Crítica | Kong – A Ilha da Caveira

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Se monstros existissem, não estaríamos reutilizando-os obra após obra para discutir aspectos da humanidade por meio de símbolos que representam medos, dramas e anseios melhor do que as palavras são aptas a descrever. Enquanto Godzilla, de 1954, revivia os efeitos da bomba atômica utilizando-se do Rei dos Monstros como simulacro da ação irresponsável e animalesca do homem, King Kong, de 1933, estava interessado na questão racial, embora adotasse o tom incorreto: os negros eram representados como seres subumanos dispostos a sacrificar a bela donzela (loira, claro) para aplacar a ira do primata-título, sua deidade. Este, após ser abduzido para ser a “Oitava maravilha do mundo” (exploração) e de ser negado o “romance platônico” pela atriz Ann Darrow (segregação), escalava o Empire State (ascensão social), à época o ápice do capitalismo norte-americano, e era abatido ao chegar ao topo, em uma interpretação diferente mas não incorreta da dificuldade do trabalhador fugir da exploração capitalista.

Pessoalmente, curto interpretar filmes a partir de ideologias e entrelinhas que perpassam a superfície da história, mas nada disto você vai precisar para divertir-se assistindo a Kong: A Ilha da Caveira, e se escrevi o preâmbulo, era para servir de contraponto a este blockbuster cuja única intenção é entreter: nada mais, nada menos do que o esperado de aventuras fantásticas em ilhas não exploradas e povoadas por criaturas colossais e ameaçadoras. É para lá, a Ilha da Caveira, que viaja um destacamento de militares, cientistas e civis ao término da Guerra do Vietnã, depois do empresário Bill Randa (Goodman) convencer um Senador norte-americano de que essa era uma boa ideia, afinal os soviéticos poderiam chegar lá antes deles.

Ao chegar à ilha, a equipe, facilmente identificável pelo nome dos atores, não dos personagens – e existe uma brutal diferença nisso – é surpreendida pela versão anabolizada de Kong – que ainda está em fase de crescimento. Os poucos sobreviventes ao ataque inicial repartem-se em grupos na paisagem idílica onde você pode ser empalado pelas pernas de uma aranha-gigante ou sentar em cima do que parece ser um inseto-Ent; eles têm um objetivo em comum: fugir da ilha o quanto antes, menos o Tenente Packard (Jackson) que deseja vingar-se e matar Kong. Dá para notar que o roteiro escrito a seis mãos, baseado na história de John Gatins – indicado ao Oscar pelo roteiro de O Voo –, não é o ponto forte de uma trama que se vale de clichês de todas formas e tamanho para “desenvolver” uma dúzia de personagens: soldados ou obsessivos ou descartáveis ou que não enviaram as cartas que escreveram para mãe ou filho; mercenário desertor; cientistas úteis somente para introduzir informações que empurram a história adiante; fotógrafa independente; John C. Reilly sendo ele mesmo etc.

Nada disto importa após a chegada à Ilha da Caveira, homenagem rasgada a sequência de Jurassic Park, e o plano-aberto inicial com profundidade de campo suficiente para deixar o espectador aliviado de não haver torrado mais dinheiro em troca de um 3D fajuto. Kong, neste aspecto, distingue-se da maioria das superproduções ao explorar a funcionalidade narrativa do 3D para sublinhar a pequenez do “exército” diante da ilha, sem os inconvenientes habituais: a fotografia de Larry Fong aposta em tons alaranjados e chapados, saídos de Apocalypse Now a quem o filme reverencia na trilha sonora e no personagem de Samuel L. Jackson, a montagem de Richard Pearson é compassada, evita na maioria das vezes cortes rápidos e incompreensíveis, para empregá-los com fins exclusivamente narrativos, não para disfarçar má decupagem ou maus efeitos especiais, e a direção de Jorgan Vogt-Roberts – somente no seu segundo filme – sabe pensar a ação em 3D, o que é crucial.

Também é admirável a forma com que Jordan reverencia o personagem-título, desde quando o apresenta erguendo-se diante do sol à humanidade que exibe, e quem aqui duvida que Kong é melhor desenvolvido do que o resto do elenco? E por mais que a única explicação por que Tom Hiddleston, Brie Larson, Samuel L. Jackson, John Goodman e John C. Reilly aceitaram seus papéis tenha a ver com cifras gordas – Hiddleston não faz absolutamente nada ao passo que Larson, no seu primeiro papel pós-Oscar, limita-se a apontar a câmera e erguer a sobrancelha para tudo o que olha –, é intrigante, e digo isto por que eu estou intrigado comigo mesmo nesse aspecto, como o subdesenvolvimento de personagens unidimensionais e os diálogos capengas não me tiraram do filme sequer em um momento.

Talvez eu estivesse gostando do close nas chamas que engalfinham os óculos – referência ao personagem de Robert Duvall em Apolcaypse Now, que adorava o cheiro de napalm pela manhã –, ou do corte sugestivo e divertido envolvendo a morte de um soldado, Kong e um sanduíche ou da atenção a detalhes da turma dos efeitos especiais, que acrescentou pelos às ossadas dos antepassados de Kong.

Parte do multiuniverso dos batizados Organismos Terrestres Gigantescos não Identificados (risos), Kong: A Ilha da Caveira difere-se do presunçoso, escuro e enfadonho Godzilla de 2014 – contra quem lutará em breve, apesar de não saber qual vai ser a ginástica narrativa para unir tramas separadas por 50 anos, sem que uma não provoque furos de lógica na outra – e atende exatamente ao desejo de quem quer assistir a atores coadjuvantes serem mortos com pitadas de humor negro e/ou a monstros gigantes brigando entre si. Sobre isto, não há senão elogios a serem feitos a este blockbuster casual e divertido.

P.S.: Após os créditos finais, há uma cena breve que introduz os outros “reis” do universo em fase de ser construído: Godzilla, Mothra, Rhodan e Ghidorah.


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One Comment on “Crítica | Kong – A Ilha da Caveira”

  1. Jackson está podre como de costume. Mas achei o filme excelente. Pipocão que estava fazendo falta. Acabei me importando só com Kong no filme. Queria mais era ver todos sendo devorados, pisoteados, partidos.

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