Prometheus

Prometheus, Estados Unidos, 2012. Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts e Damon Lindelof. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Rafe Spall. Duração: 124 minutos.


Espetáculos como Prometheus são a razão do cinema existir! Essa afirmação deveras polêmica parte da avassaladora campanha publicitária viral e da penumbra lançada, nos últimos meses, sobre o real conteúdo da prequel de Alien, um clássico do cinema de terror/ficção-científica e responsável por lançar Ridley Scott ao estrelato. Sobretudo, porém, aquela afirmação é coerente à grandiloquente visão do seu presunçoso cineasta, que força épico goela abaixo a cada projeto, resultando em uma ambiciosa narrativa que, apesar de conceitualmente frágil e tola, não é menos que impactante e provoca e aturde sensações de ansiedade e estresse no espectador, imergindo-o por 2 horas numa claustrofóbica viagem rumo ao desconhecido.

Motivado pela curiosidade gerada em torno do space jockey, o gigantesco alienígena brevemente visto no clássico de 79, e disposto a responder às perguntas “de onde viemos?”, “qual o nosso propósito” ou “o que acontece quando morrermos?”, o roteiro de Jon Spaihts e Damon Lindelof (especializado mais em perguntar do que em responder – vide a série Lost) envia a tripulação da nave Prometheus a LV-223 no objetivo de investigar uma pista deixada a milênios nas cavernas de civilizações primitivas. Batizada após o titã que deu origem a vida na mitologia grega, a nave liderada por Meredith (Theron) parte em uma missão de fins dúbios, apesar dos cientistas Elizabeth (Rapace) e Charlie (Marshall-Green) ingenuamente julgarem por altruísmo científico um empreendimento de 1 trilhão de dólares patrocinado por Peter Weyland (Pearce, irreconhecivelmente envelhecido, numa maquiagem constrangedora ao estilo de J. Edgar).

Arestas aparadas, a inchada tripulação de 17 membros (na Nostromo eram só 7), e que conta ainda com o androide David (Fassbender, excelente), se deparará com uma ameaça inimaginável na busca pelas origens da humanidade. Meticulosamente se embrenhando na franquia alien, a produção homenageia tanto o original de 79, a direção de arte da área de refeição remete àquela onde o xeno-morfo irrompe do tórax de Kane e o apelido de Elizabeth, Ellie, tem vestígios óbvios de Ellen Ripley, heroína imortalizada por Sigourney Weaver, quanto a versão de James Cameron de 86, especialmente na menção ao nome Weyland ou ao processo de terraformação. Não obstante, o filme vale-se do escopo aumentado deste sem afastar o aflitivo minimalismo daquele, estabelecendo um cenário grandioso nos planos gerais e imponentes estruturas (destaco o interior da caverna onde vasos contendo misterioso líquido circundam uma enorme cabeça) sem esquecer de sugerir, e não explicitar, a claustrofobia e o pavor.

Por sua vez, se esteticamente irrepreensível e nostálgico de certa forma, ao abraçar demasiadamente a fria racionalidade, Ridley Scott esquece o determinante em qualquer produção do gênero: o elemento humano. Assim, incapaz de convencer o espectador dos dramas dos arquétipos de personagens que atravessam a tela (há o rebelde, o nerd que não hesita de estabelecer contato com uma forma de vida desconhecida ou o abnegado disposto a se sacrificar em prol dos demais), não é surpresa que seja um robô o personagem mais interessante da narrativa. Existencialista, rancoroso, dono de um senso de humor cínico e uma curiosidade mórbida, David é um ser complexo cujas calculadas reações denunciam alguém ironicamente mais humano do que a patricinha mimada Meredith ou a desinteressante Elizabeth e sua supostamente alusiva dicotomia ciência e fé que resulta só no abstrato duelo de ideologias.

E, apesar dessas lacunas em aberto serem espaços acolhedores para espectadores dispostos a discussão saudável, o roteiro de Prometheus é demasiadamente redundante, e porque não recursivo, na resposta de sua pergunta central. Não que eu esperasse que Ridley Scott e sua equipe satisfatoriamente tivessem a resposta de algo que intriga bilhões de pessoas há séculos, e bastava o cineasta se ater à poética evocação do sacrifício inicial que fecundara a vida terrestre que estaria de bom tamanho; porém, não esperava que ele covardemente ignorasse o encontro cheio de questões no terceiro ato e chutasse o balde de perguntas para a sequência por falta de zelo e proporção naquilo que poderia abarcar. Além disso, não há desculpas para a reviravolta estupidamente desnecessária e o agir incompreensível dos personagens ultrapassando o limite do bom senso e da suposta inteligência que, como cientistas, eles deveriam ter.

Ainda assim, mesmo que não cumpra o prometido, ofereça caricaturas ao invés de homens, perguntas e não respostas e dramas tolos e indignos do tema em pauta, o ritmo empregado por Scott é estressante o bastante (a sequência envolvendo uma cirurgia é mágica) para prender a atenção do espectador e provar que o inglês não perdeu a habilidade em assombrar e fascinar. Somado a melhor trilha sonora do ano de Marc Streitenfeld, Prometheus é um espetáculo epopeico espacial: falho como muitos e instigante e hipnotizante como poucos.

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10 Comments on “Prometheus”

  1. Sabe quando você está fazendo uma prova e se depara com uma questão que você não sabe responder mas sabe "pra onde vai"? Você enrola, enrola e enrola, usando fundamentações fracas e rasas, e tenta dizer algo que você nem sabe bem o que é… pois é, sai com essa sensação do filme! Pra mim é nota 3/10.

  2. A cada resenha que leio eu fico mais curioso e isso acontece pelo fato de ele estar dividindo tanto os críticos, se tem uma coisa que ele não foi até agora é uma unanimidade, em nenhum meio, nem dentre os fãs de filmes pipoca nem dentre aqueles que curtem uma trama mais elaborada, mas é isso que me deixa curioso… Gostei muito mesmo de sua resenha, você abordou ponto que até então eu não tinha visto em nenhuma outra, parabéns pela crítica! Mas ainda quero tirar minhas próprias conclusões… Abraços Márcio!!!

  3. Marcio, você gostou bem mais do filme que eu. Achei Prometheus, de fato, divertido, mas apenas. É uma pena que, como disse, ele chute o balde e esqueça tudo que havia proposta no início. É ação desenfreada – e não minto, diverte, mas no fim das contas acaba decepcionando. Discordo no que tange à trilha sonora. Pegando as estreias de 2012 no Brasil, gosto muito mas da d'O Espião que Sabia Demais, ou até mesmo O Artista.

  4. Com todo respeito, nunca vi uma crítica tão mal escrita e tão "em cima do muro". Nem sim nem não, muito antes pelo contrário. E que diabo é "fulcro"…?

  5. A crítica é a racionalização dos pontos positivos e negativos de uma obra cinematográfica, não deve defender ou atacar, mas elucidar. Se a considerou em cima do muro (o que discordo), talvez seja porque o filme tem equívocos e acertos, mas este jamais seria um "defeito" de uma crítica. Ou, quantas vezes você viu filmes "mais ou menos"?

    Quanto ao "fulcro", correção adotada.

  6. Ótima crítica! Apesar do filme realmente prometer mais que cumprir, concordo com a nota de 7/10. Isso porque a obra aborda bem um tema que não é tão fácil de se trabalhar. Ou melhor, ela nos instiga a submergir em questões existenciais seculares. É um bom filme.

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