Crítica | Lego Batman: O Filme

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O brinquedo de cabeceira da indústria cinematográfica é o tal do “universo cinematográfico”, tão bem implementado, especialmente no aspecto comercial, pela Marvel Studios para ser seguido de modo compulsivo pela DC / Warner Bros., pela Disney em Guerra nas Estrelas ou mesmo pela Universal, que está investindo na ressurreição dos monstros clássicos do estúdio. Do ponto de vista da arte vista como produto, a ideia atrai fãs aos cinemas e recruta os não iniciados, que comprarão produtos licenciados e retroalimentarão corporações bilionárias. É este filão de que se aproveitou a Warner, ao lado da Lego, para capitalizar sobre o sucesso de Uma Aventura Lego – um ótimo filme, ressalte-se – e sobre uma das mercadorias mais rentáveis do estúdio: o Homem-Morcego. O resultado é não menos do que surpreendente ao traçar, por meio da comédia animada, um retrato convincente da personalidade do Batman e do seu arqui-inimigo, o Coringa.

O roteiro escrito a dez mãos – em regra, um mau negócio – viaja à cidade mais perigosa do mundo, Gotham City, para reencontrar o Batman enfrentando inimigos às dezenas – inclusive o Rei do Condimento que, pasmem, não é criação da trama – e apresenta-nos a um super-herói ególatra, arrogante, mas solitário, que, acidentalmente, adota o órfão Dick Grayson, o alter-ego do Robin, com quem partilha semelhanças na forma de carências emocionais. Enquanto acostuma-se com a vida paterna, o Batman precisa lidar com a rendição voluntária dos vilões, liderados pelo Coringa, à nova representante da justiça: Barbara, a filha do Comissário Gordon, recém aposentado. E, para não ter o mesmo destino do antigo companheiro de combate ao crime, o encapuzado resolve roubar um dispositivo mesmo que isto provoque um cataclisma que não pode enfrentar sozinho.

Permitam-me a polêmica: Lego Batman é a continuação que O Cavaleiro das Trevas não encontrou em O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Isto porque, ao retomar o relacionamento entre Batman e o Coringa destacado no já clássico diálogo em que o vilão, dependurado de ponta cabeça, explica a codependência existente entre eles, a narrativa dirigida pelo estreante Chris McKay explora os motivos de ambos e adiciona novos “blocos” – desculpe o trocadilho – no que fora montado antes por Christopher Nolan. E não se deixem enganar pela irreverência da narrativa: em meio ao choro do Coringa ou da troca de afagos mútuos (“Eu te odeio”, “Idem)”, existe a busca por propósito que atormenta até o palhaço do crime, o mais fascinante dos vilões das histórias em quadrinhos, no desejo humano de não permanecer sozinho.

Mas não é apenas esse elemento que apela aos adultos (já falo dos pequeninos, ok?): o humor característico da narrativa permite-se cenas metalinguísticas (“Lembra daquela vez com dois barcos?”), críticas (“Use criminosos para lutar contra outros criminosos”, sugere Barbara Gordon antes de esbarrar na resposta seca do Batman: “Mas que péssima ideia”, referindo-se a Esquadrão Suicida), jocosas (os gomos da barriga de Batman ou o fascínio de Bane por bombas que relembram o desastroso Batmen & Robin) ou nostálgicas (a trilha sonora e as transições características da série protagonizada por Adam West, as onomatopeias dos socos e pontapés ou a lembrança das encarnações do Batman ao longo dos anos). Isso sem contar na divertidíssima senha de ingresso na batcaverna que debocha do personagem mais famoso do estúdio rival. Por falar nisso, a trama ainda importa uma vasta coletânea de vilões populares do panteão do estúdio – vou deixar que vocês os descubra um a um, para não estragar a surpresa – cujo uso não é gratuito, e sim funcional.

Para as crianças, o filme é, tal como Uma Aventura Lego, uma montanha-russa que beira a insanidade, lotada de sequências de ação envolventes e cheias de alternativas, além do humor acessível e divertido (a recusa do Batman aos conselhos de Alfred sempre é genial, e simplesmente adoro a birra do “Eu não quero ir” aliada aos movimentos do boneco na escadaria da mansão Wayne). Afora tudo isto, ufa!, a mensagem da trama é bonita, pertinente e, inclusive, a alusão à homossexualidade do Robin é vista sem criticismo ou gags grosseiras que não cabem mais no cinema contemporâneo, que dirá numa produção voltada ao público infantil.

Tecnicamente, a animação é sensacional: o design de produção encontra utilidade para os mais inusitados objetos de cena da mansão Wayne, além dos óbvios (o museu de troféus, os batmóveis ou as dezenas de uniformes – o dito Reggae Man é uma maneira bacana de introduzir as cores laranja e verde do uniforme do Robin), e repare o cuidado da equipe de animação que oportunamente incluiu um “Rua do Crime” no pano de fundo da foto da família Wayne. E não há como não se impressionar com a técnica de fotografia que transforma bonecos minúculos em personagens que, literalmente, crescem na proporção adequada que nos permite enxergar que a produção foi feita a partir de blocos Legos, sem esquecer de salientar a grandiosidade exigida por uma trama de super-heróis. A propósito, supreendeu-me – de novo – a expressividade dos bonecos, sobretudo se considerarmos que a lógica ditaria exatamente o oposto.

Ciente de que Bruce Wayne é o alter-ego do Batman, não o contrário, baseado na predominância deste na narrativa em detrimento daquele, na insistência de vestir a máscara e no diálogo simples, porém revelador (“O Batman mora no porão do Bruce Wayne?”, pergunta Dick, para que aquele responda: “Não, ele que mora no sótão do Batman”), Lego Batman: O Filme – jamais entenderei o porquê do subtítulo, se é uma necessidade de reafirmação ou o quê – é uma aventura, desculpe o clichê, para toda a família que entende a essência dos seus personagens mesmo que precise substituir o tom sombrio característico pela diversão histriônica e astuta.

P.S.: Assisti a Uma Aventura Lego nas duas versões, dublada e legendada, e sugiro que assista a Lego Batman nesta versão, se possível: as gags originais nunca são traduzidas integralmente pela dublagem nacional, por melhor que esta seja.


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