Festivais | 36a Mostra de São Paulo – Dia 3

09) Abendland (Idem, Áustria, 2011) – Direção: Nikolaus Geyrhalter.

Até este Abendland, eu desconhecia inteiramente o trabalho do documentarista Nikolaus Geyrhalter e a única sensação, afora o tédio, que seu trabalho experimental evocou foi a comparação distante com O Homem da Câmera (1929) de Dziga Vertov. Em ambos os casos, o cineasta documenta o funcionamento de uma sociedade a partir de seu elemento integrante: o indivíduo. Mas se no clássico de quase oito décadas Vertov aperfeiçoou o embrião da linguagem cinematográfica através do registro do cotidiano soviético, aqui Geyrhalter apenas mapeou a vida noturna ao redor da Europa sem a preocupação de desenvolver a identidade da narrativa, em um esforço descompromissado e frouxo.

Em um momento, uma comunidade vivendo em condições precárias organiza a evacuação do terreno em que residem para a construção de um empreendimento. Instantes depois, uma enfermeira assiste um bebê prematuro na incubadora, provocando inquietação no público justamente por se tratar de um ser frágil. Para não me estender excessivamente, na cena seguinte o parlamento europeu reúne-se para discutir a invasão ao Iraque e esbarra em problemas procedimentais envolvendo as línguas escolhidas na tradução. A narrativa prossegue para uma festa regada à cerveja, um centro de monitoramento de uma grande cidade, a mensagem do Papa endereçada a seus párocos, o serviço de assistência ao imigrante, dentre outros.

Em todos os casos, se tem uma breve noção sobre a missão das pessoas que trabalham à noite e como elas mantêm organizada a vida para os que despertam no primeiro raio do sol. Além disso, Geyrhalter também é bem humorado durante um treinamento policial e pertinente ao apresentar um homem cujo separador na orelha e piercings levantariam facilmente um olhar suspeito e preconceituoso do indivíduo médio ao seu lado na rua. No entanto, ao mostrá-lo de jaleco, exercendo a profissão de enfermeiro de maneira atenciosa e gentil, somos levados a questionar todos os pré-julgamentos cometidos diariamente.

Mas ainda que provoque reflexões esporádicas, a ausência de estrutura no retrato do caos noturno e a obsessão do cineasta pelos tempos mortos, estendendo cada segmento segundos a mais do que o necessário, tornam Abendland um trabalho tão vazio quanto a vibrante rave que fecha a narrativa; porém, ao contrário desta, bastante entediante.

10) Além do horizonte (Am Himmel der Tag, Alemanha/França, 2012) – Direção: Pola Schirin Beck.

Já no seu primeiro longa-metragem, a cineasta alemã Pola Beck revela um bom domínio da linguagem cinematográfica em uma história universal que, embora mastigada outras vezes por produções melhores, não deixa de ser um retrato importante da nova geração. O roteiro apresenta a estudante de arquitetura Lara (Aylin Tezel), uma mulher de 25 anos ainda indecisa acerca do seu futuro, e que ao lado da amiga Nora (Henrike von Kuick), mantém um estilo de vida ligeiramente irresponsável, mais preocupada em raves, drogas, sexo e diversão. Tamanha inconsequência lhe rende uma gravidez, a qual ela pretende manter em um misto de aventura, rebeldia e despertar da responsabilidade prenunciado desde a primeira cena em que observa uma mãe e seu bebê.

Essa sua opção a afasta de Nora e a aproxima do estranho vizinho islandês do andar de cima Elvar (Tómas Lemarquis). Eles têm muito mais em comum do que parecem, sobretudo na afirmação de que “a vida não segue os planos”, bem como na frustração das expectativas criadas sobre eles. Ainda em meio a eles, Pola Beck apresenta um quadro alarmante de uma sociedade contemporânea que amadurece mais tardiamente do que a da geração anterior, e isso resulta em jovens adultos propensos a explosões emocionais mais acentuadas justamente por não conseguirem lidar com os obstáculos que surgem no caminho.

Talvez esse seja o motivo para que, após um certo evento da narrativa, estranhemos as consequências exageradamente drásticas e niilistas da protagonista. A mudança de seu comportamento rumo a uma silenciosa histeria parece forçada demais, e sim, este é um grande contratempo da narrativa que também não funcionaria além do clichê de maneira distinta, o que é um paradoxo. Mesmo assim, a cineasta administra satisfatoriamente o tom da narrativa e contrapõe a fotografia mais cálida de antes com uma morbidez fria, avançando também nos figurinos e suas cores mais sombrias. E se a imagem de trilhos de trem distanciando-se soa como um simbolismo óbvio, ele traduz bem o que a vergonha não deixa dois personagens afirmarem na mesa de café da manhã. Finalmente, o plano plongé de Lara deitada nua na banheira é belo pela plasticidade da composição além de poético no seu significado.

