Crítica | A Bela e a Fera

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É de se suspeitar que um crítico de cinema abominaria refilmagens, por estas, essencialmente, estarem imbuídas de mero propósito comercial em vez de artístico: produções em língua não-inglesa ganham versões neste idioma para saciar os norte-americanos preguiçosos e alérgicos a legendas; obras clássicas são refeitas sem o charme e a linguagem narrativa de outrora porque o público não tem interesse em descobrir os originais em preto e branco em que se basearam; e há, inclusive, as reinterpretações com o objetivo de capitalizar sobre marcas sólidas. Contudo, não sou radical para descartar refilmagens que possam reinventar obras medíocres ou então boas, e o estúdio Disney, farejando as cifras bilionárias que seu acervo de animações ainda poderia render, não demorou para converter algumas dessas ao formato live-action: afora Malévola, de que não gosto, os ótimos Cinderella, Mogli – O Menino Lobo e Meu Amigo, O Dragão rejuvenesceram obras originais que merecem a condição de clássico apenas por causa do elemento temporal.

Entretanto, o estúdio resolveu mexer naquela que é uma de seus obras-primas, A Bela e a Fera (1991), e contratou o diretor Bill Condon (A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Partes 1 e 2) para narrar a história da “peculiar” Bela (Watson), que, ao trocar de lugar com o pai (Kline), prisioneiro no castelo enfeitiçado da Fera (Stevens), acaba sendo instrumental para desfazer a maldição que a bruxa deixou sobre o arrogante e vaidoso príncipe e seus servos, transformados em objetos. Estes têm até a última pétala da flor cair para ajudar alguém a se apaixonar pela Fera a despeito da monstruosa aparência. Entretanto, no caminho, estão o ególatra Gaston (Evans) e seu fiel escudeiro LeFou (Gad).

Sem efetuar mudanças significativas na trama da animação de 1991, o que é o óbvio, o roteiro escrito por Stephen Chbosky (As Vantagens de ser Invisível) e Evan Spiliotopoulos (O Caçador e a Rainha de Gelo) tem a missão complicada de engordar a enxuta e adequada duração de 84 minutos do original. Para isto, acrescentam canções novas, que, apesar de não serem decepcionantes, não estão exatamente à altura dos clássicos do original; exploram subtramas narrativamente irrelevantes, como aquelas sobre as mães da Bela e da Fera; e desenvolvem o romance central afora os interlúdios musicais e também a personalidade do antagonista, naquelas que são adições interessantes, mas naturalmente dispensáveis, tanto é verdade que não estavam contidas no original. E os roteiristas não estão sozinhos no propósito, pois Bill Condon procura esticar a duração o quanto possível, e isto explica planos mais longos do que necessários, como o travelling que revela o quarto da Bela ou então o plongé que ilustra a distância desse para o chão.

Em síntese, naquilo que a animação era concisa, esta refilmagem é redundante e prolixa; o que é irônico, sobretudo se observamos em como, às vezes, os 139 minutos parecem apressados e expõem os furos que há no roteiro: Bela, por exemplo, até então desconhecia o feitiço da bruxa ao acusar a Fera de amaldiçoar os servos ou, se sabia, isto não foi revelado ao público. A refilmagem também comete o pecado de apelar, ocasionalmente, ao sentimentalismo artificial, e repare a “trapaça” da bruxa após a pétala cair, somente para que sofrêssemos as trágicas consequências que não acontecerão – igual ao desfecho falso de La La Land às avessas. Finalmente, a canção inédita Evermore, embora humanize a Fera, curiosamente desvaloriza o gesto de amor que acabara de praticar.

Apesar de pecar nos excessos narrativos, a refilmagem investe cada centavo do orçamento no design de produção clássico e encantador de Sarah Greenwood e nos efeitos especiais que dão vida a Lumière, Horloge e os demais, mas que prejudicam nitidamente a atração principal da narrativa: Emma Watson, e repare em sua dificuldade em contracenar e responder aos objetos na divertida canção Be Our Guest. Ainda assim, não haveria escolha melhor para Bela senão a talentosa atriz, tanto pela delicadeza, meiguice e coragem trazidas ao papel, quanto por ser, fora das telas, o mesmo exemplo de progressista e feminista que Bela é na trama: uma jovem esquisita, segundo as regras conservadoras da aldeia onde vive, para quem há mais oportunidades de felicidade do que a vida doméstica, conjugal e provinciana reserva.

Portanto, não é menos natural que o antagonista, a priori, e então vilão Gaston personifique machismo, misoginia, mau-caratismo e covardia sob o cenho franzido do galã (ou de príncipe encantado fracassado) cuja egolatria sugeria ser uma mera galhofaria. E Luke Evans, além de surpreender nos talentos vocais, rouba a cena com a performance que salienta a inevitável transformação em monstro. Enquanto isso, Josh Gad e Kevin Kline recorrem frequentemente ao senso de humor sem se permitirem ser restritos por isto, ao passo que Dan Stevens tem pouco o que fazer sob a maquiagem e voz digital da Fera, incapaz de somatizar ao personagem caracterizado pela contradição entre o semblante animalesco e o íntimo nobre.

Sem envergonhar o material de origem, apesar de, inconscientemente, socorrer-se à memória afetiva do espectador nos instantes em que perde força ou emoção, A Bela e a Fera precisaria alcançar o longíquo patamar que separa as grandes produções das obras-prima a fim de estar à altura da animação; isto não acontece com frequência, mas esporadicamente, e exemplo é a revisitação da sequência imortal do baile ao som da canção vencedora do Oscar. Ainda assim, embora maior em todos os aspectos que o dinheiro pode comprar e a tecnologia, proporcionar, falta à refilmagem exatamente o atributo que é inestimável: a magia.


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