Festival Varilux de Cinema Francês 2012 – Dia 3

No sábado passei por uma situação desconfortável que narro para vocês. Na portaria da sala do CineSystem, observei a movimentação de uma equipe de imprensa antes da sessão de A Filha do Pai. Ficou clara a intenção do repórter em entrevistar-me assim que o cinegrafista ergueu a câmera sobre os ombros. Atenderia gentilmente o convite, mas este viera carregado de deboche: “Vai ver o francês aí?”. Imediatamente retruquei alguma coisa e prossegui para a sala. Diante de mim estava um enorme babaca que me achou o sujeito mais excêntrico por ter escolhido um filme francês, e não a sessão de Batman na sala ao lado… na versão dublada. Pessoas como esta não têm nada bom a dizer. E repito: bons filmes não têm nacionalidade, data, gênero, estilo, etc.

Desabafo feito, vamos lá!

4) Titeuf (Titeuf, le fim), França, 2011. Direção: Zep. Roteiro: Zep. Vozes de: Donald Reignoux, Mélanie Bernier, Emilie Blon-Metzinger, Zabou Breitman, Jean-Luc Couchard, Sam Karmann. Duração: 87 minutos.


Para que servem as meninas? Refrão de uma das canções tocadas em Titeuf, essa parece a questão fundamental que aflige o travesso e imaginativo protagonista desta animação. De topete loiro inconfundível e 10 anos de idade, Titeuf ainda está na fase da infância onde garotas são abominações e beijos na boca, nojentas trocas de saliva. Isso não o impede de estar caidinho, à sua maneira, por Nadia, que convidou todos, exceto ele, para sua festa de aniversário. Disposto a corrigir este equívoco com planos para conquistar a atenção da garota, o protagonista depara-se com a separação dos pais, impulsionada pela saída da mãe do apartamento (novamente, uma ação de uma “menina”). Diante desse cenário e de posse das ferramentas pertinentes a uma criança, Titeuf tenta compreender o que está acontecendo ao seu redor, solucionar seus problemas amorosos e decifrar o mundo dos adultos. Não é nada fácil!

Um dos maiores prazeres nessa narrativa de amadurecimento é sem dúvida a imaginação fértil do protagonista e a transformação do desconhecido em um enorme bicho de sete cabeças. Lembram-se de Doug Funny do desenho animado homônimo da década de 90? É mais ou menos assim, sem o diário e o fiel Costelinha. Certa vez, o seu melhor amigo Manu comenta a respeito de meios-irmãos, algo que Titeuf imagina da maneira mais literal (e divertida) possível. Seus sonhos também ilustram anseios e sutis detalhes de sua rotina, possibilitando viagens a pré-história ou a um jogo de videogame, que auxiliam o personagem-título a materializar seus medos. Se não bastasse dispersar-se em devaneios, Titeuf está descobrindo a sua sexualidade, o que a narrativa faz tanto simbolicamente (o pai o surpreende com as calças arriadas) quanto de forma expositiva (seus amigos pagam para ver uma colega levantar a blusa).

Nesse microuniverso, os traços do desenho de Zep, criador das tirinhas, roteirista e diretor do filme, cria personagens a partir do exagero de suas características: além do topete de Titeuf, Manu porta óculos gigantes, Hugo usa uma camisa de gola rolê que cobra completamente a sua boca, enquanto Nadia desfila lábios carnudos. Mostrando uma atenção enorme a detalhes, muito se conhece dos personagens através da direção de arte: a casa de campo da sua avó, em madeira marcada por destacadas ranhuras do tempo e decorada por vasos de plantas distintas, difere-se do seu apartamento mais funcional e impessoal, porém não menos acolhedor. Já a montagem aposta em boas fusões e na liberdade proporcionada pela animação, limitada somente pela imaginação de Titeuf que, certo momento, enxerga os trilhos do trem transformarem-se em uma guitarra gigante (na sequência mais visualmente impressionante da narrativa).

