Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge


The Dark Knight Rises, Estados Unidos, 2012. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan baseado nos personagens criados por Bob Kane. Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Michael Caine, Matthew Modine, Ben Mendelsohn, Daniel Sunjata e Nestor Carbonell. Duração: 164 minutos.

A lenda do cavaleiro das trevas, iniciada com Batman Begins em 2005, enfim chega à sua conclusão. Diferente, porém, do típico filme de gênero super-herói, o último ato da trilogia do homem-morcego criado por Bob Kane conduz a uma estrada tenebrosa e insegura acerca do destino do herói e dos habitantes de Gotham que nenhum outro realizador ousaria trilhar, exceto o petulante e decidido Christopher Nolan. Ao lado de uma equipe fiel, Nolan construiu um mundo onde a existência de um playboy bilionário fantasiado de morcego não fosse impossível e sujeitos como o Coringa ou o Espantalho seriam o próximo degrau do crime, e no caminho, manteve-se coerente ao pragmatismo de não dissociar entretenimento de arte com que desenvolvera algumas das experiências cinematográficas mais gratificantes dos últimos anos, como A Origem, O Grande Truque e, claro, Batman – O Cavaleiro das Trevas, um épico do crime, que não se acovardou em ser mera adaptação dos gibis.

Enfim, chegamos a Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge: inferior ao antecessor, a narrativa leva às últimas consequências a visão do seu cineasta de evitar ser um fim em si mesma. Ao invés de encerrar o projeto na figura do Batman e usá-lo como o chamariz para atrair delirantes fãs (o que seria cômodo demais), Nolan o tornou uma das muitas peças distribuídas sobre o arcabouço roteirizado por ele e o irmão, Jonathan. Um jogo de xadrez disputado por homens de máscaras visíveis (Bane ou a Mulher-Gato) e invisíveis (o comissário Gordon), pautadas na mentira cotidiana, e alimentado pela recalcitrante dedicação do herói a uma cidade decadente e corrompida. Isto torna o retorno de Bruce Wayne às ruas, 8 anos após seu exílio forçado no episódio anterior, em um dos momentos mais empolgantes do cinema no ano, e fazê-lo com cerca de uma hora da narrativa, só ratifica a confiança depositada por Nolan no seu material.

Assim, evitando contar além do necessário a respeito do intrincado roteiro, a cidade de Gotham enfim prospera tempos de paz depois de uma lei, batizada em homenagem ao falecido Harvey Dent, conferir poderes desmedidos à polícia para espremer criminosos nas desumanas celas de um presídio superlotado. Até que surge o Bane, um musculoso e ameaçador mercenário, ex-membro da Liga das Sombras (criada por Ra’s Al Ghul), que elabora um plano para derrubar as estruturas mantedoras do poder na cidade (certos pilares que sustentam a democracia, como a justiça e o capitalismo). Apresentando durante uma partida de futebol americano um efusivo discurso marxista de devolver a cidade aos seus reais donos, o povo, Bane, na realidade, esconde um objetivo mais destruidor daquele proclamado na sua demagogia. Este novo vilão força o retorno do Batman, ao passo que o seu alter-ego Bruce Wayne, recluso ao estilo Howard Hughes, deve lidar com conflitos de gestão no seu império bilionário.

Apesar de imergir no caos, a direção de Nolan é racional e planta pistas no decorrer da narrativa, algumas despretensiosas (o desfuncional piloto automático), outras nem tanto (o caloroso flashback na Itália) para recompensar o espectador no ato final. Confiando na inteligência e envolvimento do público ao invés de nivelá-lo por baixo – a sua marca registrada, comprovada pelos títulos citados no primeiro parágrafo – e inserindo insights de cenas particulares dos longas anteriores (essenciais para quem não se deu ao luxo de revisitá-las), Nolan é ainda competente em lidar com uma narrativa entupida de personagens (o que Sam Raimi não conseguiu em Homem-Aranha 3): de Jim Gordon à ladra Selina Kyle (a Mulher-Gato), de Alfred à executiva Miranda Tate ou do policial John Blake ao imponente Bane, todos desempenham tarefas imprescindíveis no conflito, e os competentes intérpretes logram êxito ao explorar a personalidade, as motivações e falhas no caráter de cada um. Mesmo assim, a montagem de Lee Smith (indicado ao Oscar pelo filme anterior) peca nos longos hiatos onde alguns deles simplesmente somem, e o excesso de saltos temporais no presentes no roteiro ajuda a reforçar essa constatação.

Mesmo sendo o mais expositivo da trilogia (a explicação sobre um programa de computador é embaraçosa) e realize más decisões (a descoberta da identidade secreta é subjetiva demais), a narrativa mantém os pés firmes no chão, tornando verossímil a existência do veículo apelidado de Morcego; também admiro ter reencontrado Bruce Wayne com discretos fios grisalhos e de bengala, graças a articulações desgastadas pelo intenso esforço físico a que se submete. Por sua vez, a prisão escondida debaixo da terra, embora tenha um design curioso, soa fantástica para os tons narrativos (mas, a bela rima da escalada do poço e a transformação do jovem Bruce Wayne em Batman minimiza esta falha); o mesmo vale para a máscara de Bane e a sua função claramente dicotômica. Bane, aliás, é um imenso colosso de músculos e autoridade que impõe um desafio físico inigualável ao herói, porém empalidece diante do Coringa cuja insanidade afastava quaisquer resquícios de humanidade. Finalmente, a sua fala robótica, embora admirável tecnicamente, soa falsa e não abafada como se esperaria, similar a “voz” de Stephen Hawking, o que é compensado pela atuação intensa e a fúria contida no olhar determinado de Tom Hardy.

