Crítica | Dominação

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Se você fosse um produtor de cinema, investisse contatos, tempo e dinheiro em uma produção de terror – é bom destacar, um dos gêneros mais rentáveis que há – e chegasse à versão final do seu filme no final de 2013, por que razão senão qualidade você engavetaria sua produção para lançar apenas 3 anos depois, escondida timidamente em meio aos lançamentos que poderão disputar a temporada de premiações? É óbvio que não é porque o produtor estava diante de uma obra-prima definidora de um gênero, já que neste caso lançaria o bendito filme no mesmo ano, mas de algo tão ruim em tantas formas diferentes que a vontade era de atear fogo ao resultado, embora até produtores tenham contas para pagar no final do dia. E aí chegamos a Dominação.

Escrita por Ronnie Christensen depois de ler e reler roteiros melhores, como os de A OrigemSobrenaturalPossuídos, com os quais este terror tem tantas semelhanças que beiram o plágio de ideias, a trama apresenta-nos ao Doutor Ember (Eckhart, em um de seus momentos mais embaraçosos), um especialista em penetrar na mente de pessoas quando encarnadas por entidades parasitárias sobrenaturais (risos), e expulsá-las de lá, diferentemente do que faria um exorcista, que tentaria compeli-las para fora através da religião. Preso a uma cadeira de rodas como consequência do acidente de carro que matou mulher e filho, uma tragédia que será revisitada três vezes pelo roteiro para que não reste dúvidas, Ember reluta até aceitar, a pedido do Vaticano (!?), desencarnar a entidade, denominada Maggie, que tomou conta do filho (Mazouz) de Lidnsey (Houten), que tem se esforçado (ao menos é o que dizem, embora não pareça abalada emocionalmente com o estado do filho) em estabelecer uma relação afetiva com o garoto apesar de este ansiar pela presença do pai abusivo e violento. Entretanto, a real razão de Ember topar o desafio, apesar de estar desgastado de tantas incursões nas mentes alheias, não é altruísta, e sim de confrontar a entidade que provocou o acidente que lhe causou tanto sofrimento.

Provavelmente a entidade mais forte que já encontrou“, uma frase que, conjugada com um diálogo dito anteriormente, “Se você não tomar cuidado, vai ficar preso por lá“, com a menção a um veneno capaz de dar lucidez ao hospedeiro pelo tempo suficiente para que este possa tomar uma atitude desesperada e drástica, e com a composição física do personagem – cabelo grande, barba por fazer, postura derrotista -, insinua para onde a trama dirigida com Brad Peyton (Viagem 2: A Ilha MisteriosaTerremoto: A Falha de San Andreas e, em breve, as continuações destes) caminha: e mesmo se eu contasse com riqueza de detalhes e em letras garrafais o que vai acontecer, eu não poderia ser acusado de soltar spoilers porque Peyton e Christenssen trocam esse conceito pela mera previsibilidade.

Ainda assim, Dominação poderia funcionar no ínterim caso conseguisse criar uma narrativa minimamente interessante e que fizesse o espectador se importar com o destino dos personagens. Este não é o caso. Os diálogos expositivos, enunciados à única personagem leiga na narrativa, “explicam” pobremente a “ciência” praticada pelo “doutor” Ember como uma combinação dos filmes que citei acima – há até um ensaio do token que Cobb usava em A Origem para identificar se estava sonhando ou acordado. E se provoca certa estranheza os três filmes citados dividirem a mesma linha como inspiração da trama, o resultado apenas poderia ser uma colcha de retalhos convoluta, bagunçada e derivada. Uma que, apela à conveniência, como na introdução do recurso narrativo do time bomb – um evento determinado pelo tempo de modo a aumentar a tensão da sequência, como uma contagem regressiva – embora no fim das contas expirar o tempo não vá fazer enorme diferença para o destino dos personagens.

Aliás, de que adianta ser uma entidade parasitária sobrenatural (risos, não consigo me controlar) se você precisará trocar sopapos, bofetões e pontapés para manter a possessão? Ou melhor, por que ainda estou me preocupando com Dominação se, em certo momento, os “ajudantes” de Ember gritam a plenos pulmões “Não toquem nele“, apenas para, no instante seguinte, estarem com as mãos sobre ele?

Melhor seria se houvessem gritado isto quando estavam na iminência de desencarnar Dominação do armário empoeirado onde estava guardado. Pena que ninguém pode ouvi-los.

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