Festival Varilux de Cinema Francês 2012 – Dias 6 e 7

Despeço-me do Festival Varilux com as três últimas críticas, totalizando 12 (uma boa média, portanto).

10) O Monge (Le Moine, Espanha/França, 2011). Direção: Dominik Moll. Roteiro: Dominik Moll e Anne-Louise Trividic baseado no livro de Matthew Lewis. Elenco: Vincent Cassel, Déborah François, Joséphine Japy, Sergi López, Catherine Mouchet, Jordi Dauder, Geraldine Chaplin, Roxane Duran, Frédéric Noaille. Duração: 101 minutos.


Cada pecador comete pecados à sua maneira”, afirma o frade Ambrósio durante a confissão de um criminoso sexual na Espanha do século XVII. Dono de uma pregação visceral capaz de movimentar centenas de fiéis e admirado pelos demais membros da ordem franciscana, fatalmente este “Homem de Deus” teria a sua fé testada pelo diabo em uma história faustiana com uma estética visual que homenageia acertadamente o expressionismo alemão.

Adaptado do livro de Matthew G. Lewis escrito no século XVIII (que não conheço, mas vou correr atrás), este estudo de personagem investe em eventos simultâneos que conduzem o austero frade à tentação pelo pecado capital: a chegada do desfigurado noviço Valério, o encanto da bela Antônia pelos sermões, a condenação de uma freira que transgrediu os seus votos e a iminência da morte do padre Miguel, que acolheu Ambrósio quando este fora largado na porta da abadia.

Enquadrado de baixo para cima, ressaltando o temor e grandiosidade que inspira aos demais, Ambrósio é vivido por Vincent Cassel de maneira discreta, estabelecendo a enriquecedora dicotomia que viria a atormentá-lo. O seu semblante assemelha-se à imagem cristã de Jesus e o uso da coroa de espinhos em seu sermão só reforça a comparação. No entanto, a demonização progressiva refletida em seu intenso olhar revela o apetite voraz, crescente e incontrolável. Ao mesmo tempo, Valério assume uma postura misteriosa, desde a sua mórbida máscara que não permite sequer observar o seu olhar. Finalmente, Antônia tem um ar virginal imaculado que remete tanto à mãe de Jesus, como também a Gretchen, o amor de Fausto (e a semelhança de Ambrósio com esse personagem ainda é maior se considerarmos as consequências de suas ações na vida de Antônia).

Tendo mencionado a clássica obra de Goethe, o diretor Dominik Moll retorna às raízes do terror e introduz elementos do expressionismo que combinados com o aspecto sacro, como as assustadores gárgulas, dá um tom próximo ao macabro. Da fotografia que contrasta entre a superexposição diurna (representando o deserto particular de Ambrósio) e as sombras amealhadas nos escuros corredores e dependências da abadia, à estilização de certos cenários, como o tribunal canônico ou a prisão, o cineasta também utiliza a trilha sonora do competente Alberto Iglesias para conferir um tom erudito e fúnebre apropriados. O próprio uso do efeito íris nas transições remonta aos primórdios do cinema quando era empregada com mais frequência.

Apresentando rimas visuais óbvias mas eficientes, como a fogueira sobreposta ao rosto de Ambrósio e a confusão entre os movimentos de Valério e os de um corvo, O Monge ainda aposta em imagens gráficas que permanecem tempos depois na cabeça do espectador, como a de homens em procissão penitenciando-se com velas derretidas sobre a cabeça. E, mesmo que o desfecho não agrade, ele revela uma coerência diabólica de imputar a um homem santo e irrepreensível um pecado de grandiosidade aviltante.

Pecado esse bem faustiano, a propósito.

11) Paris-Manhattan (França, 2012). Direção: Sophie Lellouche. Roteiro: Sophie Lellouche. Elenco: Alice Taglioni, Patrick Bruel, Marine Delterme, Louis-Do de Lencquesaing, Michel Aumont, Marie-Christine Adam, Yannick Soulier. Duração: 77 minutos.


Para uma apaixonada fã de Woody Allen, Alice é ironicamente o tipo de personagem que o diretor adoraria alfinetar nos seus filmes. Capaz de citar nomes famosos com ímpar facilidade e ostentando uma coleção artística impressionante, com livros de Freud e Shakespeare e álbuns de Cole Porter, ela parece incapaz de absorver as filosofias apresentadas por aqueles nomes, permanecendo solteira graças à sua autoindulgência (não porque sua irmã Helène casou com Pierre, partidão que havia conhecido em uma festa). Anos depois, assumindo a farmácia do seu pai e ministrando uma cura através dos filmes (conceito absurdo e mal empregado), ela acaba conhecendo o curioso Victor, idealizador dos alarmes antifurto mais estranhos possíveis (um lança clorofórmio, o outro é paralisante), além de se envolver amorosamente com Vincent, uma biblioteca ambulante de autores e frases prontas tão aborrecida quanto ela.

Escrito e dirigido por Sophie Lellouche, Paris-Manhattan respira Woody Allen em cada quadro e tenta reproduzir a fagulha de genialidade da obra do diretor naquele que é o maior defeito da narrativa e também o seu aspecto mais pitoresco. O refinamento dos diálogos e gags são razoavelmente bem sucedidos (após citar a idade dos seus pais centenários “esquecidos na Terra”, Victor teme que quando Deus descobrir o erro vai se vingar na sua geração) e a narrativa diverte, especialmente os fãs, ao inserir elementos da extensa obra do cineasta. A própria profissão da protagonista brinca com a hipocondria da persona cinematográfico de Woody. Porém, a obsessão da diretora culmina em situações nada inspiradas, como a invasão simultânea de uma casa para descobrir uma traição e várias referências gratuitas pouco orgânicas à narrativa (a família de Helène é judia).

