50 Anos | O Anjo Exterminador e O Eclipse

Sem delongas, breves comentários sobre os excepcionais trabalhos de Luís Buñuel e Michelangelo Antonioni.

O Anjo Exterminador (El Ángel Exterminador), Dir. Luís Buñuel

Ápice do surrealismo no cinema, O Anjo Exterminador é um daqueles raros filmes que estudiosos têm se debruçado no decorrer dos anos na busca de significados para os inúmeros símbolos nele existentes. Não é um trabalho fácil mas não menos gratificante por causa disto. Crítico, sardônico, atemporal e sarcástico, o roteiro convida a um misterioso jantar cujos participantes, todos ricos burgueses, sentem-se compelidos a não abandonar por hipótese alguma, mesmo que isso afronte a etiqueta, os bons modos e o estilo de vida daquela classe social. Não há portas, paredes ou obstáculos físicos que impeçam a saída, só um abalo psicológico inexplicável que os devolve à condição bestial de animais, com a mera diferença de poderem expressar-se em palavras, o que os cordeiros e o urso manso presentes no jantar não conseguem fazer. E da mesma forma que os ricos não conseguem fugir, os serviçais, ou seja, a classe trabalhadora, e os curiosos de plantão, a imprensa, também estão incapacitados de penetrar na mansão onde ocorrera o jantar.

Buñuel aposta em elementos de repetição que, a meu ver (você entenderá que tudo neste filme recorre à interpretação subjetiva do espectador), revelam as duas caras da burguesia a partir de ações contraditórias disparadas por algo idêntico, como é o caso do anfitrião que levanta a taça em brinde e é imediatamente acompanhado por seus cordiais convidados para, no momento seguinte, repetir o mesmo gesto e discurso e ser solenemente ignorado como se mudo fosse. Compulsivamente explorada por Buñuel, a repetição alcança as personagens, antes aprisionadas nos ditames estritos da boa conduta, levando-as a exibir um comportamento antipático e grosseiro no confinamento. Máscaras caem evidentemente e, em tempos de Big Brother, deve-se aplaudir o pertinente argumento do cineasta que antevia a redução ao não-social de homens levados a situações extremas, manchando a fachada do homem gregário, bicho social. Até porque nunca existiu o conceito dos livros de sociedade para Buñuel, e aqueles homens poderiam até se canibalizar que estariam apenas seguindo os próprios instintos alimentares, o que torna mais bela a alegoria do jantar proposta pelo diretor (algo que ele viria a fazer novamente em outra obra-prima, O Discreto Charme da Burguesia). Afinal, nenhum daqueles homens estava ali para experimentar as iguarias exóticas oferecidas pela anfitriã, mas xeretar o patrimônio e a vida alheia, desnudar interesses e maquinações; sendo apenas justo virem a passar fome em certo momento.

Se Buñuel dirige seu roteiro à burguesia, ele também encontra espaço para criticar um de seus maiores desafetos: a Igreja Católica. Comparando homens a cordeiros da mesma maneira que a Bíblia fizera, Buñuel eleva esses animais que parecem prescindir de pastor para serem guiados, distintos de homens, seres despersonalizados e sem uma opinião formada, investidos no misticismo de carregar uma perna de galinha dentro da bolsa ou de acreditar em assombrações como uma mão decepada ganhando vida. E no único momento em que as inteligências enfim convergem, Buñuel parece preparado para dar o troco às personagens, levando-as de um confinamento reflexo da sociedade burguesa para outro ainda mais cruel: a alienação religiosa. Desse, imagino que nem muita força de vontade seria capaz de os libertar.

O Eclipse (L’eclisse), Dir. Michelangelo Antonioni

O que há de surreal em O Anjo de Exterminador há de simbólico na última parte da ótima trilogia da incomunicabilidade, O Eclipse. Nele, Michelangelo Antonioni apresenta uma sociedade capitalista em que os homens não conseguem mais se fazer compreender mesmo quando se entregam a apaixonados diálogos. Não é um problema de não encontrar palavras, mas a habilidade de externar o que se sente, o que explica porque a protagonista Vittoria não consegue fazer seu namorado (e nós, espectadores) compreender o porquê do término abrupto de seu relacionamento. Isto fica mais claro quando, ao visitar uma moradora do outro lado da rua recém egressa da África, Vittoria ingênua e inconscientemente pratica atos de preconceito recriminados imediatamente pela anfitriã. Essa incomunicabilidade, título abominado por Antonioni, vê-se também na capacidade que as palavras têm de esconder as reais motivações de um ser humano, seus sentimentos. As personagens mais honestas da narrativa, portanto, são aquelas que permanecem a maior parte do tempo caladas e o senhor que acabara de perder milhões na bolsa de valores e caminha silenciosamente em direção à sua tragédia humana é um verdadeiro sinal disto.

Transformando o galpão de operação da bolsa de valores no símbolo perfeito para traduzir a sociedade daquela época – e do novo milênio, mantendo-se contemporâneo em um mundo que as redes sociais aproximam e afastam o contato humano -, Antonioni cria uma inquietação crescente na ação de corretores gritando números, vendendo e comprando opções e títulos e brincando com o dinheiro alheio como se este fosse seu. Pois, ninguém parece compreender esse linguajar específico e nem mesmo os homens naquele meio têm a capacidade de decifrar e interpretar as mudanças significativas do mercado, permanecendo à deriva durante uma perda colossal de bens. Todos estão condenados no mundo amaldiçoado pela ânsia de abrir a boca, mas não parecem preocupar-se em se fazer entender. É isto que embeleza os 10 minutos finais, devolvidos a uma tranquilidade natural próxima ao começo da existência em que não havia nada além do barulho dos ventos e as ondas do mar como formas de comunicação.

Em meio a isto, Vittoria caminha por uma Itália desglamourizada, troca farpas com a sua mãe, convive com o silêncio e conhece Piero, um operador da bolsa impulsivo e vivaz. Eles se apaixonam. Gestos demonstram isso: um beijo apaixonado separado pelo vidro de uma janela; o rasgar da seda do vestido, sinal da afobação provocada pelos hormônios. Eles também estão condenados a não compreender o outro. Nessa bela poesia de Antonioni, descobrimos o que leva o homem a chegar no dia de hoje e trancar-se do mundo exterior protegido pelo conforto de um smartphone. Afinal, por não entender o próximo, o homem encerra-se em si próprio, um retrato triste de que a torre de Babel só era o anúncio de uma aguda fase de incomunicabilidade do ser humano.

Esta crítica integra o especial do Cinema com Crítica que celebra o aniversário de clássicos que completaram 50 anos de idade. Na próxima edição, Sob o Domínio do Mal.
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4 Comments on “50 Anos | O Anjo Exterminador e O Eclipse”

  1. Excelente texto sobre O Anjo Exterminador – não li o do Eclipse por não ter visto o filme ainda. Considero uma obra-prima do surrealista. O ápice em qualidade, talvez. Mas em estilo, no cinema, é A Idade do Ouro – mais um exercicio que um filme. Participei de um debate certa vez sobre O Anjo Exterminador. Foi excelente!

  2. Ótimas críticas Marcio!

    O Eclipse é fantástico, talvez vou rever hoje. Desta trilogia, meu predileto (se é que podemos fazer isso, escolher…) é "A Aventura"!

    "O Anjo Exterminador" é outra obra-prima. Buñuel na melhor forma, mas meu predileto dele são dois: " Um Cão Andaluz" e "O Discreto Charme Da Burguesia".

    Linkando seu blog ao meu.

    Abraço
    Rodrigo

    http://cinemarodrigo.blogspot.com.br/

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