Festivais | 36a Mostra de São Paulo – Dia 6

26) Estado de exceção (Idem, Brasil, 2012) – Direção: Juan Posada.

Este bem-intencionado manifesto contra a polícia miliciana carioca abraça a loucura como a única maneira de questionar o valor da justiça na nossa sociedade, porém no decorrer da história dirigida por Juan Posada a mensagem e a crítica social se perdem no meio de intenções irracionais, personagens abundantes e a ausência de uma bússola moral, por menor que seja, para guiar o espectador.

Mas nenhum desses é o primeiro deslize que me vêm à cabeça, posição reservada ao amadorismo das interpretações misturado à teatralidade de diálogos rebuscados que distanciam ainda mais o espectador da realidade do morro. A partir da analogia feita por um oficial da polícia militar entre a vida e um gráfico até o depoimento sereno prestado por uma mulher depois de testemunhar o noivo ser morto diante de seus olhos e ser estuprada… duas vezes, a narrativa perde-se no discurso sociológico mais adequado a um debate acadêmico. E quando os habitantes da favela, na sua maioria sem alfabetização e/ou instrução devidas, começam a falar um português correto, formal e pausado, o traço restante de verossimilhança é descartado no ralo.

Uma pena, pois a bandeira erigida pela narrativa acerta na desconstrução do sonho infantil de se tornar um policial através do contraste entre o jovem soldado perverso, o filho de uma manifestante vítima de uma bala perdida e o trombadinha cujo desejo é ter um coturno da polícia (o porquê do ator não utilizar a palavra bota, mais corriqueira, reafirma o problema do polimento excessivo dos diálogo). Além disso, a fotografia de Miguel Vassy não é menos do que brilhante no preto e branco fosco repleto de ruídos que ilustram uma forma de alucinação e pesadelo coletivo que conduz os personagens a abraçar a violência e crueldade desmedidas.

Apresentando personagens moralmente reprováveis, sobretudo o ensandecido Jorge e o antagonista Cristino, esse estranho híbrido de Dia de Treinamento e Tropa de Elite revela-se ao final um interessante fracasso sobre o fascismo policial.

27) Tiro na cabeça (Headshot, Tailândia/França, 2011) – Direção: Pen-Ek Ratanaruang.

Depois de sobreviver a um tiro na cabeça, o ex-policial Tul passou a enxergar tudo de cabeça para baixo e essa sua condição esquisita comprometeu a sua permanência em uma unidade de assassinos recrutados para praticar justiça contra poderosos inatingíveis pelo sistema corrupto tailandês. Mas isso não impediu que bandidos se mantivessem no seu encalço para descobrir o paradeiro do mentor desse grupo, um sujeito que responde pelo apelido Demônio.

Mesmo parecendo demasiadamente simples quando mastigada em poucas linhas, a bagunçada estrutura narrativa de Tiro na cabeça compromete irremediavelmente a tarefa do espectador de se situar de maneira clara na história. Apresentando nada menos do que 4 cronologias diferentes, distinguíveis somente graças ao cabelo de Tul, a direção de Pen-Ek Ratanaruang entrecorta múltiplos eventos sem aparente conexão apenas para soar mais desafiador. Mas o cineasta termina colhendo os frutos podres de sua presunção ao cometer erros primários, como a verdadeira duração da estada de Tul no monastério, ou mesmo a precária definição dos limites entre os atos da narrativa.

Usando a condição de Tul só como desculpa para utilizar a câmera subjetiva de ponta-cabeça ao invés de buscar uma justificativa diegética, por mais banal que esta fosse, Pen-Ek parece unicamente preocupado em chamar a atenção do público para a bizarrice do personagem. A maior prova disto é que o desfecho da história permaneceria o mesmo caso Tul, ao invés do problema visual, não tivesse o paladar ou apenas escutasse sons subsônicos. Aliás, o cineasta seria mais honesto com o espectador se o diferencial de Tul fosse a sua habilidade ninja de se mover e combater no escuro, um elemento melhor explorado durante as trocas de tiros secas e cruas.

Com um eficiente protagonista inspirado no anti-herói clássico do cinema noir, porém indeciso entre ser avesso à violência ou seu defensor como forma de praticar justiça, Tiro na cabeça, o selecionado tailandês ao Oscar do próximo ano, ainda comete o pecado de obrigar o vilão a explicar toda a história no ato final, introduzindo uma reviravolta desnecessária que suscita mais questionamentos do que respostas.

Mas nesse momento, já tinha desmascarado Pen-Ek, um malabarista plantando bananeira e posando de cineasta.

28) Minha vida em Nairóbi (Nairobi half life, Quênia/Alemanha, 2012) – Direção: David ‘Tosh’ Gitonga.

Durante a projeção do representante queniano no Oscar Minha vida em Nairóbi, a única coisa que passava pela minha cabeça era o descontentamento de reencontrar o maniqueísmo barato usado por Danny Boyle em Quem quer ser um milionário?. Protagonizados por jovens humildes e essencialmente bons que sonham encontrar uma forma de vencer na vida em um país miserável do terceiro mundo, ambos os filmes apostavam todas as suas fichas na descarada fabricação e manipulação da emoção do espectador levando-o a torcer e temer pelo destino dos seus heróis. Se funcionou antes, é bem provável que funcione de novo, deve ter pensado o diretor Tosh Gitonga, e provavelmente ele acertou.