Destinado a discutir o que se passa na cabeça dos mais jovens, Titeuf peca na conclusão precipitada, resolvendo as pontas soltas de maneira casual, sem fazer jus ao restante da boa narrativa. Pois, um dia Titeuf deixará de recorrer à sua viva imaginação para solucionar os problemas cotidianos e esta, portanto, poderia ter sido uma boa oportunidade de começar a fazê-lo. Pena que foi desperdiçada.

5) A Filha do Pai (La Fille du Puisatier), França, 2011. Direção: Daniel Auteuil. Roteiro: Daniel Auteuil baseado no livro de Marcel Pagnol. Elenco: Daniel Auteuil, Kad Merad, Sabine Azéma, Jean-Pierre Darroussin, Nicolas Duvauchelle, Astrid Bergès-Frisbey, Emilie Cazenave. Duração: 107 minutos.


Melodramas apenas me aborrecem normalmente, mas este A Filha do Pai é passável, apesar de datado. Ele é baseado no livro de Marcel Pagnol, que também dirigiu a adaptação cinematográfica de 1940, durante a segunda guerra, e que mostrava uma visão bem otimista do destino dos soldados franceses convocados para lutar contra a invasão alemã no seu país. Com óbvios fins de motivar os combatentes a retornar às suas casas e famílias, somos levados a uma pequena cidade provinciana onde o poceiro Pascal tem a benção de ter 6 filhas, sendo a mais velha, Patricia, o “tesouro enviado por Deus”. Angelical e doce, a garota conquista Felipe, o gentil empregado de Pascal, bem como o galanteador Jacques Mazel, aviador filho de um comerciante rico da região. Engravida por este que, ainda por cima, foi enviado de última hora à guerra, Pascal falha em convencer os pais de Jacques a aceitar a criança e expulsa Patricia de casa, a conta-gosto, pelo bem das suas irmãs. Nem mesmo a proposta de Felipe de assumir a criança como sendo sua basta, pois a moça respeita o amor platônico nutrido pela sua irmã Amanda.

Correndo açúcar demais nas veias, a narrativa não se envergonha do seu pieguismo e os diálogos martelam os ouvidos na mesma proporção com que são floreados. Durante o anúncio da gravidez da filha, Pascal apregoa que “as flores desabrocham na primavera”, e só conclui o raciocínio após comparar um filho a um fruto das árvores. Noutro momento ele lamenta-se para Felipe do incidente que arrancou a sua filha do convívio familiar – “uma moto pode não parecer nada, mas pode levar a felicidade de uma família”. E, claro, não falta também um doloroso “talvez eu não tenha honra, mas tenho amor”. Porém, nem todos os diálogos mais cafonas se comparam à chorona Patricia e uma atuação quase sempre depressiva (ela é interpretada por Astrid Bergès-Frisbey que foi uma sereia em Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas).

A verdade é que, nos cínicos dias atuais onde gestos e olhares transmitem mais do que palavras bonitas, melodramas perderam o seu espaço. Se antes serviam para devolver o amor à vida e ao próximo a homens marcados pela guerra, agora sua mensagem não penetra com tamanha facilidade nos embrutecidos corações. Mesmo inofensivo e despretensioso com seu tom leve, bucólico e otimista, A Filha do Pai é inverossímil demais para ser aceito com facilidade. Seus personagens, em geral, são generosos e compreensivos até nas situações que exigem um pulso mais firma; os valores sociais e morais que defendem são completamente antagônicos com os do dia de hoje. Assim, embora aprecie a cena em que Patrícia revela a gravidez ao pai – o close no rosto impassivo de Pascal e o abraço fraterno, mas angustiado são grandes momentos -, fica difícil aceitar a sua passividade ao visitar os Mazel e a manifestação de virilidade restrita a gritos solitários.

Como é doce nas palavras recitadas, as tomadas externas e os planos abertos da fotografia de Jean-François Robin merecem molduras de destaque. Retratando uma beleza virgem, curiosamente similar a Patricia, o pôr-do-sol detrás de uma plantação de trigo e o plano de uma capela pairando sobre um monte transmitem a placidez e o calor esperados do subgênero.

