Festivais | 36a Mostra de São Paulo – Dia 10

42) Crianças de Saravejo (Djeca, Bósnia e Herzegovina/Alemanha/França/Turquia, 2012) – Direção: Aida Begic.

Rahima é uma órfã da guerra da Bósnia, recém convertida ao Islamismo e que carrega o peso do mundo sobre as costas para espremer uns trocados e manter Nedim, o seu irmão caçula diabético, na escola. Obrigada a assumir responsabilidades desde nova, muitos poderiam tomá-la pela mãe de Nedim diante da sua aparência abatida e envelhecida mas, apesar da postura controladora, ela mal desconfia dos pequenos crimes cometidos pelo irmão. A partir deste cenário, é desenvolvido este estudo de personagem representante da Bósnia e Herzegovina no Oscar 2013, Crianças de Saravejo.

Convidando o público a vivenciar o cotidiano de Rahima, a abordagem estética do longa o aproxima bastante do documental no emprego da câmera nas mãos dedicada a acompanhar cada passo da protagonista e nos closes que compartilham o seu ponto de vista. Quando segue o irmão noite adentro, estamos logo ao seu lado para descobrirmos o segredo que ele esconde; já ao atravessar o corredor que a conduz à cozinha do restaurante em que trabalha, nos posicionamos detrás dela como se estivéssemos a seguindo.

Essa intimidade é essencial para que entendamos o esforço de Rahima em lutar por uma vida melhor para seu irmão, e ao escutar de conhecidos que “ele se dará melhor do que ela”, ela sente um impacto dolorido. Nesse sentido, a atuação minimalista de Marija Pikic mascara suas emoções e lembranças e lhe confere uma dimensão trágica ao enxergar que todo seu sacrifício pode ter sido incapaz de resgatar o seu irmão. Logo, é comovente estar presente no único momento em que um sorriso autêntico e feliz surge no seu rosto, e mesmo que as dificuldades estivessem longe de ser resolvidas, saímos satisfeitos porque Rahima enfim obteve aquilo que ela tanto desejava.

Apresentando também uma excepcional edição de som, na qual os disparos das armas e mesmo o semelhante som dos fogos de artifício apontam para um permanente estado de conflitos, o sufocante Crianças de Saravejo representa, em uma análise mais abstrata, o próprio esforço de um povo na defesa da continuidade de sua jovem nação através da alegoria da batalha desapegada travada por uma irmã pelo seu irmão amado.

43) O cordeiro (Behold the Lamb, Inglaterra, 2012) – Direção: John McIlduff.

Afora raras exceções, viagens de carro são meros artifícios usados para disfarçar narrativas desinteressantes cuja fragilidade é sentida no próprio tom episódico de sua história. Assim, ao invés de apresentar situações que enriqueçam os personagens ou encorpem de alguma forma a narrativa, o formato somente introduz situações auto-contidas normalmente engraçadinhas que, até em análises menos criteriosas, poderiam ser removidas sem prejudicar em absolutamente nada a trama central. O Cordeiro está cheio de momentos assim.

Escrito e dirigido por John McIlduff, no seu longa de estreia, a história apresenta Liz, uma mulher que mora dentro de um carro e que em uma manhã é surpreendida pela chegada de Eddie, que lhe oferece dinheiro para levá-lo a um inusitado encontro em que deverá pegar um cordeiro e o entregar a um traficante. Mas Liz também tem seus interesse particular, visitar o filho de 7 anos e lhe dar o presente de aniversário atrasado. Contrariando o ditado, Liz e Eddie terminam a jornada mantendo as mesmas personalidades com que a começaram, e a abundante lição de moral sobre compaixão e paternidade mistura-se à óbvia figura cristã do cordeiro, mas não lhes acrescenta nada.

Da mesma maneira, as perfunctórias situações introduzidas pela narrativa acrescentam gordura em matéria de minutos desperdiçados, como no instante em que Eddie descarrega sua arma, erra todos os tiros, embora acerte o pneu do carro, tendo em seguida que roubar, por duas vezes, outro veículo para seguir seu caminho. Detalhes irrelevantes e excêntricos falham na tentativa de acrescentar tridimensionalidade aos personagens, pois em que resulta a epilepsia de Eddie ou sua fixação por aves?

Rodado com uma câmera super 16 de baixa resolução, conferindo o aspecto chuviscado e feio à imagem e prejudicando terminantemente as cenas noturnas, O Cordeiro é um passeio descartável.

44) Mystery (Idem, China/França, 2012) – Direção: Ye Lou.

