Crítica | O Lado bom da Vida

Título original: Silver Linings Playbook | País de origem: Estados Unidos | Ano de lançamento: 2012 | Dirigido por: David O. Russel | Escrito por: David O. Russel baseado no livro de Matthew Quick | Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Anupam Kher, John Ortiz, Shea Whigham e Julia Stiles | Duração: 2h02min.

Tenho tentado pensar positivamente sobre O Lado Bom da Vida e enxergar o raio de esperança prateado no céu nublado enquanto escrevo esta crítica, mas custo a acreditar que a simpática dramédia romântica dirigida por David O. Russel, do ótimo O Vencedor, repetiu o feito histórico de Reds, há 31 anos, abocanhando indicações em todas as quatro categorias de atuações. Poderia parecer apenas uma feliz coincidência do destino, talvez resultado do agradável otimismo e alto-astral emanados do bom elenco composto por Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro e Jacki Weaver, até que pese também este ter sido o único filme a ser indicado para as 5 principais categorias do Oscar deste ano, um feito louvável mesmo se você fizer o tipo rabugento que despreza a premiação. Ainda bem que Oscar não é sinônimo de qualidade e embora seja divertido discutir quem vai ganhar o que, a verdade é que o sucesso deste “somente” bom filme responde quase unicamente pelo nome de Harvey Weinstein.

Sujeito influente capaz de descolar meia-dúzia de indicações para a história de uma lesma atravessando a rua, Harvey não tem muita dificuldade em criar zum-zum-zum em torno da adaptação do livro de Matthew Quick (o qual eu li e gostei muito). Escrito também por David O. Russel, o roteiro toma diversas licenças dramáticas, altera acontecimentos, muda o perfil dos personagens, transfere o foco de um estudo de personagem para uma comédia romântica desfuncional e, o único grave equívoco para mim, troca o nome do protagonista para Pat Solitano (o original era Pat Peoples, cuja ironia sequer precisava de disfarce). Mas mesmo criando uma obra diversa da literária, Russel é hábil em preservar o espírito de que todos temos que conviver diariamente com nossa loucura enquanto tentamos apenas entrar em paz com nossos corações.

Pat (Cooper) é o melhor exemplo disto: recém liberado por sua mãe Dolores (Weaver) de uma instituição psiquiátrica após quase matar o amante de sua ex-esposa Nikki em um surto de violência, o desempregado professor de educação física literalmente corre para reconquistá-la. Ele deixa de torcer fervorosamente pelos Eagles, o time de futebol americano pelo qual o supersticioso e obsessivo-compulsivo pai (De Niro) é aficionado, adota uma postura prestativa e de bem com a vida e, ainda que perca as vezes o controle do temperamento, encara de frente a doença no consultório do Dr. Cliff (Anupam Kher). Já ajudar a problemática Tiffany (Lawrence), cuja morte precoce do marido a arremessou em direção a uma depressão autodestrutiva retratada na maquiagem gótica de seus olhos, em um campeonato de dança é o último elemento que pensa precisar para provar a Nikki sua completa reabilitação.

Facilitando a tarefa de torcer pelo sucesso de Pat, e consequentemente daqueles ao seu redor, David O. Russel evita grandes riscos, e nem o fantasma da recaída e a presença da polícia bastam para sentir que pode acontecer algo errado na trajetória do personagem. A troca de agressões entre ele e o pai, a explosão de raiva de Tiffany no jantar e uma inesperada convidada durante um momento importante são meros obstáculos introduzidos artificialmente para aumentar o sentimento de recompensa do espectador com o final previsível. Curiosamente, porém, os clichês de comédias românticas e dramas familiares nem chegam a incomodar, pois há um autêntico senso de ineditismo em ver personagens clinicamente perturbados e desajustados (praticamente todos fazem terapia) tropeçando para encontrar a felicidade. E como é gostoso ver Pat atirando pela janela um livro de Ernest Hemingway só porque ele não tinha um final feliz, com a desculpa de que bastam coisas ruins no mundo real.

Por sua vez, a câmera nas mãos de David O. Russel, saltando de um personagem para o outro e viajando de planos médios para closes e vice-versa com fluência, a reduzida profundidade de campo e o tom documental que conferem intimidade ao que está ocorrendo em cena dão uma pincelada artística a uma narrativa desesperadamente dependente de prozac, valium, clonazepam e outros. Algo que as cores desbotadas da fotografia e a direção de arte nada cálida (repare no depressivo azul dos azulejos do hospital psiquiátrico) insistem em reforçar para o espectador, tornando mais bem-vindo o sensível senso de humor da narrativa, proveniente sobretudo da honestidade ingênua de Pat e a presença constante do nome de Nikki em tudo o que ele fala.

Como é bom ver Bradley Cooper, a meu ver um ator repetitivo, encarar um personagem contraditório, de porte físico avantajado mas psicologicamente frágil, sem tropeçar em instante algum na composição dual melancolia versus otimismo, a bipolaridade natural do personagem. De Jennifer Lawrence eu gosto menos, pois ainda que tenha me impressionado pelo inquietante olhar no jantar, Tiffany sofre uma mudança radical pouco crível no terceiro ato que a encolhe na narrativa e a subjuga ao papel de donzela. Finalmente, Robert De Niro (enfim, uma boa atuação) e Jacki Weaver estão corretos na preocupação sentida por Pat, enquanto Chris Tucker tem uma presença inexplicavelmente inchada na narrativa, uma vez que seu personagem, um ex-colega da ala psiquiátrica pouco faz para empurrar a trama adiante.

Com uma trilha sonora escolhida com carinho, O Lado Bom da Vida pode não ser tudo isso que as premiações fazem o público acreditar – inconscientemente, terminamos aceitando isso como verdade incontestável -, mas é uma adorável comédia romântica bem superior a média.

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2 Comments on “Crítica | O Lado bom da Vida”

  1. Nossa, eu tava gostando bastante do filme até eu perceber o clichê chegando….. sabe o momento da fuga da donzela e o príncipe correndo atrás? Eu pensei: poxa, tava indo tão bem até agora… não acredito que vai acontecer isso. Cara, pra mim essa cena jogou no lixo tudo o q o filme tinha construído.

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