Festival Varilux de Cinema Francês 2012 – Dias 4 e 5

Uma reclamação antes de começar os trabalhos. A sessão de My Way, O Mito além da Música foi interrompida duas vezes. Na primeira, inclusive, o projecionista fez o grande favor de adiantar o filme, revelando cenas já próximas do filme.

Eita, CineSystem!

7) Aqui Embaixo (Ici-bas), França, 2012. Direção: Jean-Pierre Denis. Roteiro: Richard Boidin, Jean-Pierre Denis e Yvon Rouvé. Elenco: Céline Sallette, Eric Caravaca, François Loriquet, Maud Rayer, Adeline D’Hermy, Jacques Spiesser, Nelly Antignac, Yves Beneyton e Aladin Reibel. Duração: 100 minutos.


Desde criança, Luce tem uma conexão estreita com a religiosidade. Devota de Santa Lúcia, ela adotou o seu nome no convento de Périgord e assumiu desde jovem os votos de castidade, pobreza e obediência, sendo dona de um comportamento exemplar e discreto exaltado pela Madre Superiora e os párocos. No entanto, a guerra também está intimamente associada a ela: o seu pai morreu lutando a primeira guerra mundial e, no auge da ocupação alemã no território francês, ela tem uma participação decisiva no destino de rebeldes franceses no drama Aqui Embaixo. Inspirada na história real da irmã Philomène, Luce trabalha como enfermeira até que certo dia é chamada para prestar socorro a um dos rebeldes, o ex-padre Martial. Aproximando-se dele bem mais que deveria, a irmã acaba mal-interpretando os supostos sinais divinos e cometendo transgressões estimuladas por um amor proibido, acreditando piamente estar acobertado pelos desígnios de Deus (“O Senhor sabe do nosso amor“).

Seu zelo e fervor característicos vão cedendo espaço a uma postura dispersa desde o momento em que sente estar sendo abandonada por Deus. Evitando grandes oscilações, a atuação de Céline Sallette denota a reserva característica do seu ofício com uma voz baixa e sorrisos envergonhados que mal tem a força de inflexionar seus lábios (mesmo quando ela se recorda do seu passado e da fonte de água que simboliza a sua devoção). Sua entrega ao minimalismo é, aliás, a melhor coisa da narrativa comandada com uma mão pesada por Jean-Pierre Denis. Desviando o foco do ótimo estudo de personagem para as descartáveis movimentações dos rebeldes que, além de tudo, são pouco convincentes, o cineasta também exagera no romance cujo desfecho está anunciado desde o primeiro contato mais agudo. A ambientação outonal e a paleta de cores em tom marrom escuro também não dá margem para nada além da melancolia, e o diretor de fotografia Claude Garnier é muito competente em evocar a solidão de Luce nos closes fechados de suas orações ou na inferiorização dela perante à Madre Superiora ao ter descoberta a sua transgressão.

Construindo momentos singelos que ajudam a definir a rotina do convento, Jean-Pierre Denis atenua o tom pesado do drama na descontração das freiras durante uma brincadeira testemunhada à distância pela sorridente Madre Superiora. Ela, vivida por Maud Rayer compreende a necessidade de manter uma voz paciente e uma conduta firma, mas jamais autoritária (como aquela interpretada por Meryl Streep em Dúvida). Essa postura torna crível o apelo a Luce e ressalta o remorso de não ter ouvido a sua confissão desde logo.

Investindo na simbologia cristã, onde o arame farpado representa a versão da coroa de espinhos de Luce, a marca na parede onde antes se encontrava um crucifixo acaba sendo um fortíssimo retrato de uma mulher que perdeu a fé e teve suas emoções desenganadas ao acreditar na sua interpretação dos sinais de Deus. E, mesmo que não seja inteiramente satisfatório, Aqui Embaixo merece aplausos por retratar de forma corajosa e humana a desilusão da irmã Luce e a sua transformação de bondosa freira na “santa” responsável pela morte de “terroristas”. E como não admirar uma produção que tenha protagonista tão conflituosa assim?

8) My Way, O Mito Além da Música (Cloclo), França/Bélgica, 2012. Direção: Florent-Emilio Siri. Roteiro: Julien Rappeneau e Florent-Emilio Siri. Elenco: Jérémie Renier, Benoît Magimel, Monica Scattini, Sabrina Seyvecou, Ana Girardot, Joséphine Japy, Maud Jurez, Marc Barbé, Eric Savin, Sophie Meister, Janicke Askevold. Duração: 107 minutos.


