Festivais | 36a Mostra de São Paulo – Dia 12

49) Walk away Renée (Idem, França/Bélgica/Estados Unidos, 2011) – Direção: Jonathan Caouette.

Municiado de uma câmera digital, o documentarista Jonathan Caouette registrou a sua incansável luta para dar à mãe esquizofrênica Renée Leblanc uma vida confortável. Internada em mais de 100 clínicas psiquiátricas e sofrendo mais baixos do que altos no decorrer da história, Renée “era feliz” – a descrição mais pura e sensível que eu já vi – até que um acidente na adolescência disparou a sua doença mental, fez-lhe perder alguns dentes e a vida nos, agora vidrados e loucos, grandes olhos verdes.

Documentar um assunto tão doloroso quanto a doença dentro de sua própria família soa como uma tentativa insensível de Jonathan se autopromover: ele revela seu inabalável altruísmo e desapego a assuntos materiais e financeiros, refere-se a si próprio como “relutante” ao internar a mãe em uma clínica especializada e ajuda inclusive o avô acometido de Alzheimer em seus últimos anos. Mas mesmo no afã de documentar tudo, até uma sequência noturna assustadora, Jonathan evita a exposição gratuita e acaba se revelando um filho doce, embora chame Renée pelo nome e não “mãe”, afetado por aquilo que revela ao espectador.

Seu objetivo não é capitalizar sobre a doença, mas evidenciar a força de vontade e o apoio familiar necessário para superá-la. Com a ajuda de 3 montadores (o recorrente uso de letreiros no fundo preto para passar informações me fez questionar o porquê) e 5 diretores de fotografia, Walk Away Renée é uma bela história de superação que perde o fôlego somente quando usa universos paralelos como uma alegoria para a fragmentação da mente.

Mas nada mais bonito do que um filho dedicado e abnegado.

50) Um ato de caridade (Paziraie sadeh, Irã, 2012) – Direção: Mani Haghighi.

Leyla e Kaveh, provavelmente irmãos, mas podem ser ainda marido e mulher, percorrem as estradas montanhosas do Irã distribuindo sacos de dinheiro para pessoas carentes ou trabalhadores depois de algumas propostas absurdas, como adquirir um jumento que quebrou a perna e está a um disparo do sacrifício ou o cadáver de um bebê que um pai está em vias de enterrar. Não se deve levar em consideração a justificativa dos dois para este ato de caridade desmedido, mudado a todo instante de acordo com quem recebe a esmola, e tampouco se espera que o roteiro de Mani Haghighi (que interpreta Kaveh) busque adentrar na história do casal.

Dessa forma, a incomum viagem de carro acompanhada em Um Ato de Caridade tenta ser uma alegoria episódica que discute a natureza humana, mas consegue ser somente um esforço tolo e desastradamente filosófico. Existe uma breve discussão sobre ganância e como esmolas mal oferecidas podem gerar mais mal do que bem. Um ermitão que afirma ter exatamente o que precisa para viver recusa a esmola, outro inflaciona o valor de um bem pessoal. À medida em que a noite entra, o tom inusitado e divertido do início da narrativa cede espaço à angústia de concluir a missão, levando os protagonistas a cometerem abusos muito maiores do que as benesses.

Provocando discussões superficiais e as vezes banais, Mani Haghighi falha em cumprir a discussão crítica da sociedade e termina entregando um filme pretensioso e incapaz de revelar mais do que já conhecemos do ser humano.

51) A caça (Jagten, Dinamarca, 2012) – Direção: Thomas Vinteberg.

Condicionado a pensar o pior do próximo e dado a conclusões precitadas, o ser humano médio é uma criatura monstruosa inclinada a arruinar, as vezes injustamente, a vida do outro diante de acusações não comprovadas. Mesmo quando esta é uma das mais horrendas práticas que alguém pode cometer, a violência sexual contra uma criança, o suposto agressor tem direito a presunção de inocência, por mais difícil que soe. Mas não é isso que acontece em A Caça, o excruciante drama de Lucas, um empregado gentil e atencioso em um jardim de infância, que depois de um comentário rancoroso da pequena Klara, filha do melhor amigo de Lucas, é acusado pelos membros de uma pequena de cometer pedofilia.

Apresentando a bola de neve formada desde o momento em que a imaginação fértil de uma garotinha se transforma em um sério caso de polícia, o diretor Thomas Vinterberg (do sensacional Submarino) revela a condução desastrada da investigação que parece induzir Klara a responder apenas aquilo que se deseja ouvir, embora Klara insista em desmentir a história contada. Aos poucos, Lucas é desacreditado, a acusação singular é pluralizada e perpetuada pelos demais colegas da escolinha e o que seria só um mal-entendido é descartado automaticamente pela diretora da instituição Gerthe que afirma ingenuamente que “sempre acreditou nas crianças, elas não mentem”, em seguida por todos os outros membros da comunidade.

Mas estariam eles errados em agir assim, principalmente em se tratando de pessoas tão vulneráveis quanto nossas crianças e cujo sofrimento passa as vezes desapercebido? Sem praticar juízo de valor, nem em relação aos habitantes da cidade, pois faríamos o mesmo, nem em relação a Lucas, ainda que ele seja enfocado sob intensa luz vermelha como antecipadamente condenado, Vinterberg abraça incondicionalmente a sua inocência e questiona o público se ele estaria disposto a se revoltar da mesma maneira diante das falsas acusações se não estivesse acompanhando o escrutínio do protagonista desde o início. A resposta obviamente é negativa e o preconceito do homem é brilhantemente estampado ao longo da narrativa, seca e friamente por um diretor conhecido pelo seu pessimismo.

Soberbamente interpretado por Mads Mikkelsen, Lucas é um homem tímido, cujas costas espalmadas e eretas dão maior ênfase a seu andar languido e olhar perdido detrás dos aros do óculos e da franja que insiste em cair no seu rosto. Desmoronando diante do espectador, Mikkelsen revela esparsos momentos de alegria junto de seu filho Marcus apagados a cada novo grito silencioso que os outros habitantes não estão dispostos a ouvir. Mas em geral o elenco está ótimo: Thomas Bo Larsen é o melhor amigo dividido entre a amizade de infância e o relato feito por sua filha; Lasse Fogelstrøm dá um tom maduro e amoroso a Marcus levando a tomar para si as dores da injustiça; e Annika Wedderkopp a angelical e ingênua Klara.

Diante de uma construção irrepreensível, Thomas Vinterberg surpreendentemente investe em um desfecho artificial que não faz jus à angústia sofrida pelo protagonista (e nem à carreira do diretor). Mesmo que o recurso empregado pelo diretor fosse plantado no início da narrativa em uma discussão casual, é difícil engolir os eventos sucessivos. Assim, nem a inevitável estigmatização salva a A Caça, que poderia ser um dos melhores filmes do ano caso não fosse prejudicado irremediavelmente por um final bem aquém à sua grandiosidade.

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