Além dele, outros novatos juntam-se a Michael Caine (sensível e doce), Morgan Freeman (vaidoso e prático, tornando crível aquele universo), Gary Oldman (atormentado por uma mentira) e Christian Bale (protagonizando a cena que resume Bruce Wayne ao dispensar o uso de máscara durante um baile filantrópico): se Marion Cottilard acerta na voz doce porém segura e honesta de Miranda Tate e Joseph Gordon-Levitt exibe a imprudência e retidão esperadas de um jovem policial idealista, Anne Hathaway esforça-se em extrair o máximo de uma personagem volúvel cujas alianças modificam-se mais rápido que um gato troca a pelugem.

Contando com sequências de ação ousadas (a minha preferida é o sequestro nas alturas), embates corporais envolventes (estranho como os cineastas esqueceram de dirigir o velho e eficiente POW! WOW!), a excelente trilha sonora de Hans Zimmer, que incorpora a respiração abafada de Bane nos acordes, e uma conclusão satisfatória para a trilogia, Christopher Nolan transformou a trilogia do cavaleiro das trevas no maior épico cinematográfico que o gênero já criou e ensinou ao mundo como se lida com lendas… especialmente as não particularmente sentimentais.

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13 Comments on “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”

  1. Bela escolha de palavras e boa crítica, Márcio. Concordo em ser o mais expositivo da trilogia. Contudo, discordo veementemente sobre Hathaway (a única mulher do longa que tem algum bom desenvolvimento) e as cenas na prisão, que ainda acredito terem sido as mais prejudicadas no corte final. E critico você e o Eduardo por não levantarem o que vocês julgaram como falhas para eu ter oportunidade de debater, assim como em Os Vingadores.

    Abração!

  2. Concordo com parte de seu ótimo e discordo de outra parte.

    Concordo com sua comparação entre Nolan e Sam Raimi em Homem Aranha 3. Porém, discordo quando diz que essa terceira parte é muito inferior. Entendo que o único detalhe que pontua a diferença é o vilão. Bane jamais terá a força do Coringa….JAMAIS.

    Perfeita sua conclusão trilogia épica.

    Abraços

  3. Concordo totalmente com você. O filme anterior é muito melhor, mas esse gaurda os seus méritos. Só não pude me sentir totalmente entusiasmado depois de vê-lo, havia algo ali que me soou disfuncional na trama.

    Marcio, acompanhe o novo blog "E O Oscar Foi Para…", que discutirá as edições do Oscar. Segue o link: http://eooscarfoipara.blogspot.com.br/

  4. Com toda sinceridade, o filme anterior, só pode ser um pouquinho mais elevado, por causa, realmente do coringa. As mesmas falhas encontradas no anterior, foram repetidas neste, então dizer que foi inferior é um tanto criticísmo demais. Como leitor dos comics antigos e não um entusiasta que só assistiu no cinema, achei o clima e a história deste novo filme do batman excelente, ficou ótimo, com o clima que o batman realmente merece.

  5. o filme é legal…mas prefiro o bane da adaptaçao antiga…ele era legal..esse é muito mal.
    uma das melhores adaptaçoes de hq para o cinema abaixo apenas da mulher gato da hale berry e do hulk dos anos 80 do lou ferrigno.

  6. Gostei do texto, em vez de apontar detalhizinhos bobos como erros de ahh como ele fez isso, ahh como pode aquilo, você apontou problemas mesmo e coisas relevantes. Quanto a mim, gostei bastante do fimle, o segundo é melhor concordo, mas esse último consegue ser melhor do que Begins. E ahh eu gostei de verdade do final do Bruce Wayne, e não achei apenas satisfatório, achei belo e merecido. E discordo em relação a Selina Kyle, ela foi praticamente tudo que eu sempre quis ver, ladra, ágil, sensual, fingida, interesseira, sagaz, acho que foi bem desenvolvida e condizente com os quadrinhos ( apesar de não usar a fantasia, Anne imprime a ela uma maneira de agir, um andar de Gato muito interessante). Por mudar de parcerias, olhar os seus interesses e ainda ter caracteristicas boas, não ser bem uma vilã, mas uma anti-heroina é o que me faz gostar da personagem, e por isso gostei dela no filme (realmente não gosto e não acredito em personagens somente bonzinhos). Ahh, também escrevi sobre o filme no meu blog: http://singularpqu.blogspot.com.br/2012/08/trilogia-batman-o-cavaleiro-das-trevas.html

  7. Existe algo pior do que um psicopata?
    Sim!
    Uma psicopata (Aranha Armadeira)

    “E eu achei uma coisa mais amarga do que a morte, a mulher cujo coração são redes (de intrigas), e cujas mãos são ataduras (grilhões); quem for bom diante de Deus escapará dela, mas o pecador virá a ser preso por ela (se tornará seu escravo)”. Eclesiastes 7:26

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