa na garganta daquela diminuta garota.

Discutindo o binômio segurança pública e anarquia terrorista, Lapid não se atém a modismos ideológico ou pretende (re)discutir os confrontos Palestina e Israel. Pelo contrário, chega a ser um choque quando os policiais descobrem que os terroristas não são árabes, mas filhos da mesma pátria, no manifesto de que ameaças podem advir de qualquer lugar (seriam mesmo aqueles jovens vilões?). Fato é que, ao fim, estávamos envolvidos com cada um dos personagens, aproximados do espectador na estética crua e delineados como seres humanos e não caricaturas.

5) Beije-me Outra Vez (Baciami Ancora), Itália/França, 2010. Direção: Gabriele Muccino. Roteiro: Gabriele Muccino. Elenco: Stefano Accorsi, Vittoria Puccini, Pierfranceso Favino, Claudio Santamaria, Giorgio Pasotti, Marco Cocci, Sabrina Impacciatore, Daniela Piazza. Duração: 138 minutos.

Continuação de O Último Beijo (2001), Beije-me Outra Vez lança luz, 10 anos depois, na vida de Carlo e seus amigos que, após superar os dilemas do começo da vida adulta, penam para sobreviver incólumes aos 30 anos de idade… ao menos amorosamente. Tendo que lidar com as consequências da imaturidade que o levou à traição, Carlo (Accorsi) atravessa um período estressante na sua vida: ainda apaixonado pela esposa Giulia (Puccini), com quem tivera a adorável Sveva (Girolami), o rapaz mantém um relacionamento casual e cujo óbvio futuro apenas poderia culminar em lágrimas. Além dele, outros personagens do filme anterior dão as caras: Marco (Favino) deve lidar com o desprezo e infidelidade da esposa Veronica, Paolo (Santamaria) com a depressão e um amor, a seu ver, não correspondido, com Livia, além de Adriano (Pasotti), na busca de reconciliação com o filho, após desaparecer da Itália.

Comandando outro filme coral, Gabriele Muccino se redime do desastroso Sete Vidas imprime a uma narrativa melancólica, doçura e esperança sobretudo na fotografia calorosa de Arnaldo Catinari (também há espaço para o depressivo azul, como no regresso de Veronica ao lar vazio). Tendo aqui e acolá o azar de soar demais como uma novela, e assim, os encontros e desencontros, os términos e recomeços parecem irrealistas, Muccino ao menos reconhece que o amor tem o poder de soerguer o ser humano e ao menos tempo de ruir totalmente a sua existência. Portanto, tem (muito) destaque a tristeza da perda e a amargura e o furor de se sentir relegado, o que acabam, por comparação, acentuando a fortuna de quem reavivou o amor do primeiro beijo.

Por sua vez, tendo belos atores a sua disposição (me incomodo apenas com Pierfranceso Favino e suas explosões neuróticas) e um tema universal, Muccino inexplicavelmente não convenceu os compatriotas que massacraram o seu filme. Injustiça! Cupido malvado e bondoso, Muccino tem controle absoluto de seus romances, manipulando sentimentos e advogando que nem mesmo algo tão puro quanto o amor pode escapar ileso de machucar o coração de outrem. Não se engane, logo, com o resultado clichê, e sim, com a caminhada que levou Carlo, Marco, Adriano e, de certa forma, Paolo, a encontrarem a paz almejada.

6) Moacir, Argentina, 2011. Direção: Tomás Lipgot. Roteiro: Javier Zevallos. Elenco: Moacir dos Santos e Sérgio Pangaro. Duração: 75 minutos.

Que figura este Moacir dos Santos. Brasileiro argentinizado, morando no país dos hermanos há certa de 30 anos, o documentário de Tomás Lipgot diverte-se tanto com a figura do animado sambista que é difícil que o espectador não saia contagiado. Mas, quem é esse desconhecido que habita no diminuto apartamento de uma pensão familiar no centro de Buenos Aires, canta em um “portuñol” estranho, tem mania de limpeza e se cerca de uma aura e energia voltadas ao samba? Sujeito simples, de família pobre carioca (“de favela“, ele diz), e criado no samba, Moacir transforma-se ao vestir uma de suas perucas (Cauby Peixoto vem a mente) e um terno extravagante e cantarolar um de seus sambas carnavalescos, como o hit “Marcha do Travesti”.

Convidado por Sergio Pangaro para gravar em estúdio um disco com marchinhas e tango, Moacir não tem freios na língua ferina, mas bem humorada, criticando o semi-analfabetismo de compositores nacionais, e usando como argumento o seu português “refinado” de palavras como remexer ou rebolar, traduzidas de maneira inusitada e hilária. Aliás, risos são obrigatórios, pois como não sorrir do pedido feito a ex-integrantes da Portela para cantar um samba-enredo de Jamelão (eterno intérprete da Mangueira), e a cara séria dos rapazes apenas se contrasta com o desempenho divertido de Moacir no microfone. Da mesma forma, a pose nas fotos com os fãs, a compra de roupas no mercado e as gravações no estúdio destacam o jeito nonsense de Moacir.

Porém, parece que Tomás Lipgot se fascina demais com seu documentado (como não o fazer?) e se esquece de aprofundar quem é Moacir, mantendo em suspensão sua estada em uma clínica psiquiátrica (ele fora acometido de esquizofrenia paranoide) e apenas pincelando superficialmente o retrato dos 30 anos que vivera na terra dos hermanos. Independentemente disto, o retrato é amistoso e simpático, revelando alguém que de tão extravagante e incomum, acaba reproduzindo um estilo de vida apaixonado e apaixonante.
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