Crítica | xXx: Reativado

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Nem toda trama precisar enfatizar questões contemporâneas, ocasionadas pela perda da privacidade em detrimento da segurança mundial, e destacar, neste contexto, o arco dramático do protagonista do niilismo ao reconhecimento mínimo da sua importância para construir um mundo melhor, o que, para tanto, requer a união dos rebeldes em torno de um objetivo comum e altruísta. Às vezes – você se surpreenderia com qual frequência -, basta que a trama seja acerca de um cara fora do sistema, que enfrenta bandidos, salva o mundo e fica com a garota, e nós, críticos, não temos nada contra isto. Pelo contrário, incentivamos, afinal a porta de entrada do cinema é o entretenimento, e se eu fui conquistado com os filmes de ação que vi na década de 80 (Duro de Matar continua sendo um dos melhores filmes que já vi), por que você também não seria? Então chegamos em xXx: Reativado, que, com o desejo de rir de si próprio na companhia do espectador, acaba sendo a própria piada. E uma de mau gosto.

O roteiro escrito por F. Scott Frazier (Códigos de Defesa) “ressuscita” Xander Cage (Diesel) a fim de recuperar o típico dispositivo visto nos filmes do gênero capaz de provocar catástrofes mundiais nas mãos erradas, e a denominação de Caixa de Pandora deixa claro quão óbvio o roteirista pode ser. Assim, Cage, sob a supervisão da agente do NSA Jane Marke (Collette), monta uma equipe composta da franco-atiradora Adele (Rose), do motorista Tennyson (McCann, que é o único personagem moderadamente divertido na narrativa) e do DJ (?!) Nicks (Wu) para enfrentar a quadrilha liderada por Xiang (Yen) e Serena (Padukone), a pálida e mal sucedida tentativa de recriar o sucesso da franquia Velozes & Furiosos ao redor da figura do astro-rei.

Revelando, desde o princípio, a intenção de parecer ridículo (repare como o som do elevador, precedente de uma luta, assemelha-se ao sino tocado antes de cada round do boxe), o diretor D. J. Caruso (Paranoia, Controle Absoluto Eu Sou o Número Quatro) não hesita nem por um instante em cortar, ao final de uma cena de sexo, para a imagem da carroceria de um caminhão despejando toneladas de pó branco (cal? gesso? vocês entenderam…) nem em acompanhar Adele, enquanto carrega um rifle, escalando um coqueiro com auxílio do mesmo lençol que usará para construir uma espécie de rede de segurança no topo daquele. A questão não é apenas de imaturidade ou suspensão de descrença, como nos casos citados, mas de mau-caratismo: o diretor sente prazer em objetificar, em câmera lenta, o corpo inteiro de Ainsley (Corfield) ao sair da piscina, para, no momento seguinte, revelar Xander deitado ao lado de meia-dúzia de mulheres após uma orgia. E o que dizer de um personagem que é introduzido, na tradução nacional, com os seguintes dizeres: “pegado” (sic) Taylor Swift e Lady Gaga na mesma noite?

Essa nem é a pior parte, pois durante 107 minutos, somos obrigados a escutar os piores bordões jamais vistos no cinema de ação: “sua mãe não ensinou a fechar o zíper” é a “distração” usada por Xiang, ao passo que Xander orgulha-se de soltar um “Preciso de duas descargas” ao, literalmente, descartar alguém. E se até “That’s what she said” (quem assistiu a The Office sabe do que estou falando) encontra livre acesso na narrativa, não estranhe que Xander seja o “cara capaz de entrar em um tornado e sair dele como uma brisa”, desenvergonhadamente usado durante uma reunião da alta cúpula do governo norte-americano. Deve ser a crítica inaugural da administração Donald Trump, pois não há personagem capaz de conversar sem empregar palavras de efeitos das mais tacanhas, o que explica por que os montadores Jim Page e Vince Filippone estendem, por um segundo a mais, uma cena em que Xander ri da própria frase de efeito até que Vin Diesel realmente pareça estar embaraçado com aquilo.

Se citei os montadores, a dupla repete a velha queixa dos filmes de ação mal-decupados o bastante para não terem planos mais longos: cortes velozes mal permitem que possamos discernir o que está acontecendo na tela, tamanho o retalho obtido como resultado, o que, associado aos planos fechados de Russell Carpenter, torna nulo o prazer de assistir às cenas de ação dependentes mais de efeitos especiais ruins do que de stunts elaborados (que deveriam ser a marca desta franquia). Esta combinação de maus profissionais atrapalha, inclusive, as cenas de lutas envolvendo os mestres das artes marciais Donnie Yen e Tony Jaa.

O incoerente desperdício desses talentos natos nem chega aos pés dos furos da trama: depois de derrubar um satélite sobre uma cidade, um terrorista alerta da existência de cerca de 30 mil outros em órbita na Terra e ameaça derrubar um a cada 24 horas até suas exigências serem cumpridas – e basta saber dividir para enxergar que, para concretizar seus termos, o terrorista precisaria viver por mais 100 anos, aproximadamente. E isto nem se compara ao avião que, em queda livre, praticamente perde a gravidade (?!), ou a sequência que, transcorrida durante a noite escura, repentinamente prossegue no nascer do dia.

Incapaz de manter em segredo as participações especiais, anunciadas previamente em anúncios publicitários e matérias jornalísticas, xXx: Reativado não esquece do golpe de misericórdia: o de deixar o caminho aberto para mais sequências.

P.S.: A divulgação nacional alardeou a participação de Neymar Jr. e inclusive preparou um pôster individual do astro, mas sua presença é tão ínfima quanto a de Rodrigo Santoro em As Panteras, e, diferente desta, ainda por cima é gratuita e descartável.

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