Crítica | Eu Não Sou Seu Negro

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O manuscrito inacabado de Remember This House, caso concluído, provavelmente seria uma obra-prima literária acerca da questão racial norte-americana desde o período da escravidão, narrada a partir das memórias do seu autor, James Baldwin, ao lado dos líderes mais influentes dos movimentos sociais e civis da década de 60: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. Quis o destino que Baldwin, que não era afiliado ao NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) nem aos Panteras Negras, nem negro muçulmano ou cristão protestante, portanto um pensador livre (free thinker), morresse antes de finalizar seu ambicioso trabalho, mas não que fôssemos privado do ensaio introdutório que serviu de base para que o diretor Raoul Peck construísse a obra-prima Eu Não Sou Seu Negro, indicado ao Oscar de Melhor Documentário.

A questão racial é o tema central dos principais concorrentes do Oscar dessa categoria: A 13ª Emenda O. J. Made in America. Enquanto este, o favorito ao prêmio, contextualiza a ascensão, o crime do século e a derrocada de O. J. Simpson a partir da análise histórica minuciosa dos aspectos sociais enfrentados pela comunidade negra, da qual ele sequer era porta-voz, quanto mais defensor, aquele, dirigido por Ava DuVernay, enfrenta a criminalização da população afro-americana e o encarceramento em massa que a obriga a prestar trabalhos forçados como se escravos fossem. Ao lado de tão boas companhias, Eu Não Sou Seu Negro não empalidece nem murcha, pelo contrário, destaca-se em ser o trabalho mais abrangente e construtivo, refletindo sobre o racismo não somente a partir de suas consequências ou demonstrações na vida cotidiana, mas especialmente procurando entender suas raízes.

Que Baldwin resume em uma palavra que nunca saí (ou sairá) de moda em território gringo: “terror”, a semente do ódio irracional que os brancos sentem pelos seus pares negros, e estopim, após séculos de violências inomináveis, da “raiva” destes, derramando gasolina em uma convivência indesejada por ambas as partes, como o próprio autor afirma. Contudo forçosa, desde o dia em que africanos foram arrancados de seus países em direção às fazendas americanas onde precisaram reiniciar suas vidas e adotar uma nova nação como a sua, misturando-se indissociadamente na sociedade, aspecto destacado por Raoul Peck desde os letreiros inicias em que as cores branca e preta alternam-se no pano de fundo e na fonte do texto, um efeito simples, mas não menos emblemático por causa disto.

Narrado pela voz incomumente serena e ponderada de Samuel L. Jackson, o documentário, de cronologia livre e montado à perfeição por Alexandra Strauss, passeia por décadas que culminaram no movimento ativista Black Lives Matter desde quando os brancos posavam para fotos ao lado de escravos enforcados em público, com o objetivo de admoestar o ânimo de quaisquer outros que sonhassem em se rebelar – O Nascimento de uma Nação, de Nate Parker, expôs de modo eficiente essa página repugnante da história norte-americana. E a montagem de Strauss é tão hábil em relacionar os protestos ocorridos no município de Ferguson, em 2014, após o assassinato de Michael Brown, ao espancamento brutal e covarde de Rodney King por meia-dúzia de policiais brancos e ainda aos boicotes quando a primeira aluna negra foi admitida em uma escola pública, quanto é em construir sequências fascinantes por causa da quantidade de reflexões existentes no intervalo de um corte: quando Doris Day, simbolizando a apatia e ignorância branca a que Baldwin se refere frequentemente, torna o olhar para cima e pensa nas banalidades típicas das comédias românticas água com açúcar que estrelava na década de 60, o corte seco subsequente para o rosto de um negro enforcado não pretende sugerir empatia ou preocupação, longe disto, e sim exemplificar a deformação da realidade a que os norte-americanos estão submetidos.

E ela é feita pelos meios de comunicação de modo vil e vergonhoso, diante dos nossos narizes, inclusive nos dias de hoje: desde o outrora, dos estereótipos nos comerciais que apresentavam negros felizes, risonhos e servis (garçons, porteiros etc), à alegórica figura do bestial King Kong, que colocava em risco a vida da donzela branca, em uma floresta povoada por negros selvagens, o documentário não esquece nem do uso estratégico dos atores Sidney Poitier ou Harry Belafonte contra a própria raça, interpretando estereótipos no início da carreira somente com o propósito de apaziguar o inconformismo da NAACP. Olhem a ironia: parecemos estar revivendo esse período às véspera do Oscar, e após as justas críticas à falta de representatividade negra na cerimônia do ano passado, a Academia indicou e premiará um número recorde de atores e filmes negros. Isto desperta a dúvida: saber se a entidade está celebrando o melhor da arte – MoonlightO. J. Made in America e A 13ª Emenda são – ou reeditando o ocorrido no Oscar de 1964, quando premiou Poitier para posar de isenta, e reparem que o ator, um dos melhores de sua geração, jamais foi lembrado ou cotado a outro prêmio mesmo tendo estrelados clássicos como No Calor da Noite, Ao Mestre, com Carinho ou Adivinhe Quem Vem para Jantar.

Mas Eu Não Sou Seu Negro impressionou-me pelo pragmatismo e complexidade de James Baldwin, cujas vida e obra conhecia somente superficialmente: ele sabe que a raça negra é essencial à sociedade norte-americana por servir à economia capitalista, como fizera antes à escravagista, e existem instrumentos de segregação menos contundentes e violentos, imperceptíveis, que o escritor identificava há décadas e que hoje acentuaram a cegueira da sociedade ao crer que não existe mais racismo ou que este é usado em argumentos ditos vitimistas. Para estes, oportuna a resposta genial de Baldwin a um filósofo que até hoje permanece verdadeira, concluindo que a diferença entre ser branco e negro na América está no receio destes pela própria segurança.


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