Ainda assim, A Filha do Pai não agrega muito ao espectador e não se mostra particularmente capaz de superar, nem mesmo temporariamente, os altos muros construídos ao redor dos nossos corações. Mas bem que a sua beleza até que disfarça o seu otimismo exagerado e prejudicial.

6) A Vida vai Melhorar (Une Vie Meilleure), França, 2011. Direção: Cédric Kahn. Roteiro: Catherine Paillé e Cédric Kahn. Elenco: Guillaume Canet, Leïla Bekhti, Slimane Khettabi, François Favrat, Nicolas Abraham, Abraham Belaga, Brigitte Sy, Annabelle Lengronne. Duração: 110 minutos.


A cada obstáculo na vida do chefe de cozinha Yann neste A Vida vai Melhorar, eu recordava a dura batalha travada por Chris Gardner (personagem de Will Smith) no ótimo À Procura da Felicidade. Ambos filmes são similares no conceito: homem-médio, facilmente relacionado a qualquer um de nós sobretudo em tempos de crise econômica, que luta contra a maré ruim da vida na busca de um objetivo e carregando consigo a responsabilidade de serem figuras paternas. No entanto, eles divergem fundamentalmente na natureza dos seus personagens: enquanto Chris Gardner era um otimista desapontado consigo próprio por jamais ter concretizado seu potencial, Yann é um homem teimoso e inconsequente, despreparado para as armadilhas capitalistas.

Escrito por Catherine Paillé e Cédric Kahn, e dirigido por este, o roteiro repercute os planos do protagonista de montar um restaurante à beira do lago em uma cabana abandonada e descoberta durante um passeio ao campo com Nadia, uma imigrante libanesa, e o seu filho Slimane. Embora tendo uma boa ideia empreendedora, Yann simplesmente não tinha condições de lidar com o empréstimo imobiliário, as despesas de reparos e, quando tudo parecia encaminhado, o alvará para funcionamento. Na medida em que o seu sonho é esmagado, pois o capitalismo não premia os idealistas mas os pragmáticos, outros problemas surgem até que o relacionamento com Nadia se torna insustentável, levando-a a aceitar um emprego de gerente no Canadá, deixando Slimane temporariamente aos cuidados de Yann.

Através de uma câmera sempre próxima a Yann, acompanhamos a sua degradação com enorme intimidade e realismo. Mostrando-o como alguém apreensivo e impulsivo desde o inesperado convite ao conhecer Nadia, a sua personalidade não demora para produzir consequências ruins: as dívidas acumulam-se, o quarto onde habita está caindo aos pedaços e ele precisa economizar centavos e mendigar favores a amigos antigos. A sua espiral de azar não parece ter fim e ao ouvir um conselho de uma profissional, ele não segura o desabafo “você não pode dizer algo positivo?”. Entrecortada por fades e elipses que movem a história adiante, a trajetória de Yann tem uma cronologia displicente (mas não incompreensível) e os eventos ruins amontam-se quase como um pesadelo em episódios do qual ele anseia acordar.

Nessa espera, Cédric Kahn encontra espaço para abrir brechas de alegria fundamentais para que o espectador não se sufoque no desespero. A sua relação com Slimane também se aproxima de algo bem mais paternal do que apenas um favor à mãe, como quando o ensina a pescar, e durante uma partida de futebol. Essa empatia entre os dois move adianta o ponteiro da responsabilidade de Yann que enxerga a necessidade de educar o garoto ao obrigá-lo a devolver um tênis roubado que custa metade do que eles têm para viver durante um mês. Curiosamente, a vida tem um jeito particular de debochar dos seus heróis, e Yann taxa-se de hipócrita enquanto comete pequenos furtos de comida para sobreviver.

Contando com os ótimos Guillaume Canet (o sósia francês de Patrick Dempsey), Leïla Bekhti (como não se afeiçoar a uma mulher que não possui 2 euros para comprar um crepe para o filho?) e Slimane Khettabi (verossímil e infantil, sem o embrutecimento artificial), A Vida pode Melhorar, assim como seu irmão de alma norte-americano, é duro e angustiante de forma realista e pouco manipulativa. Dois grandes filme que poderiam ter somente um pouco mais de compaixão pelos seus protagonistas.

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