Egípcio, percussionista, dançarino talentoso e um dos grandes nomes da história da música pop francesa, Claude François, o Cloclo, também conhecido por ser o autor de “Comme d’habitude”, canção que viria a ser adaptada por Frank Sinatra e tornar-se a conhecidíssima “My Way” encontrou em My Way, O Mito Além da Música um retrato cinematográfico bastante fiel à sua personalidade. Dirigido por Florent-Emilio Siri (surpreendentemente, o mesmo de Refém, fraco filme de ação estrelando Bruce Willis), o roteiro de Julian Rappeneau e dó próprio Florent acompanha a vida inteira de Claude: da infância ao auge da carreira, inclusive os relacionamentos amorosos, a conturbada relação com o pai e a mãe, viciada em jogos de azar, e a convivência difícil com praticamente todos ao seu redor.

A vastidão de acontecimentos explorados produz um filme mais inchado do que o desejável e a abundância de eventos supérfluos (a menção do lançamento da sua linha de perfumes é um deles) ressalta o tom episódico já naturalmente presente nas narrativas biográficas. Além disso, ao seguir fielmente a trajetória do cantor, muitos personagens descartáveis são adicionados quando a condensação deles em uma figura única seria mais eficiente e econômica, como é o caso da mudança de ajudante que não agrega nada à narrativa. Tudo isso culmina no desenvolvimento precário e apressado de situações potencialmente mais interessantes (a paternidade conturbada) em troca de redundâncias (a preocupação com o envelhecimento, leia-se degeneração celular, que apesar de divertida, é martelada na cabeça do espectador).

Mas, My Way transborda uma energia contagiante na figura de Claude François. Sujeito multifacetado com um grande complexo de inferioridade (ele afirma ter voz de pato certo momento), Claude era capaz de manifestações de apreço diametralmente opostas às cruéis humilhações impostas. Ironicamente, esse seu jeito o aproxima do pai, Aimé, que nunca aceitou a carreira de músico (“Não quero filho saltimbanco“). Reproduzindo involuntariamente o metodismo do pai, como quando está polindo um pote de doces ou passando o dedo para remover a poeira das luminárias, Claude François parece sempre buscar a aprovação paterna, ainda que suas esperanças residam só nos seus sonhos. Isso ajuda a entender a reiterada rima do imponente navio (o pai) pairando diante de um Claude garoto, mesmerizando-o e também atrapalhando a travessia que representa a superação dos traumas infantis.

Para dar vida ao mito, Jérémie Renier auxiliado pela equipe de maquiagem se transforma em Claude François, e veja como aos poucos as suas sobrancelhas tornam-se ralas diante do estilo de vida vaidoso e excêntrico. Incorporando a musicalidade em todos os momentos de sua vida, até o apreensivo tamborilar de seus pés é ritmado. Seu sucesso, portanto, não soa gratuito diante da dedicação de Renier para com suas fãs, mas principalmente na sua capacidade de autopromoção e entrega no palco, conseguindo assustar o espectador durante um desmaio simulado em um show. Mas, seus dons artísticos nada correspondiam à insegurança amorosa e o ciúme obsessivo retratados com competência por Renier quando tranca a sua esposa no quarto para que ela não saía ou ao destruir a empolgação de France Gall, após uma ligação telefônica. Apresentando um elenco uniforme, destaca-se ainda Benoît Magimel como o bondoso empresário de valiosos conselhos.

Apresentando uma montagem intensa igual ao protagonista, Olivier Gajan falha no atropelo das elipses (repentinamente Aimé François surge em coma) e no fluxo de personagens que entram e saem da narrativa, tornando dificílimo traçar um panorama da situação de cada um, como o de sua irmã Josette. Ele saí-se bem melhor ao conferir ritmo nas fusões, raccords (sonoros e visuais) e na montagem circular que acompanha o fracasso do primeiro disco de Claude. Enquanto isso, a fotografia de Giovanni Fiore Coltellacci é sublime e virtuosa: o travelling no show do Olympia consegue transportar o espectador àquele evento com facilidade e os planos-sequência impressionam, sobretudo àquele onde Claude cumprimenta diversas fãs (embora haja cortes escondidos). Finalmente, a direção de arte confere intensas cores coerentes ao estilo do protagonista (roxo, azul e verde misturam-se em uma aquarela singular), além de uma perfeita reconstrução de época, como na recriação da fachada do cassino Monte Carlo.

