O Processo de Joana D’Arc

Procès de Jeanne d’Arc. França, 1962. Direção: Robert Bresson. Roteiro: Robert Bresson e Pierre Champion. Elenco: Florence Delay, Jean-Claude Fourneau, Roger Honorat, Marc Jacquier, Jean Gilibert, Michel Herubel. Duração: 65 minutos.

As páginas da história estão repletas de controvérsias acerca de um dos maiores ícones revolucionários da humanidade: uma jovem de 17 anos que, liderando um leal exército e trajando roupas masculinas, desafiou a soberania inglesa na França no século XV guiada pelas vozes do arcanjo São Miguel e das Santas Catarina de Alexandria e Margarida. Morta na fogueira aos 19 anos de idade acusada de heresia, seu nome ecoaria nos corredores da mesma igreja católica que a condenou até a canonização em Santa Joana D’Arc. Sua história de coragem e ousadia a tornou símbolo feminino e inspirou diversas adaptações de cinema sendo esta O Processo de Joana D’Arc uma das mais distintas de todas.

Não me refiro, entretanto, a méritos propriamente narrativos, algo que a econômica adaptação de Robert Bresson dispõe, mas não o bastante para desbancar o esforço graúdo do semelhante A Paixão de Joana D’Arc (1928). O mérito da fiel transcrição do julgamento e condenação da mártir francesa está no minimalismo imposto por Bresson na mise-en-scène enxuta e questionamentos diretos, recitados friamente e sem a consternação e histerismo da versão de Luc Besson de 1999 (a da Milla Jovovich no papel principal, uma escalação que não precisa de comentários adicionais). Determinado a investigar exclusivamente o processo transcorrido em Rouen ao longo de 5 meses, o roteiro abstém-se de questionar as visões de Joana e de se alongar na decisiva e impaciente participação inglesa nos bastidores da decisão.

Ao invés disto, o roteiro nos apresenta a jovem Joana, intransigente e inquebrantável diante dos acusadores, porém sensivelmente enfraquecida diante da morte certa (algo que Florence Delay ressalta com lágrimas nos olhos e uma atuação competente, embora jamais excepcional). Apresentada pela mãe na declaração inaugural ao som de um ribombar de tambores, o processo transcorre com perguntas do quilate de “Por que a voz de Deus não apareceu para o rei?” ou “Você já viu fadas?” e acusações de que portava espada e não um estandarte ao adentrar numa igreja, do uso constante de roupas masculinas, uma abominação perante Deus, e a prática de blasfêmias e bruxarias (curas, ressurreição e bençãos, vejam só que hipocrisia!). Isto revela o reducionismo da guerra de franceses e ingleses a uma questão meramente teológica, onde se encerra detrás dos panos a clara intenção de destruir um mito através da morte na fogueira, abalando a moral dos que cegamente seguiam os ideais defendidos por sua heroína.

Vigiada incessantemente por guardas que espiam por entre as brechas da sua minúscula cela e na troca de olhares compassivos com um bondoso padre que visava a sua salvação e não condenação, Joana D’Arc suscita uma dúvida imensa no espectador: estaria ela manipulando os bispos acusadores revelando a sua posição coerente com os dogmas da igreja acerca do martírio, da vontade de Deus e do reino dos céus, ou ela realmente acreditava nas suas visões divinas e na mensagem que carregava? Seria a sua intenção de se submeter ao Conselho Sagrado e ao julgamento do Papa apenas uma estratégia de salvar a sua vida? O que levou Joana a assinar a confissão apenas para rechaçá-la posteriormente? Sem a presença do arcanjo Miguel – frequente noutras adaptações – estas indagações não têm respostas tão explícitas, exceto se o espectador limitar a sua imaginação cegamente à religião.

Assim, mais do que reproduzir documentalmente o processo de Joana D’Arc, Robert Bresson questiona a lenda negando a chance de testemunhar as suas ações e portanto permitindo ao espectador compartilhar da mesma posição daqueles bispos juízes (com o benefício da imparcialidade que eles não tiveram). Expondo o lado frágil da guerreira que, afinal de contas, era apenas uma garota de olhos marejados e que pouco conhecia sobre a vida, O Processo de Joana d’Arc ainda se dá ao luxo de encerrar com a simbólica reprodução de uma cruz coberta de chamas, e este poderia ser eternamente o símbolo negro da igreja durante a vigência do tribunal do Santo Ofício da inquisição.

Esta crítica integra o especial do Cinema com Crítica que celebra o aniversário de clássicos que completaram 50 anos de idade. Na próxima edição, Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
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