Crítica | John Wick: Um Novo Dia para Matar

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Em certo momento de John Wick: Um Novo dia para Matar, o personagem-título, ao chegar à filial italiana do Hotel Continental, saúda o gerente Julius que, em tom apreensivo, indaga: “Você veio atrás do Papa?”. Isto resume com a precisão dos tiros certeiros desferidos pelo bicho-papão (os headshots, se você preferir) o prazer de assistir a esta sequência, simultaneamente um ótimo filme de ação e também a melhor paródia do gênero em bastante tempo.

Escrita por Derek Kolstad, do anterior, a trama tem início dias depois dos eventos vistos em De Volta ao Jogo, o que justifica a tensão de Tarasov (Stormare) com a chegada iminente de Wick (Reeves) para um desfecho inusitadamente pacífico à contenda violenta havida entre este e a máfia russa. Entretanto, após retornar para casa e enterrar literalmente o passado, Wick recebe a visita de Santino (Scamarcio), que veio cobrar a nota promissória dada como garantia antes de sair da Organização. Sem saída e depois de ter a casa incendiada, Wick deve respeitar as regras rígidas da organização e honrar o contrato para assassinar a irmã de Santino, para que este assuma a cadeira na Alta Cúpula a frente da Camorra.

Ciente de que esta sequência deve ser maior e melhor que o original para compensar a perda do elemento-surpresa, o diretor Chad Stahelski dispõe-se a ensinar xXx: Reativado e Resident Evil 6 sobre a arte de orquestrar e coreografar cenas de ação eletrizantes e aceleradas, que nem por isso são visualmente incompreensíveis. O diretor demonstra haver aprendido com as experiências passadas nos ofícios de dublê, coordenador de dublês e diretor de segunda unidade sobre a importância da decupagem no cinema de ação e, afora isto, sobre exigir o empenho bastante dos atores para dispensar os cortes rápidos usados para tapear o espectador (lembram da trapalhada de Liam Neeson pulando a cerca em Busca Implacável 3?). Isto resulta em lutas vistas em planos abertos que mostram o comprometimento e esforço físico de Keanu Reeves, que aparenta estar visivelmente cansado depois de derrotar meia dúzia de mecânicos, ou trocas de tiros coreografadas a beira da perfeição e, portanto, que podem ser filmadas em planos longos. A propósito, cada morte atribuída a John Wick nesta sequência carrega alguma forma de planejamento, não restrito aos embates contra os adversários principais (aqueles interpretados por Common e Ruby Rose). E como são excepcionais as cenas nas catacumbas de Roma ou então a ocorrida no interior de um museu em Nova Iorque e concluída no interior de salas espelhadas, esta, a propósito, honra cada sílaba da palavra “clímax” e nasce clássica, no que deve ter sido sem sombra de dúvidas a sequência mais desafiadora para o diretor de fotografia Dan Laustsen.

Mas a trama não se limita a ser apenas set-piece atrás de set-piece de ação desenfreada e se aprofunda na organização de assassinos composta por um “sommelier” de armas e um alfaite cuja matéria prima é a prova de balas. Ora, virtualmente para onde quer que você olhe, podem existir funcionários disfarçados, mesmo pedindo dinheiro no chão do metrô. E, como toda e qualquer entidade, a Organização é dada às atividades burocráticas, e a liquidação de promissórias e o oferecimento de recompensas passam pelas mãos de secretarias saídas da década de 70. O conceito de que o Hotel Continental é um reduto em que assassinos podem guardar suas armas, repousar e beber uns drinks é das mais divertidas e inusitadas que o gênero já produziu, afinal, para aqueles homens, trata-se de um trabalho com qualquer outro. E desconfio de que eles pensam existirem em uma dimensão paralela a nossa ou quiçá são absurdamente autoconfiantes, pois não titubeiam em trocar tiros, disfarçadamente, em locais abertos ou no interior de uma estação de metrô superlotada sem se preocuparem com a presença dos policiais ou o público (os trouxas, na linguagem harrypotteriana).

Enquanto isso, Keanu Reeves exibe a segurança de um ator veterano plenamente consciente de suas qualidade e sobretudo limitações: isto explica a diligência do ator em sempre checar, após carregar um pente de projéteis, se a arma está destravada e a bala está na câmera, gesto discreto, embora mais relevante do ponto de vista de construção do personagem do que entristecer-se com a memória da esposa falecida. Essa composição ajuda a sedimentar a alardeada e quase sobrenatural reputação de John Wick de modo crível, e vê-lo matando adversários com um lápis serve a dois propósitos: dar vida à lenda urbana narrada no início e salientar o hábito humano de sempre aumentar as histórias narradas, dada a quantidade reduzida de vítimas. Gosto também de Ian McShane que desenvolve um personagem que sente mais carinho do que deveria por John – a quem chama, de forma reverente e respeitosa, de Jonathan -, o que não o impede de agir conforme as normas estabelecidas pela Organização que criou, apesar do olho marejado ao fazê-lo.

Por fim, a trama é astuta para introduzir, despretensiosamente, meia dúzia de ganchos prontos para figurarem na continuação: o possante que Aurelio prometeu consertar até o Natal, o decreto de paz firmada com a máfia russa, a insatisfação de Akoni com a Comorra ou até um ferimento letal sofrido por certo personagem que, se adotar o mesmo procedimento que o personagem de Laurence Fishburne tomara em idêntica circunstância, pode permanecer vivo para contar história.

E, caso consideremos o grau de dificuldade imposto neste John Wick: Um Novo Dia para Matar – para mim, o melhor filme do gênero desde Operação Invasão 2 –, e o ímpeto determinado do personagem-título em permanecer vivo com a promessa de “matar todos”, o capítulo derradeiro já pode ser apelidado de uma bomba-relógio, apenas na espera de detonar uma hecatombe.


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