Apresentando a ótima atuação de Aylin Tezel, convencendo tanto pela espontaneidade e meninez de Lara quanto pelo niilismo e ressentimento, Além do horizonte pode ser mais do mesmo, mas o é com autenticidade e honestidade de um grande filme.

11) O último passo (Pele Akher, Irã, 2012) – Direção: Ali Mosaffa.

Sempre que um personagem inaugura uma narrativa falando que está é a história de sua morte, sinto uma automática preguiça mental que atravessa de Beleza Americana a Possuídos e o recente Missão Babilônia. Por outro lado, as narrativas sustentadas em cronologias avessas a um desenvolvimento linear, mas coerentes, como a deste O Último Passo agradam pela forma com que desafiam a atenção do público. Estive dividido, admito, mas novamente me rendi à ótima fase do cinema iraniano que, desta vez, não precisa de temas sociais ou políticos para ser pertinente e relevante.

A história escrita, dirigida e atuada por Ali Mosaffa é contada da perspectiva de seu personagem, Koshrow, um rico engenheiro morto recentemente e casado com a atriz Leili (Leila Hatami). Mas ter esquecido a ordem dos eventos é somente o detalhe que torna a montagem labiríntica de Fardin Sahel Zamani desafiadora e recompensadora. Partindo da sequência metalinguística em que Leili, na gravação de uma cena, ri histericamente ao ter que recordar o marido falecido, Koshrow ainda apresenta Amin (Alireza Aghakhani), um médico que deseja se tornar ator, e os eventos que culminaram na sua morte.

Ao menos tempo é que é bem humorado, e a notícia de que está com câncer lhe agride na forma de um soco na cara recebido na infância, Koshrow ainda é um narrador poético, e lembrar da única coisa perfeita que fez provoca-lhe automaticamente a angústia de ter cometido um erro fatal e aparentemente irrelevante. Em meio a isso, há o melancólico tom da fotografia em sépia e um afastamento gradual entre Koshrow e Leili compensado de maneira lindíssima pela maneira com que os dois completam a narração um do outro (recurso jamais utilizado gratuitamente no filme).

Com ótimas atuações e abrindo margem a discussões, sobretudo ao introduzir o contexto da metalinguagem, O Último Passo reafirma o talento dos cineastas iranianos e de quebra me fez superar mais um preconceito cinematográfico com rica inventividade.

12) Meu amigo Cláudia (Idem, Brasil, 2009) – Direção: Dácio Pinheiro.

Mais do que apenas apresentar o esboço da vida da transsexual Cláudia Wonder, Meu amigo Cláudia também usa a figura da personagem-título como bandeira do retrato da diversidade sexual e da superação de preconceitos, mas não de todos, ao longo das últimas décadas na cidade de São Paulo. Acima disso, o documentário de Dácio Pinheiro é um tributo a essa relevante e controversa figura do cenário sociocultural nacional.

Recorrendo aos depoimentos de Cláudia e de outros, como o cineasta Alfreto Sternheim e Leão Lobo, e utilizando um rico acervo jornalístico e muitas imagens de arquivos, o documentário começa discutindo a infância do, até então, Marco Antônio Abrão, garoto abandonado pela mãe e pai, criado pelos tios-avós e que desde jovem preferia brincar de menina. Ao travestir-se pela primeira vez, Marco Antônio acaba descobrindo a sua vocação, fabricando em seguida o apelido pelo qual viria a ser conhecido em míticos ambientes como a casa de shows Madame Satã.

Usando a trajetória de Cláudia Wonder para apresentar o novo panorama social em face da crescente diversificação sexual, somos apresentados a pornochanchadas explícitas, como Sexo dos Anormais, fruto do mercado que vinha exigindo mais filmes de travesti, e cujo próprio título denotava uma perigosa mensagem discriminatória. Essa mesma mensagem viria a ser usada para justificar o assassinato de homossexuais – os depoimentos de transeuntes defendendo a prática são assustadores -, a operação Tarântula deflagrada por João Goulart para limpar a cidade de travestis e o próprio preconceito médico ao se referir ao homossexualismo como um distúrbio sexual. A imprensa também botava lenha ao se referir a AIDS como a peste-gay, enquanto aqueles seres humanos marginalizados choravam amigos falecidos, como Cazuza e o ator Lauro Corona.

