Crítica | Aliados

Aliados

Caso você ainda não tenha assistido a Aliados e este texto crítico é seu primeiro contato com o novo longa-metragem dirigido por Robert Zemeckis (de De Volta para o FuturoContato, Náufrago, Forrest Gump, A Travessia e outra meia-dúzia de bons filmes), permitam-me agradecer a preferência e em troca oferecer esse conselho: NÃO CLIQUEM NO TRAILER OU LEIAM A SINOPSE. Há muito não se viam peças publicitárias capazes de arruinar uma produção mais do que os tabloides com as “notícias” do divórcio de Brad Pitt e Angelina Jolie: não se trata somente de entregar grandes spoilers, desastrosos e inconvenientes, mas de sabotar a arapuca narrativa que um diretor caxias na arte cinematográfica e um roteirista habiloso prepararam para capturar seu público, e seduzi-lo com um romance em tempos de guerra.

Escrita por Steven Knights (indicado ao Oscar pelo roteiro de Coisas Belas e Sujas) e ambientada no ápice da Segunda Guerra Mundial, após a ocupação dos territórios franceses pelas tropas nazistas, a trama inicia com a chegada do espião Max Vatan (Pitt) a Casablanca, Marrocos, onde fingirá ser o marido parisiense de Marianne Beauséjour (Cottilard), também espiã, com quem se alia para planejar o assassinato de um embaixador alemão. E se você costuma brincar de adivinhação, esta é fácil: ambos envolvem-se amorosamente, o que pode comprometer o andamento da operação. A partir daqui, todo o restante é spoiler.

Na teoria, o roteiro é subdividido em três atos (introdução, desenvolvimento e conclusão), delimitados por dois acontecimentos-chave – o conflito principal e o clímax  – e cujas durações, também em regra, obedecem à métrica do 30/60/30 (para filmes com 2 horas de duração). Aliados não respeita isto, e o faz por uma boa razão: a fim de que possamos nos envolver com o casal protagonista acima de qualquer coisa, o roteiro alarga o primeiro ato, até cerca de 50-55 minutos, para apenas então introduzir o conflito principal, algo que o trailer faz com só 1 minuto de duração. Isso não é feito de modo aleatório, mas tomando por base a estrutura convencional dos romances, construídos sobre a estrutura de conflitos internos ou externos com o objetivo de serem vencidos para que possamos, então, ver o casal junto. Neste caso, Pitt e Cotillard, cuja apenas aparente falta de química sugere que ambos não conseguem abandonar o ofício de serem espiões.

E se, por um lado, Marianne é definida por um de seus primeiros diálogos, no qual afirma a importância de manter as emoções reais, Max é o contrário: introspectivo, desconfiado, o canadense esforça-se apenas para parecer feliz ou, do lado oposto, mascara todo seu desconforto enquanto pretende jogar segundo as regras do jogo, revelando sentimentos através de pequenos olhares ou gestos capturados, muitas vezes, refletidos em espelhos, que servem exatamente para expor quem realmente somos. Pitt e Cotillard, neste sentido, têm atuações eficientes e dissimuladas o bastante para que acreditemos no amor que eles construíram ou, então, na ilusão deste, e assim sermos capazes de estar na mesma situação que os personagens estão em relação um ao outro.

Situação que Robert Zemeckis manuseia com astúcia e habilidade, ludibriando o espectador como fez durante uma fuga de carro em que o close sobre o passageiro, revelando a rua detrás de si, insinua o acidente inesperado, hoje previsível justamente por haver se tornado clichê nos últimos anos, porém que não acontece, mantendo o espectador em suspense por segundos preciosos. Não é diferente quando o roteiro sugere determinado teste de integridade, que pode ser verdade ou só um boato, e Zemeckis estende a duração do plano o tempo necessário para explorar o transtorno interno provocado em um personagem que não pode expressar, da maneira contundente quanto gostaria, o que realmente sente. Ocasionalmente, o diretor tropeça justo na área que o lançou, a dos efeitos especiais. Estes servem à narrativa, em vez de o contrário, ajudando-a na recriação fidedigna de Casablanca e, cosmeticamente, no rejuvenescimento computadorizado de Pitt – até parece que ele precisa -, porém aqui e ali denunciam sua natureza computadorizada, como na cena em que Max e Marianne estão sentados na areia encarando o deserto que, de tão artificial, poderia ter sido feito em casa usando o chroma key (o fundo verde).

Uma cena grosseira ou mesmo feia, porém logo atenuada por um travelling circular bem executado dentro do apertado carro de Max, que serve de estopim romântico da história e prenuncia a espiral que se sucederá. Por falar na fotografia, Don Burgess investe nas tonalidades lavadas e dessaturadas, habitualmente usadas no gênero de guerra, do qual a narrativa extraí ainda planos sequência, como aquele em que Max regressa a Casablanca. A lógica visual de Burgess é acompanhada pelos figurinos indicados ao Oscar e interrompida, ocasionalmente, por cores intensas – o batom vermelho, o capaz de mesma cor – ou luzes que descortinam a verdade por detrás dos personagens.

Contando com coadjuvantes interessantes, como o chefe rabugento, porém leal interpretado por Jared Harris, a irmã homossexual de Max, vivida por Lizzy Caplan, ou o irreconhecível Matthew Goode, Aliados é clássico de nascença, graças a presença estelar de Brad Pitt e Marion Cotillard no mesmo cenário e período históricos de Casablanca, no qual se inspira, e rebelde quanto à estrutura da narrativa adotada. Uma aposta arriscada, mas frutífera e eventualmente tocante.


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