Crítica | Armas na Mesa

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O impulso natural após assistir a Armas na Mesa é de supor que o roteiro é inspirado em fatos reais, mas qual não é a surpresa ao descobrir que não apenas se trata de uma obra de ficção construída dentro do mundo da política norte-americana, como ainda o roteiro de estreia de Jonathan Pereira, que até então não havia escrito rigorosamente nada? Qualidades como cinismo, lucidez, contemporaneidade e realismo estão presentes a cada diálogo, ponto de virada ou reviravolta dessa obra madura, mesmo quando o arco dramático da personagem do título original pareça fugir da curva em direção ao edredom confortável da ficção.

Nós somos apresentados a Elizabeth Sloane (Chastain) logo no milissegundo inicial quando, encarando-nos no olho e quebrando a quarta parede, ela comenta sobre a natureza do seu trabalho em Comunicação e Assuntos Governamentais, nome rebuscado para esconder o que, nos Estados Unidos, diferentemente do Brasil, é legalizado: lobby. Integrante de uma firma pró-porte de arma de Washington, Sloane bate de frente com o chefe, George Dupont (Waterston, típico homem branco, grisalho, republicano e reacionário que nós adoramos odiar), ao discutir sobre a legislação batizada Heaton-Harris, que deseja reduzir os 372 tiroteios em massa acentuando o controle na comercialização de armas, que totalizam 300 milhões de unidades, o equivalente a dizer que todo norte-americano tem uma arma na cintura. Seduzida pelo convite da organização sem fins lucrativos liderada por Rodolfo Schmidt (Strong, a cada trabalho melhor), Sloane demite-se, junto a meia-dúzia de funcionários, para então aderir na cruzada contra a segunda emenda da constituição norte-americana. A missão, das mais difíceis, pode ser resumida na frase: “nós precisamos de 60 senadores; eles, apenas de 7”.

E apesar da personalidade dominante e imoral de Sloane, totalmente diferente dos papéis a que Jessica Chastain deu vida até então, esta é, de fato, uma batalha Davi versus Golias. Não duvide de estar nas trincheiras da guerra: Pat (Stuhlbarg) menciona que “inimigos devem ser neutralizados”, enquanto são empregadas técnicas de espionagem e chantagem, inclusive de senadores, mais interesados em proteger sua cadeira do que em representar o povo que o elegeu. Um mundo em que disparos são feitos com ameaças encapsuladas detrás de sorrisos na cidade em que, “não importa onde você esteja, você está a dois passos de um rato”. Para que essa “guerra” ideológica funcione a contento, o diretor John Madden (de Shakespeare Apaixonado O Exótico Hotel Marigold) recorre à montagem de Alexander Berner (de Perfume A Viagem) para construir tensão onde pareceria haver tédio: discussões dentro de salas de reunião ou mesmo debates sobre a constituição em que há realismo oriundo da sobreposição e interrupção de diálogos.

À medida que o tempo avança, e senadores demonstram apoio para um ou outro lado, inicia-se uma campanha de difamação contra Sloane que deságua na casa do povo e é conduzida pelo congressista Sperling (Lithgow, um leviatã de proporções bíblicas quando o tema é atuação), um dos mais ardorosos defensores da Heaton-Harris, para assegurar o desenvolvimento da trama dentro dos parâmetros do controverso. A propósito, afora exibir pertinência temática e conhecimento de causa, o roteirista Perera emprega com maestria a chamada teoria da pista e recompensa: ele introduz, disfarçadamente, elementos no texto que serão colhidos adiante em reviravoltas bem planejadas e executadas, ou que alimentarão questionamentos morais, como aquele em que certa personagem é salva da mira de um lunático somente graças ao disparo responsável de uma arma de fogo. Isto é suficiente para que perdoemos diálogos gratuitos como quando Sloane admite não saber onde está a linha moral que não se deve ultrapassar.

Uma afirmação desnecessária porque a personalidade turva e complexa de Sloane está muitíssimo bem representada, e não me prendo só à atuação de Jessica Chastain, cuja impassividade e determinação deveriam ser bastantes para lhe render prêmios, e o fato de ela sequer estar indicada ao Oscar, é sinal de que a Academia prefere o comodismo – o exagero de Meryl Streep, a simpatia de Emma Stone ou a simplicidade de Ruth Negga. As ações e escolhas de Sloane, aliás, capacitam-na para ser uma das melhores – talvez até a melhor – personagem do ano: ela mantém relações sexuais terapêuticas com um acompanhante para se dedicar exclusivamente ao trabalho; ela não hesita em usar as pessoas para vencer nem tampouco em se sacrificar caso isto seja necessário. E o que dizer do porta-retratos de George W. Bush que leva consigo ao se demitir?

Ciente de que torceremos por Sloane por mais motivos do que poderíamos imaginar a princípio – o empenho em vencer custe o que custar, a causa que defende atualmente ou a campanha de difamação que a torne vítima, mesmo que ela não seja -, Armas na Mesa é um trabalho magistral de construção de tensão dentro do universo ficcional xerocopiado da realidade, aliás, quisera que a realidade pudesse ter diálogos tão bem escritos quanto: “Suicídio da carreira não é tão ruim quando você considera que a alternativa é suicídio pela carreira”.

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3 Comments on “Crítica | Armas na Mesa”

  1. Ok, Ok. Hunf. Esqueci de comentar algo: eu não torci por Sloane não. Acho que ela é uma personagem fascinante, mas não uma que gere grande empatia. É um daqueles monstrinhos surtados que amamos como figuras, mas cujos destinos não nos interessam tanto.

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