O que nos leva ao grito de liberdade da década de 80, a fagulha do movimento GLBT contemporâneo a partir da efervescência cultural proporcionada pelo auge do rock e grunge. Enfim, parecia que Cláudia poderia deixar de se preocupar em parecer hétero, e ser “um homem e uma mulher ao mesmo tempo, um casal que vive em paz”. E ela o fez em grande estilo superando a imagem de que travestis deveriam personificar uma artista famosa para serem bem sucedidas, e construindo sua própria carreira musical, com a apresentação O Vômito do Mito.

No entanto, viria a década de 90 e a eleição do yuppie Fernando Collor e a imagem limpa e nada transgressora viria a abalar a fundação do movimento do rock e dar espaço à música popular brasileira. Relegada ao ostracismo, Cláudia Wonder ainda viria a ensaiar um retorno à boa forma em 2008, abraçando a música eletrônica e provocando que ser humano não precisa de artigo ou pronome para exigir dignidade.

Evitando pintar Cláudia Wonder como uma pessoa irretocável, Dácio Pinheiro demora, mas revela a existência de uma filha não assumida do travesti que cria uma trágica rima com a sua própria história. Ao penetrar nos momentos menos bonitos, o cineasta humaniza a protagonista através de sua imaturidade e fortalece mais ainda o impacto dos recortes de jornal vistos nos instantes finais bem como o carinho de seus amigos. E pelo que se vê, Cláudia teve bons e fiéis amigos.

13) O guia pervertido da ideologia (The Pervert’s Guide to Ideology, Inglaterra/Irlanda, 2012) – Direção: Sophie Fiennes.

Continuação de O Guia Pervertido do Cinema, novamente a cineasta Sophie Finnes (irmã de Ralph) e o figuraça filósofo Slavoj Zizek reúnem-se em um divertido retrato contemporâneo agora discutindo a ideologia. A partir da massificação cultural e ainda investigando o mercado publicitário e a ordem econômica e política mundial, a dupla, sobretudo a partir de filmes antigos, desmascara a existência de conteúdo ideológico subversivamente escondido na sociedade.

É o que acontece no cult Eles Vivem em que um andarilho descobre um par de óculos que permite enxergar extraterrestres que invadiram a Terra. Para Slavoj, o significado da narrativa vai além do trash e os óculos são uma maneira de enxergar ideologias existentes nas coisas mais banais. Assim, uma viagem ao Caribe na verdade é a forma de seduzir à sociedade ao casamento e à reprodução. Por sua vez, A Noviça Rebelde ganha uma leitura muito menos ingênua ao confrontar a igreja católica e o interesse dela em que seus fiéis finjam que renunciaram a tudo.

Mas mesmo que o material tenha predominância cinematográfica, Slavoj tira sarro com a Coca-Cola e nem mesmo a nona sinfonia de Beethoven é esquecida, sendo um receptáculo ideal para ideologias conflitantes como o nazismo, a revolução cultural chinesa e os desejos destrutivos e psicóticos de Alex, vivido por Malcom MacDowell em Laranja Mecânica. Apresentando também o surgimento da ideia de nazismo a partir da bela base de solidariedade e a multitude de problemas sociais que viria a se resumir na palavra judeu, Slavoj enfim aponta a causa do problema da ideologia no Grande Outro, materializado por uma divindade ou o destino.

Esse vasto material é trabalhado pela cineasta de maneira demasiadamente prolixa e as vezes sem um foco muito claro, parecendo satisfeito com definições didáticas do que em propor soluções. Ao mesmo tempo, a engenhosidade e bom humor da cineasta – Slavoj surge nos cenários mais inusitados como um barco naufragando para simbolizar a cena em que Jack e Rose se despediram em Titanic – e a inteligência e pertinência do argumento de Slavoj compensam as falhas de estrutura do longa que se mantêm sempre interessante a cada nova releitura de um filme (a de O Cavaleiro das Trevas e de Titanic são algumas das mais relevantes).

Apresentando frases de impacto que convidam à reflexão, sendo a minha preferida a que diz que “A única forma de ser ateu é pelo Cristianismo”, O Guia Pervertido da Ideologia é um poço de boas ideias sarcástico, hilário e preocupante.

P.S.: depois dos créditos há uma frase divertida que complementar a dita por Rose a Jack.

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