Crítica | A Grande Muralha

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Esta co-produção sino norte-americana procura obter o melhor de dois mundos, refiro-me à bilheteria da China e dos Estados Unidos, os maiores mercados cinematográficos da atualidade, com uma aventura protagonizada por um astro ocidental, Matt Damon, em solo oriental diante de uma das principais obras da humanidade, a grande muralha do título. O projeto, do ponto de vista mercadológico, é tão bom que a produção arrecadou mais de 300 milhões de dólares em apenas uma semana de exibição, o dobro do seu orçamento, apesar de, no aspecto qualitativo, não haver quaisquer elementos na produção dirigida por Zhang Yimou (de O Clã das Adagas Voadoras, Herói Flores da Guerra) que o subgênero da aventura fantástica não tenha explorado anteriormente.

Exceto se você considerar o design inusitado dos monstros que pipocaram sobre a terra depois da queda de um meteoro, há séculos, e que justificaram a construção da muralha para proteger as fronteiras e os habitantes de ataques compassados a cada 60 anos. É na iminência desse período que William (Damon) e Tovar (Pascal) são capturados por soldados chineses enquanto procuravam, na companhia de outros mercenários irrelevantes o suficiente para sequer gravarmos na memória seus rostos, um “pó negro” que viria a ser denominado pólvora. É neste contexto que, durante a primeira onda de ataque dos Tao Tei, o nome atribuído às criaturas, William e Tovar ajudam os chineses a expulsar temporariamente a ameaça e logo caem nas graças da comandante Lin (Tian) e do estrategista Wang (Lau), membros da Ordem Sem Nome – uma piada pronta especialmente se considerarmos não haver outra ordem no filme. A princípio relutante mas inspirado pela coragem de Lin, William passa a ajudar o exército chinês mesmo que Tovar esteja bolando um plano, ao lado de Ballard (Dafoe, em um de seus papéis mais toscos desde Velocidade Máxima 2), para fugir com o estoque de pólvora do general.

Baseado no argumento de Max Brooks (escritor de Guerra Mundial Z, justificando por que a formação dos Tao Tei assemelhar-se à dos zumbis do livro), Edward Zwick e Marshall Herskovitz (colaboradores em O Último Samurai Diamante de Sangue), e escrito por outro trio, composto por Tony Gilroy (da série Jason Bourne), Carlo Bernard e Doug Miro (de Príncipe da Pérsia: As Areias do TempoO Aprendiz de Feiticeiro), o roteiro apresenta personagens concebidos de maneira tão superficial que é difícil imaginar que participaram do texto seis pessoas envolvidas, de alguma forma e em algum estágio de suas carreiras, com o gênero aventura. William, cujo nome não é seu único atributo genérico, investe no estereótipo do anti-herói violento e desenvolto – assumidamente hábil em construir uma bússola com as mãos nuas, ou seja, um proto-MacGyver – que procura redenção no heroísmo altruísta, ao passo que Lin, mesmo declamando um diálogo sobre Xin Ren, deve testar essa ensinamento lidando com a própria desconfiança. Já Tovar é o típico ladrão sorrateiro e comentarista do óbvio, confundindo o conceito de senso de humor com o da inconveniência, e é sintomático que seja ele que constata, não somente uma, mas sim duas vezes que os chineses entendem a língua inglesa e as bobagens que estava dizendo.

Se não há virtude no roteiro, as cenas de ação não ficam atrás, e isto pode ser constatado logo no início após o disparo de uma flecha acertando seu alvo, registrado na câmera lenta convencional, ou ainda no movimento parabólico de uma rocha incandescente desde a saída da catapulta até se chocar contra uma legião de criaturas criadas por efeitos especiais meia-boca. Por falar nos Tao Tei, seu design posiciona os olhos distantes da fronte, e alguém poderia questionar-se como elas enxergam. E nem adianta queixar-se disto, pois esta é a característica que os individualiza, uma vez que todo o restante é derivado, inclusive estarem submetidos à Rainha, o ponto fraco da “colmeia” e alvo óbvio dos heróis a partir de determinado momento. E Yimou, que antes fascinou pela plasticidade e engenhosidade de seus filmes, desaponta pela falta de zelo ao simplesmente atirar William para lutar, quase às cegas sob neblina, no campo de batalha e, mesmo assim, ele vir a acertar com a precisão élfica de Legolas todos os disparos nos minúsculos olhos de monstros que saltam sobre ele inesperadamente.

Não é porque a narrativa possa ser resumida à palavra “passatempo” que deva ser desleixada, e até agora permaneço sem entender o plano da Rainha dos Tao Tei, pois se estes poderiam escalar a muralha e até infiltrar-se debaixo dela, por que não fizeram isto desde o maciço ataque inicial, senão pelo fato de que, desta forma, o roteiro não teria material para as set-pieces seguintes? E, vou continuar a ser chato, não é esquisito que a Rainha alimente-se durante o conflito, e não após este estar encerrado, para apenas ser uma forma de por-lhe em desvantagem?

Apostando nos arquétipos do soldado chinês disciplinado e organizado a ponto de manter-se estático em pé, sem sair da formação, por longo período de tempo na expectativa de ação, ou do comandante e seus ensinamentos milenares (na forma de pergaminhos, claro) e sua intolerância ao fracasso alheio, só para encontrar a solução vinda do Ocidente, de tez branca, cabelo loiro e olhos verdes, A Grande Muralha poderia ser acusada de minimizar a importância do coletivo chinês e da própria construção em prol do individualismo norte-americano (a interpretação ideológica da narrativa, socialismo versus capitalismo). Mas nem me darei o trabalho de adentrar neste caminho, pois nem no parâmetro de filme de gênero ou de entretenimento passageiro o filme consegue ser bem sucedido.


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