Festivais | 36a Mostra de São Paulo – Dia 7

30) Alois Nebel (Idem, República Checa/Alemanha, 2011) – Direção: Tomás Lunák.

Inspirado em uma graphic novel da República Checa e representante deste país no Oscar do próximo ano, a animação Alois Nebel apresenta um protagonista profundamente melancólico e solitário obrigado a confrontar o seu passado depois da chegada de um andarilho mudo em busca de vingança. Seu nome é Alois Nebel, ferroviário que herdou do pai a função na estação de Bílý Potok, ponto de passagem nada movimentado e cujo abandono se amolda à letárgica maneira com que o personagem-título encara o mundo à sua volta. Ao beber uma dose de vodca com dois colegas, certo momento, ele o faz de forma desinteressada como se viver fosse uma obrigação enorme – chega a deprimir ouvi-lo repetindo para si próprio as estações e os respectivos horários de chegada dos trens.

Esse seu isolamento é observado nos enquadramentos de Tomás Lunák que afastam Alois de seus colegas de profissão e o deixam encolhido nos cantos da tela. Até mesmo seu traço lhe confere um ar lúgubre, nas marcas de uma expressão cansada e derrotada. Aí Alois conhece Kveta, uma viúva que acaba ajudando-o a descobrir uma pequena fagulha de alegria na sua vida.

Apresentando personagens incrivelmente expressivos mesmo com pouquíssimos traços, a animação em preto e branco com influência noir é um espetáculo a parte. Funcionando como homenagem ao material original e ainda como maneira de revisitar o período que antecede a separação da Checoslováquia, as sombras tentam comunicar o instante mais escuro antes de começar a serem dissipadas. Em meio também aos reflexos nas poças de água e os clarões de luz dos relâmpagos nas tempestades invernais, a narrativa tenta preparar o espectador ao catártico confronto com o passado.

Um momento que chega junto com uma explosão momentânea de brutalidade somente para revelar a estrutura sensivelmente mal-acabada e sem o foco necessário para fazer de Alois Nebel um filme tão impactante quanto é estiloso.

31) Perder a razão (À perdre la raison, Bélgica/Luxemburgo/França/Suiça, 2012) – Direção: Joachim Lafosse.

No primeiro contato do espectador com Murielle (Émilie Dequenne), a moça está deitada em uma cama de hospital murmurando aos prantos um mórbido pedido ao marido marroquino Mounir (Tahar Rahin). Mas antes de chegar a esse ponto, Murielle era uma garota vivaz e espirituosa, sendo a espiral de decadência que ela vivenciará o tema do angustiante novo trabalho do diretor Joachim Lafosse Perder a Razão.

Investigando intimamente os motivos que levaram Murielle a apresentar sintomas graves de depressão aguda, Lafosse diminui a profundidade do campo e aproxima o público dos personagens e seus dramas em reveladores closes. Da timidez e exultante felicidade de um pedido de casamento inesperado à perda da alegria e demonstração de abatimento nas olheiras visíveis, o cineasta trabalha com paciência as peculiaridades dos membros de uma família que tinha todas as razões para viver em harmonia e alegria juntamente dos quatro adoráveis filhos.

Nesse família, o médico abastado André (Niels Arestrup), o mais próximo de um pai que Mounir poderia ter, acaba sendo uma figura decisiva. Chamado de padrinho, na alusão a uma figura gentil e amorosa mas também ríspida e controladora, André supre a solidão com a generosa acolhida de Murielle, Mounir e seus filhos debaixo do mesmo teto. Aos poucos, no entanto, a sua postura altruísta cede espaço a momentos desagradáveis e a repreensão a roupa usada por Murielle demonstra uma intromissão danosa antes sentida no convite inusitado para viajar junto na lua de mel do casal. Além disso, nenhuma das tentativas de desfazer o vínculo formado com André parecem surtir efeito e só contribuem na degradação do relacionamento.

Mas seria cômodo demais culpar André pela derrocada irreversível de Murielle e a atriz Émilie Dequenne, vencedora do prêmio no festival de Cannes, evoca com bastante competência a dor e angústia da personagem durante a dolorosa sequência que se passa dentro de um carro. Ali, sua mente estava comprometida com o que viria a cometer em seguida, uma sequência crua e dolorosa deste irrepreensível candidato belga ao Oscar.

32) Quando vi você (Lamma Shoftak, Palestina/Jordânia, 2012) – Direção: Annemarie Jacir.