Bastante longo (30 minutos a menos não fariam falta), My Way é um empolgante e compreensivo retrato de um ídolo que consegue justificar o tamanho da devoção das fãs e as declarações de amor autografadas na parede do seu apartamento. E ao ver um Claude François reticente e tímido ao cumprimentar a Frank Sinatra à distância, deixei-me levar tanto por esse homem magnético, como também pelo doce garoto órfão de um amor paterno impossível.

9) Uma Garrafa no Mar de Gaza (Une bouteille à la mer), França/Israel/Canadá, 2011. Direção: Thierry Binisti. Roteiro: Thierry Binisti e Valérie Zenatti. Elenco: Agathe Bonitzer, Mahmud Shalaby, Hiam Abbass, Riff Cohen, Abraham Belaga, Jean-Philippe Écoffey, François Loriquet e Loai Nofi. Duração: 100 minutos.


Relacionamentos entre mundos opostos não são novidade no universo cinematográfico e proporcionam, em maior ou menor grau, a reflexão de como os muros erigidos ao nosso redor podem ser superados recorrendo apenas a nossa humanidade. Não importa se é a nossa classe social, religião ou inclinação política, o homem sempre descobre novas maneiras de se avizinhar do outro, mesmo que apenas na forma epistolar, como é o caso deste Uma Garrafa no Mar de Gaza. Aproximando dois jovens que não poderiam ser mais antagônicos, a judia Tal e o palestino Naïm, a narrativa dirigida por Thierry Binisti que a co-roteiriza com Valérie Zenatti, discute a essência dos conflitos na faixa de Gaza a partir da rebeldia de personagens que batalham intensamente contra o comodismo de julgar a guerra uma rotina diária.

Após ser surpreendida por mais um atentado, retratado de forma crua somente com base na sonoridade da sequência – uma conversa descontraída é interrompida pela explosão de uma bomba e gritos histéricos -, a adolescente Tal, de 17 anos, pede ao irmão que lance ao mar uma garrafa com uma carta dentro, onde afirma desejar conhecer os porquês do lado palestino. Depois de descobrir junto com seus amigos a garrafa boiando na praia, Naïm começa a trocar e-mails com Tal, o que os levará a mudar definitivamente a percepção dos conflitos em que estão inseridos.

Estabelecendo a distinção dos protagonistas através da variação sensível na fotografia (o grão é mais grosso no lado palestino, enquanto o tom frio permeia o judeu), Binisti não enxerga que as diferenças vão de encontro à aproximação defendida, elas não evoluem ao longo da narrativa, o que seria compreensível. Ao invés, o cineasta busca o ponto-comum em elementos banais e forçados, como a repetição de uma piada cuja única diferença é a conclusão, ou esbarra acidentalmente na recorrência de atentados que acabam não somente atraindo Tal e Naïm, mas quaisquer habitantes que poderiam ser vítimas em potencial.

Já o próprio caráter epistolar revela-se um problema de difícil contorno e denuncia a frágil cronologia da narrativa. Através de e-mails pouco inspirados que não parecem ter a capacidade de motivar ninguém a sair da inércia, o relacionamento estende-se por mais de 1 ano mesmo que a caixa de entrada contenha menos de dez mensagens. Outros detalhes reforçam a tropeguidão narrativa, como o envio de uma foto 3×4 que serve somente para fomentar a possibilidade de um possível encontro, bem como a alternância gratuita entre períodos de trégua e guerra, provocando o envio de um e-mail desaforado por Naïm que é esquecido convenientemente minutos depois.

Mesmo com uma mensagem essencialmente bonita, a narrativa ainda comete o ingênuo erro de soar propagandista, vangloriando as ações governamentais franceses e não a dos seus personagens. Naïm, por exemplo, abre os olhos somente depois “que começou a andar com os franceses”, e sua salvação está atrelada à aceitação de uma bolsa de estudos e não às ações de seus personagens. E para piorar, estes são estereotipados: Tal é a típica adolescente francesa contestando, à distância, a situação ao seu redor e fumando um cigarro ou tomando um café casualmente; enquanto Naïm é o palestino consciente, avesso à guerra e com um desesperador desejo de fugir de sua pátria (mesmo tendo afirmado o desejo de retornar depois).

Apresentando a assustadora imagem de crianças brincando com metralhadoras de brinquedo em mãos, Uma Garrafa no Mar de Gaza ensaia um encontro poético no final coerente com a situação social daquela região. Entretanto, até mesmo a força dessa sequência é reduzida na narração frouxa e na inocuidade dessa história de amor.

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