Crítica | La La Land – Cantando Estações

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Os musicais definiram a Era de Ouro de Hollywood, período que se estendeu dos anos 20 aos 60 e coincidiu com os pós-primeira e segunda guerras mundiais e a depressão econômica norte-americana, eis porque eram narrativas joviais, vibrantes, descompromissadas e otimistas que ofereciam escapismo no encontro de duas artes: o cinema e a música. Entretanto, o cultivo do cinismo social e o contágio da paranoia da guerra fria alteraram os receptores artísticos do espectador que passou a enxergar sentimentalismo onde antes havia alegria, breguice no jogo de cores e ritmos. Aqueles personagens que cantavam felicidades e tristezas, sonhos e angústias, afastaram-se do típico homem-médio norte-americano, cujos calos emocionais e senso de propósito imediato não mais dialogavam com a promessa de esperança e realização de sonhos oferecida pelo gênero. Musicais podiam mudar o estado de espírito de outrem; agora, sorte dos que escapam com a pecha de serem “fofinhos”. E assim, o gênero “morre” à medida que perde a relevância artística, tanto é verdade que mesmo os trabalhos mais competentes – leia-se Moulin RougeChicago ou Dreamgirls foram incapazes de ressuscitar o gênero, só alimentaram a nostalgia (após, devoraram-na). La La Land – Cantando Estações é, então, o canto dos cisnes de um gênero apaixonante para quem ama cinema.

Ao longo de quatro estações (ou cinco), o longa escrito e dirigido pelo garoto-prodígio Damien Chazelle (daquela lindeza Whiplash) retrata, a partir do romance entre a aspirante à atriz Mia Stone e o pianista de jazz frustrado Sebastian (Gosling), a história dos musicais evidenciado desde a cena inicial, quando motoristas resolveram lidar com o trânsito engarrafado cantando e dançando, na definição visual do carpe diem tão praticada nos clássicos. Pois bem: Mia acumula rejeições, Sebastian é despedido do emprego, ambos esbarram-se, brigam, para depois se apaixonarem, sapateando, ao som do jazz e sob as luzes do cinemas, no antigo clichê do cinema romântico do “eles se odeiam, mas se amam”. Juntos, um alimenta o sonho do outro: Mia, de tornar-se estrela de cinema; Sebastian, de abrir o próprio bar de jazz.

Assim, não é errado supor que Mia seja a representação do Cinema, ao passo que Sebastian, da Música, e o liame nascido desta união seja o gênero cinematográfico musical, o que faz todo sentido se considerarmos que é ela a protagonista da trama (e não ele), de modo a atrair as regras do jogo para a sétima arte. Poranto, as canções servem ao propósito de ilustrar o estado de espírito dos personagens e oferecer-lhes a oportunidade de conquistar desejos e sonhos que pareciam impossíveis, numa homenagem aos clássicos de outrora. Contudo, se a proposta namora com a possibilidade de anunciar a segunda vinda do gênero, Damien Chazelle é inteligente para saber como funciona a indústria da arte: no lugar do jubilo, a melancolia de quem revisita o passado para redescobrir tempos melhores tal como faziam os personagem de Meia-Noite em Paris. Aliás, uma das inspirações de Chazelle deve ser Woody Allen, desde a sofisticação do roteiro, a paixão pelo jazz ou a pitada de amargura trazida à trama, até cenas bem específicas, como a envolvendo Seb e a irmã, vivida por Rosemarie DeWitt, cujo desenvolvimento e decupagem poderiam haver saído da cabeça do mais famoso habitante do Brooklyn.

O enfoque romantizado da realização dos sonhos dos personagens maquia, detrás do céu artificialmente arroxeado, do design de proução enfaticamente colorido ou da fotografia de Linus Sandgren, que mergulha a trama na paleta de cores inspirada no arco-íris, o desalento ao reforçar que a produção artística concentra-se no público jovem que, em sua maioria, “venera tudo e não valoriza nada”. Foi-se a época propícia ao gênero musical em que se ia ao cinema trajado de terno e gravata e a timidez em dar a mão para a amada era a única distração durante a exibição; hoje, os cinemas de shoppings escondem, em vez de obras de arte, produtos… de arte, é verdade, o que não altera o fato que o foco está na comercialização, não na paixão instigada por quem faz o que ama. Assim, a tragédia que encerra La La Land e machuca o coração cinéfilo apaixonado surge ao ver o Cinema Rialto de portas fechadas, ou os pôsteres de estrelas e clássicos arrancados das paredes do quadro ou a destruição da película de Juventude Transviada. E isto não está afeto só ao cinema, mas ao jazz, que agora deve agradar o público com sintetizadores descolados (não com o piano clássico) ou que censura um artista por improvisar e obriga-o a usar figurinos descolados, enquanto lendas assistem-no, envergonhados, detrás de quadros emoldurados.

Dentro da artificial Los Angeles, cujo clima não segue a mudança das estações do ano, em que cafés contemporâneos dividem a vizinhança cenográfica com saloons do velho oeste ou cemitérios de filmes de terror, parece algo natural que a luz seja suavizada e direcionada a Mia ou a Sebastian enquanto realizam números musicais que, se não são tão desafiadores quanto o introdutório ou aquele dentro de um apartamento, emocionam com a simplicidade: a entonação do refrão “Cidade de estrelas, vocês estão brilhando para mim?” é modificada a cada nova performance de Sebastian e varia da exultação apaixonada à saudade dolorida, ao passo que a performance de Mia diante de diretores de casting comunica o desejo dela em se transformar naqueles mesmos atros de cinemas pintados nos muros de Hollywood, que aprendeu a admirar desde criança. E por mais que Ryan Gosling não cante bem – ao menos Chazelle não exigiu do ator igual fizeram com Johnny Depp em Sweeney Todd –, o semblante transmite o conflito interno do personagem, enquanto Emma Stone conquista o espectador com a alegria e tristeza que habilmente traz a cada cena.

Mas, para mim, La La Land – Cantando Estações é o bis antes de baixarem as cortinas do gênero musical: uma obra que abraça o otimismo das décadas iniciais para descobrir que o público não está tão interessado nos sonhos esperançosos que vendia. Resta a jornada nostálgica rumo ao passado vibrante e ao que a vida poderia ter sido, para constatar que, como o jazz mais triste, uma hora os créditos anunciam o fim da ilusão e o início da realidade.

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