A forma leve com que a cineasta Annemarie Jacir trabalha os conflitos entre judeus e palestinos no Oriente Médio é a melhor decisão tomada em Quando vi você, mas acaba prejudicando as possibilidade da narrativa de seguir para lugares inexplorados. Na história ambiente na Jordânia em 1967, Tarek é um rapazinho teimoso, insolente e inteligente que aguarda, ao lado da mãe Ghaydaa, o retorno do seu pai ao acampamento em que vive. Após uma grande quantidade de decepções e sem encontrar resposta com a mãe, Tarek foge e se junta à guerrilha libertadora Fedayee modificando a rotina dos soldados com seu jeito bem singular.

Içado ao status de mascote e sonhando em se tornar um guerrilheiro, Tarek esbarra em caixotes de armas e granadas enviadas pela União Soviética e observa a preparação de explosivos sem que, contudo, isso afaste a ingenuidade com que ele enxerga as coisas ao seu redor. Muito também se deve ao fato de que não há nenhum contato do rapazinho com os horrores de uma guerra e nem mesmo os soldados, sempre camaradas, dificultam a sua estada, aceitando até mesmo a sua mãe em certo momento. Toda unidimensionalidade resultaria na desconexão da narrativa e realidade, ameaçando o cuidadoso trabalho da fotografia de Hélène Louvart cuja paleta azulada e grão grosso demonstram a crueza e dificuldade da vida palestina.

Contando com o carismático e talentoso Mahmoud Asfa, jovem capaz de evocar diversos sentimentos contraditórios em um único olhar, como o que lança para sua mãe antes de se aventurar rumo ao desconhecido, Quando vi você ao menos merece elogios por representar a Palestina no Oscar. Um sinal positivo de que as batalhas travadas pelo povo palestino finalmente começam a mostrar resultados nem que seja apenas no mundo artístico.

33) Reality (Idem, Itália/França, 2012) – Direção: Matteo Garrone.

Não é mais novidade que o mundo contemporâneo nos “presenteou” com a nova profissão de ex-Big Brother, através da qual um sujeito sobrevive da fama momentânea após ter permanecido algumas semanas confinado em uma casa disputando um prêmio milionário. Mas para lograr esse “invejável” status, um enorme circo é montado para escolher os participantes de uma nova edição, ocasião que o diretor Matteo Garrone explora com sarcasmo e bom humor neste ótimo conto de fadas Reality.

O roteiro escrito a oito mãos apresenta Luciano (o ingenuamente cativante Aniello Arena), um peixeiro e trambiqueiro nas horas vagas que é surpreendido com a ínfima possibilidade de ser um napolitano escolhido para entrar no Big Brother. Dedicado a fazer absolutamente tudo para entrar na casa mais vigiada da Itália, inclusive vender seu estabelecimento comercial e dar seus pertences aos pobres, Luciano coloca o bem-estar de sua família e a sua saúde mental em risco enquanto espera um telefone que poderá mudar sua vida.

Oferecendo uma crítica à política de pseudo-celebridades, Garrone dispara seu olhar cínico ao ex-BBB Enzo (Raffaele Ferrante), cujo discurso maçante e vazio realizado durante um casamento é mascarado pelos gritos alucinados dos fãs e penduricalhos no seu figurino, como anéis, correntes e o chapéu da moda. Ele é o homem que Luciano deseja se tornar, arriscando até mesmo a sua família no processo. Porém ele não faz por mal, e sim para satisfazer o universal desejo de ser admirado pelos seus pares. Nesse sentido, a crescente (e divertida) paranoia de parecer estar sendo observado pela produção do programa leva Luciano a agir de maneira absurda, aumentando ainda mais sua identificação com o público.

Levando ao pé da letra o seu título, Garrone investe em planos-sequência e longos com poucos cortes e uma funcional mise-en-scène que ajudam a “acompanhar” o dia-a-dia de Luciano como se ele estivesse na casa. Daí o porquê dele ser sempre enquadrado em um primeiro plano, até mesmo quando está apenas escutando uma meia-dúzia de familiares sentados e palpitando na sua vida.

Perdendo o fôlego na segunda metade da narrativa e investindo em uma trilha sonora inspirada em fábulas e no jogo de cores intensas, desde logo entre uma carruagem na sequência inicial, Reality só peca no final demasiadamente cínico e triste. Pois, mesmo que este fosse o único passo natural a ser dado em seguida, acaba sendo imprescindível o sucesso de Luciano graças a uma contagiante e sincera empolgação que raros integrantes do BBB demonstrariam ter.

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