Crítica | Rogue One – Uma História Star Wars

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Em 1977, os letreiros iniciais do Episódio IV – Uma Nova Esperança, uma tradição da franquia Guerra nas Estrelas que Rogue One – Uma História Star Wars não mantém como tantas outras, mencionavam o roubo, por parte de um grupo de rebeldes, das plantas sem as quais Luke Skywalker não conseguiria destruir a Estrela da Morte, a mortal arma do Império capaz de destruir um planeta inteiro. Demoraram 39 anos para que aqueles heróis que acenderam a chama de uma revolução intergalactíca saíssem dos rodapés da história e, enfim, ganhassem o tratamento cinematográfico que mereciam dada sua bravura, união e compromisso com a causa que defendiam. E o resultado deste primeiro spinoff está no mesmo patamar prodigioso dos feitos, bons e maus, perpetrados pelo clã Skywalker nos episódios anteriores.

A trama de Rogue One, escrita por Chris Weitz (de American Pie) e Tony Gilroy (da trilogia Jason Bourne) a partir de uma história de John Knoll (supervisor de efeitos especiais vencedor do Oscar por Piratas do Caribe: O Baú da Morte) e Gary Whitta (de O Livro de Eli Depois da Terra), estabelece-se no hiato entre os episódios III e IV, depois de Jyn Erso (Jones) assistir ao pai, Galen (Mikkelsen), ser sequestrado por Orson Krennic (Mendelsohn), para construir a Estrela da Morte. Mais de uma década se passou, e Jyn, presa, é resgatada por tropes rebeldes, que desejam encontrar o extremista Saw Guerrera (Whitaker), que a criou durante a adolescência, a pedido de Galen, e está escondido no planeta Jedha. É lá que o potencial destrutivo da arma do Império é desencadeado pela primeira vez, o que obriga Jyn, juntamente com Cassian (Luna), Bohdi (Ahmed), K-2SO (Tudyk), Chirrut Inmwe (Yen) e Baze Malbus (Wen), a organizar uma missão para roubar os planos esquemáticos da Estrela da Morte.

Com personalidade suficiente para firmar-se de pé pelos próprios esforços, em vez de depender do êxito dos episódios “Skywalker”, Rogue One dispensa a montagem tradicional da saga, que empregava íris e cortinas para conferir um ar épico e atemporal, boa parte da trilha sonora de John Williams, presente esporadicamente nos acordes de Michael Giacchino, e até os sabres de luz, aqui figurantes, para investir numa linguagem narrativa bastante semelhante a de Guardiões da Galáxia, mas com um tom menos cômico e flerte com o cinema de guerra no terceiro ato. O resultado é empolgante, uma vez que a direção de Gareth Edwards explora, com competência, os arredores dos set-pieces construídos para estabelecer sequências de ação clássicas, que dispensam modernismos no intuito de resgatar o papel do herói dentro da causa que defende.

Se mencionei heroísmo, isto não envolve somente desprendimento e altruísmo, mas também estar do lado certo do espectro político, e Rogue One é o trabalho mais comprometido da saga neste sentido. Não é a toa que Jyn, ao conhecer Cassian, admite, sem receio de parecer alienada e com certa soberba, nunca haver tido o luxo de ter opiniões políticos, embora a narrativa vá exigir adiante um posicionamento neste sentido. É verdade que desde 1977, George Lucas associava o Império ao fascismo – o design de produção nunca deixou dúvidas – e os Stormtroopers, neste contexto, eram a força policial que mantinha o regime totalitário do Imperador Palpatine e de Darth Vader. Mas agora, o papel da Rebelião (ou da revolução) é o de acender a esperança agora e nas gerações futuras de mudança, assumindo o papel de uma esquerda aguerrida (observe a composição da equipe, formada de párias e minorias) numa trama que traz armas de destruição em massa e atos de terrorismo (Jedha, aliás, assemelha-se a países do Oriente Médio e isto não é a toa, já que seu líder, Saw Guerrera, é um líder de extrema esquerda).

Por falar em Saw, curiosamente o design do personagem assemelha-se a Darth Vader, na forma com que respira através de aparelhos (o design de som é idêntico) ou no amputamento dos membros inferiores, o que repisa um tema recorrente da saga, o de que você vive tempo o bastante para se ver transformando-se naquilo que combate. Mas a complexidade não é mérito exclusivo de Saw: Cassian, na primera vez em que o vemos, assassina um informante para que este não entregue, eventualmente, informações obtidas ao Império. Esta cena, a propósito, funciona também como cutucão em George Lucas, que alterou a versão original do Episódio IV para que Greedo atirasse primeiro em Han Solo, não o contrário, o que retiraria deste personagem clássico o ângulo sorrateiro pelo qual é conhecido.

E enquanto K-2SO é a fonte primária de cinismo e humor negro da narrativa, a dupla Chirrut e Malbus empolga por criarem personagens devotos à Força e, principalmente, um ao outro, o que põe este trio, automaticamente, dentro do grupo de coadjuvantes adorados da saga. Mas é Felicity Jones o principal destaque ao criar uma mulher que age, a princípio, de forma passiva e reativa, para então adotar uma postura proativa, politizada e empreendedora, apta a suportar o peso da trama sobre as costas miúdas.

Ocasionalmente, Rogue One – Uma História Star Wars sucumbe a recursos pobres, como o deus ex machina – aquele personagem que intercede quando tudo parece perdido – e discursos opulentos que não combinam com o teor circunspecto da narrativa. Nada que manche uma ficção ciente da própria identidade, que não entrega de graça reverências e homenagens, mas as introduz de maneira orgânica sem deixá-las eclipsar as verdadeiras estrelas desta galáxia, que agora brilham nas páginas centrais da saga.

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