Eis um filme que faz jus ao título. Nele, um acidente automobilístico com uma vítima fatal movimenta o roteiro intrincado e multifacetado, em que traições e coincidências estão presentes em toda parte, embora a única coisa que eu conseguia pensar até cerca de 80 minutos era o que uma mulher estava fazendo andando em uma auto-estrada durante uma chuva torrencial.

Mas desvendar o mistério não se traduz em um bom filme, mesmo que suas idas e vindas na cronologia mantenham o espectador preso à história tentando antecipar o que vem a seguir – vou evitar mencionar aspectos do roteiro uma vez que podem conter spoilers. Em todo caso, à medida em que ligações inesperadas se revelam entre os personagens, a que me vem primeiro à cabeça é a envolvendo um policial e um rico acusado, o roteiro denuncia a sua incapacidade de atar suas pontas soltas e se mostra frustante ao ser analisado em retrospecto. A carteira esquecida na cena do crime, por exemplo, acaba surgindo nas mãos de sua dona em um momento cronologicamente posterior (mesmo que na montagem aconteça antes), e até se eu estiver enganado, como ela fugiria de lá sem a chave do seu carro convenientemente presa na carteira? O que dizer também do mendigo que, sabe-se lá como, chantageia um personagem mesmo sem ter meios de saber quem ele era?

Ainda que eu não tenha sido convincente na fragilidade do roteiro, o que dizer de algumas decisões absurdas tomadas pelos personagens e que em nada condizem com as figuras que vinham sendo apresentadas até então? Dessa forma, a montagem que acerta nas transições fluidas, e cujo significado assume a condição de causa e consequência entre duas cenas (quando um personagem abre uma janela, o montador utiliza uma fusão que revela outro penetrando em uma casa), acaba errando no desleixo ao interligar as cronologias diferentes, nunca deixando claro algumas vezes se o que vemos ocorreu antes ou depois do acidente.

Contando com uma fotografia dessaturada evocando a visceralidade e crueza da ação humana, a narrativa falha na mise-en-scène atrapalhada e nos movimentos de câmera demasiadamente ágeis que provocam incômodo na tentativa de decifrar o desenrolar da cena. Assim, agradeço com os braços estendidos ao céu a bem-vinda sequência em slow motion que, sendo um dos raros momentos em que compreendi inteiramente o que estava acontecendo, ao menos responde ao misterioso assassinato.

45) Os descrentes (Les Mécréants, Marrocos/Suiça, 2012) – Direção: Mohcine Besri.

Um trio de fundamentalistas islâmicos sequestra uma trupe teatral e os mantém em cativeiro enquanto espera a ordem do emir, seu líder supremo, de matá-los ou não. Discutindo a hipocrisia no fanatismo religioso, uma vez que para expiar um pecado comete-se um novo ainda mais grave, o diretor Mohcine Besri está repleto de boas intenções, mas falha em escolher se emprega o tom cômico ou dramático criando uma narrativa desequilibrada e ineficaz de duas formas diferentes.

Condenando o estilo de vida boêmio e desregrado, o esteriótipo de um artista, dos sequestrados, os terroristas não admitem as roupas curtas das mulheres e o uso de haxixe por todos em um discurso redundante que já ouvimos milhares de outras vezes. E se não há nada de engraçado nos depoimentos dos atores da trupe de como também foram vítimas da intolerância religiosa de alguma forma, um deles perdeu o pai ainda novo por causa de crimes de ódio, o roteiro exagera no bom humor deslocado em que tenta provocar risinhos mesmo em uma situação de morte ou morte. E quando mesmo os vilões começam a fazer gracinhas tolas, como a reação ao ver seus rostos no jornal ou as cambalhotas dadas diante do temor da polícia, você vê que a narrativa perdeu todo a ideia do que estava fazendo em primeiro lugar.

Porém até como filme de sequestro a produção não funciona bem diante da inexperiência dos terroristas que aceitam a presença e comentários dos membros mais ativos da trupe sem grandes ressalvas. Eles recebem aulas de interpretação do autêntico significado do Islã, o que lhes provoca fúria e ameaças repetitivas de morte, e admitem o livre ir e vir dentro da casa sem muita verossimilhança (o porquê dos atores não terem planejado uma fuga nos dias que permaneceram em cativeiro me soa incompreensível, pois eram maioria).

Para finalizar, o cineasta perde totalmente o domínio da mensagem ao desviar a atenção do público para um desfecho insatisfatório que espera que aceitemos de bom grado os atropelados minutos finais. Sem fazer sentido mesmo na peça ensaiada dentro do filme, Os Descrentes é mais um esforço vazio.

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