Crítica | Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo

Seeking a Friend for the End of the World, Estados Unidos/Cingapura/Malásia/Indonésia, 2012. Direção: Lorene Scafaria. Roteiro: Lorene Scafaria. Elenco: Steve Carell, Keira Knightley, Adam Brody, Rod Corddry, Connie Britton, Patton Oswalt, Melanie Lynskey, William Petersen, Derek Luke, Martin Sheen. Duração: 101 minutos.


Caso Melancolia não houvesse sido dirigido por Lars von Trier, mas de acordo com as regras das produções contemporâneas do circuito independente norte-americano, o resultado estaria bastante próximo deste Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo. Apropriando-se somente do tema principal daquele, ou seja, a reação do homem em face de sua destruição iminente, o filme escrito e dirigido pela estreante Lorene Scafaria não tarda a abusar de reações mais inusitadas do que verossímeis depois da apocalíptica notícia do fim dos tempos. Ela também acrescenta à depressiva atmosfera uma porção de clichês, como a metáfora da viagem de carro que representa a busca do protagonista por algo que lhe permita estar em paz consigo mesmo, e distrações na forma de personagens esquisitos e descartáveis cujo único propósito é proporcionar as ferramentas para que os personagens permaneçam na estrada e assim, disfarça-se a fragilidade do fiapo de história roteirizado. Além de todos esses defeitos, o filme é muito chato.

Escancarando a sua estrutura capenga a partir do momento em que é revelado no rádio o insucesso da missão Deliverance (em português, Salvação) e o prazo de 21 dias para a colisão do asteroide Matilda na superfície terrestre, a história já apresenta o inerte protagonista Dodge (Carell) perdido em um olhar catatônico enquanto a esposa o abandona. Passivo e resignado desde a profissão de corretor de seguros, Dodge atém-se à sua rotina para não enlouquecer, até que uma série de eventos o leva a conhecer a maluca e irresponsável Penny (Knightley), vizinha com a qual nunca manteve contato e que tem estado de posse de algumas de suas correspondências extraviadas dos últimos anos, inclusive uma enviada por um grande amor do passado do moço. Unidos pelo objetivo comum de reconciliação – Penny deseja rever a sua família na Inglaterra da qual se afastou por causa do namorado e Dodge reencontrar sua antiga paixão -, eles partem em uma peregrinação de carro na qual, inevitavelmente, acabarão apaixonando-se.

Substituindo o pânico da população, visto só em momentos escassos e oportunos, pela meditação existencialista a partir da inércia de Dodge, Lorene Scafaria apresenta um contexto pré-apocalíptico em que as pessoas permanecem indo à academia de ginástica e ainda encontram ânimo para surfar. A ideia é curiosa e poderia render uma discussão a respeito do temor da humanidade de encarar a sua própria finitude, escondendo-se dentro do conforto da concha chamada rotina esperando o inevitável, mas a premissa falha quando tenta soar mais deslocada e intelectual do que verdadeiramente é. Assim, se já seria difícil aceitar irrestritamente esse universo diegético em condições normais, a cineasta torna a tarefa praticamente impossível com um humor absurdo e inconvencional, apresentando uma empresa cuja primeira pauta da reunião matutina é a disponibilidade de vagas para gerente ou uma empregada doméstica que se recusa a abandonar o emprego e ficar com sua família. Mas este nem seria um problema se Lorene não martelasse insistentemente a incapacidade da empregada de compreender a dimensão da situação, optando ao invés disto na gracinha de pedir um limpa vidros… duas vezes!

Com uma abordagem arriscada (especialmente para uma cineasta estreante) em que tenta conciliar o tom dramático e depressivo sem abdicar da comédia, a narrativa tem bons momentos graças à exploração inteligente do limiar entre o desespero e a serenidade. E durante a carona com o caminhoneiro interpretado por William Petersen, a diretora acerta na boa construção da sequência que culmina em um suicídio por homicídio (uma boa ideia não tão bem explorada), usando um discreto humor negro para explorar a tragédia da situação. Porém na maioria das vezes, ela não é feliz em equilibrar os temas díspares da dramédia, nem chocando nem provocando sequer sorrisos amarelos, como ao justapor a gag das bolhas no rosto de Dodge (causadas por um gesto altruísta) e um suicídio. Aliás, a festa niilista em que rolam drogas e sexo e crianças ingerem bebidas alcoólicas estimuladas efusivamente pelo pai interpretado por Rob Corddry (alguma vez ele interpretou alguém que não fosse um tremendo babaca?) é de muito mau gosto, além de ser tola e descartável na sua obviedade.

Contando com um Steve Carell triste e contido, bem sucedido em transmitir a amargura de um homem médio vago e desinteressado pela vida, a narrativa beneficia-se (pasmem!) de Keira Knightley, quando não lhe é exigido choros copiosos ou esconder um baseado no cabelo. Contudo, a inclusão de uma dúzia de personagens unidimensionais comprova o vazio de ideias encarado pela cineasta: seja o irritantemente carente Owen (Brody), ou o ex-namorado que montou um abrigo para sobreviver ao impacto do asteroide (Luke), ou ainda o policial que incompreensivelmente prende Dodge e Penny em razão da lanterna traseira queimada, nenhum deles acrescenta algo à narrativa senão prover o próximo meio de locomoção para que o casal atinja seu destino. Além disso, Lorene Scafaria, que havia sucedido no tenro romance regado a músicas de Uma Noite de Amor e Música (ela escreveu o roteiro), é menos feliz na aproximação de Dodge e Penny, estampada desde o início no medo de morrer sozinho.

Dono de um ritmo arrastado, rivalizando só com o sono profundo de Penny e a letargia de Dodge, e apesar de recorrer a encontros telegrafados e reconciliações cafonas, Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo melhora ao abraçar o fim próximo de maneira surpreendentemente esperançosa e otimista. Mas infelizmente, até atingirmos este desfecho honesto e gratificante, encaramos uma estrada demasiadamente longa, extenuante e simplesmente chata.

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5 Comments on “Crítica | Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo”

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