Dessa maneira, o roteiro segue Mwas (Joseph Wairimu), um vendedor de filmes piratas de uma aldeia queniana que sonha em se tornar um ator de sucesso. Ingênuo, o jovem acredita na mentira de um trambiqueiro e viaja à Nairóbi, mas instantes após descer do ônibus na movimentada capital, a sacola de mercadorias contrabandeadas que levava à pedido do primo e os seus documentos são roubados. A sua situação piora quando ele é injustamente enviado à prisão, onde conhece Oti (Olwenya Maina), um marginalzinho de pequenos furtos que o aceita na sua gangue. Ao mesmo tempo, Mwas tenta participar de um teste no teatro nacional, embora tenha sido humilhado pelos jovens de classe média por causa de sua aparência de mendigo e a roupa surrada e rasgada.

Embora tivesse todos os motivos para ser derrotista em um cenário desalentador como esse, Mwas é esperançoso, descontraído e tem uma força de vontade contagiante mesmo quando está com a cara, literalmente, na merda. Interpretado por Joseph Wairimu com um equilíbrio ideal entre o bom-humor, as imitações de Kill Bill e do rei Leônidas são divertidinhas, e a seriedade com que enxerga sua trajetória, o bom ator também atenua a crueza da história sem diminuir seu impacto, e impedindo que ela se torne mais um exploitation do sofrimento.

Mas mesmo contando com a consistente atuação central, Tosh Gitonga comodamente mantém a narrativa no piloto automático sem riscos e grandes recompensas. Nem quando Mwas se torna um criminoso e começa a praticar roubos perigosos, o cineasta ensaia alguma crítica optando pelo silêncio de que aquelas são as pedras no caminho que o jovem terá que superar para chegar onde sonhou. Inclusive nos menores detalhes, Gitonga revela a construção de uma fantasia irrealista: o primo de Mwas pede-lhe para transportar rádios de carro ao invés de drogas, sendo estas mal mencionadas na história; uma garrafada na cabeça não derrama a menor gota de sangue e até um roubo frustrado não rende consequência alguma, sendo superado com um pedido de desculpas.

Mudando substancialmente o tom da narrativa nos 10-15 minutos finais conferindo-lhe a urgência e crueza desprezadas antes no conto de fadas, Minha vida em Nairóbi é uma história segura que emociona o espectador, mas os fios estão todos à mostra para quem quiser se juntar a Tosh Gitonga e os puxar também.

29) Keyhole (Idem, Canadá, 2011) – Direção: Guy Maddin.

Mansões mal-assombradas e fantasmas nunca foram tão vergonhosamente abusados como quanto pelas mãos do diretor Guy Maddin neste péssimo Keyhole. Através dos buracos da fechadura que revelam as memórias de um passado esquecido e os segredos escondidos no baú mais fundo e poeirento, o gângster Ulysses (Jason Patric) ao lado da misteriosa Denny, capaz de enxergar o passado, e de um jovem amarrado e amordaçado parte ao encontro de Hyacinth (Isabella Rossellini) no cômodo central da residência.

Enquanto Ulysses parece se perder nos corredores e aposentos da mansão retornando incompreensivelmente ao térreo apesar do seu objetivo ser muito simples, subir ao aposento superior, seus capangas entregam-se a vícios, praticam sexo e planejam assumir o comando da gangue. Tudo isto ocorre em meio a um exercício de estilo expressionista e, consequentemente, noir, em que a fotografia preto e branco de Benjamin Kasulke e a textura enevoada agem como um personagem naquele mundo de fantasmas e pesadelos, e observem a existência de um tom turvo e roxo, a cor da morte, em cada quadro.

Da mesma forma que a fotografia, mas menos bem-sucedida, a montagem de John Gurdebeke também evoca a assombração na dissolução e surgimento de rostos fantasmagóricos e nos cortes secos, muitas vezes resultando em sequências incompreensíveis como a passada em uma banheira (apesar de estar claro o simbolismo de Denny estar dividindo o espaço com Hyacinth).

Porém o apuro técnico e a ousadia de investir em algo distante da normalidade não garantem o sucesso de uma produção caótica e bagunçada cujo mau gosto é manifestado na nudez permanente de certos personagens bem como na direção de arte, sendo o pênis que irrompe de uma fechadura um símbolo barato diante do contexto narrativa. Liderado por um afetado e posudo Jason Patric e com a decente trilha sonora de Jason Staczek, Keyhole é, ao menos até agora, a bobagem da mostra.

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3 Comments on “Festivais | 36a Mostra de São Paulo – Dia 6”

  1. Caro Marcio Sallem, respeito sua critica, apenas penso que certos adjetivos que usa incompatíveis com a seriedade de sua crítica e inadequados para um filme que está em competição em um festival como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Aqui ambos somos profissionais e devemos nos respeitar. Peço que pondere. Atenciosamente, Juan Posada.

  2. Caro Juan, antes de mais nada, gostaria de parabenizá-lo pelo seu esforço e a escolha para competir na Mostra. Mas não vi qualquer adjetivo inadequado: o uso de 'fracasso' e 'amadorismo' estão bem contextualizados e não jogadas gratuitamente só para impressionar leitores. Não o faria mesmo porque respeito muito o seu trabalho e torço para o sucesso junto ao público e ao restante da crítica especializada.

    Mas que o seu comentário no meu espaço é inusitado, isso é.
    Abraços.

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