A boa ideia de introduzir conversas imaginárias entre Helène e o pôster gigante de Woody no seu quarto (que responde usando frases dos seus filmes), embora responsável pelos melhores momentos do filme, perde seu efeito à medida que o recurso é usado repetidamente. Já a menção exclusiva a Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar expõe a fragilidade de uma narrativa incapaz de explorar títulos bem mais interessantes no rol de obras-primas do cineasta que homenageia. E repare que nem quando certos personagens alfinetam os méritos de Manhattan, Helène chega a defender a obra, optando por uma postura passiva “intelectual” de evitar o debate como se a obra prescindisse dele (o que ratifica que ela não aprendeu absolutamente nada vendo e revendo os filmes de Woody).

Incapaz de atender à alta expectativa da sua premissa, Paris-Manhattan termina sendo uma comédia romântica previsível no melhor estilo norte-americano, com personagens engraçadinhos (o pai de Helène) e piadas prontas (comparar Luís XIV a um comunista). Sua exígua duração de 77 minutos, o charme pitoresco e uma participação especial (pouco inspirada novamente) adoçam um filme bobo cuja ideia teria sido bem melhor desenvolvida nas mãos de, oras de que, Woody Allen é claro!

12) Polissia (Polisse), França, 2011. Direção: Maïwenn. Roteiro: Maïwenn e Emmanuelle Bercot. Elenco: Karin Viard, Joey Starr, Marina Foïs, Nicolas Duvauchelle, Maïwenn, Karole Rocher, Emmanuelle Bercot, Frédéric Pierrot, Arnaud Henriet, Naidra Ayadi, Jérémie Elkaïm, Riccardo Scamarcio e Sandrine Kiberlain. Duração: 127 minutos.


Vencedor do prêmio do júri no festival de Cannes, Polissia é o incisivo retrato de nossa sociedade onde aqueles que mais deveriam zelar pelo bem-estar e felicidade de uma criança são os primeiros a desvirtuar a sua inocência. Acompanhando o cotidiano da brigada de proteção de menores, uma divisão da polícia parisiense, o longa dirigido por Maïwenn constrói um amplo mosaico de casos reais intercalados com os dramas dos integrantes da brigada, e através dele delineia um panorama alarmante do que pode estar acontecendo dentro dos lares e das escolas exatamente agora!

Com uma abordagem ultrarrealista e documental, Maïwenn concebe planos fechados que minuciosamente extraem pequenos detalhes dos depoimentos (um olhar hesitante, uma fala balbuciante) essenciais para a condução da investigação e oferecimento da denúncia. Isso ajuda a conferir seriedade à condução dos trabalhos policiais, que não acreditam em todas as histórias contadas exercendo um filtro automático proveniente de anos de experiência. Esse cuidado com a verossimilhança permeia completamente o projeto desde a naturalista sequência inicial, onde a escolha cuidadosa das palavras permite que uma garotinha relate em detalhes o suposto abuso praticado pelo seu pai. Analogamente, a direção de arte é lúcida em ilustrar o acúmulo de processos nas prateleiras e a impressionante mise en scène não deixa passar desapercebido sequer o olhar curioso de um policial acompanhando no segundo plano um depoimento ocorrendo noutro canto da sala.

Revelando o modus operandi dos policiais que não hesitam em analisar, inclusive, o esteriótipo do hipotético agressor, o espectador conhece as consequências emocionais do extenuante trabalho nas suas vidas e muitos deles, sendo pais, acabam carregando um fardo muito maior. Exemplo disto é Fred (Starr), cujo carinho demonstrado com uma criança abandonada explica o porquê de estar sempre tenso, na iminência de uma explosão de raiva, levando para o lado pessoal o insucesso de uma busca. Até mesmo a unidimensionalidade de alguns personagens, inevitável em um projeto desta monta, não compromete a narrativa, pois as discretas nuances ajudam a compreendê-los. É o que ocorre com Iris (Foïs): feminista, incitando o divórcio de uma amiga, e bulímica, características que soariam como muletas de interpretação em um primeiro momento, a narrativa revela uma mulher complexa, martirizada por um casamento mal sucedido e uma condição que não é anunciada em alto e bom som, mas ilustrada no chocante “plano-detalhe” (as aspas são plenamente justificáveis).

Enquanto isso, o conteúdo revoltando dos depoimentos é atenuado nos calorosos momentos de intimidade entre os integrantes da equipe, como no descontraído jogo de imagem e ação. Já a ida a uma danceteria é o interlúdio obrigatório após a pressão sofrida por aqueles homens momentos antes. Finalmente, a cineasta também expõe a burocracia da instituição e reforça o realismo perseguido na narrativa: Baloo (Pierrot), chefe da equipe, está sempre tentando conciliar a apreensão dos seus comandados e os interesses superiores, e a cessão de uma viatura aos narcóticos representa muito bem a politicagem existente no meio sem parecer despropositada na narrativa.

Tamanho comprometimento da equipe, ratificado na montagem econômica de cortes secos de Laure Gardette, para tratar de um tema relevante, sem pieguice e manobras dramáticas convenientes, resultam em um dos filmes mais importantes do ano, que não satisfeito só em documentar um problema social e familiar atemporal, o faz com intenso envolvimento humano. Isto desde os excepcionais créditos inicias ao desfecho ao mesmo tempo amargurado e esperançoso.

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