Crítica | Logan

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É inevitável que, ao escrever sobre Logan, devo me debruçar sobre a saturação do gênero super-herói, sobretudo desde que a Marvel Studios entrou no mercado e popularizou um formato de entretenimaneto que, se não é ruim do ponto de vista cinematográfico – aliás, há ótimos “produtos” do estúdio -, é ineficaz em enfatizar aquilo que seus personagens têm de mais fascinante. E não me refiro a seus superpoderes ou habilidades, mas sim à humanidade, valor menosprezado na presença de sujeitos predestinados a realizar feitos extraordinários. Logan é, portanto, um sopro de vida nova a um gênero que ironicamente resume-se – ou tem se resumido – à trivialidade. Um filme cujas garras emocionais estão mais cortantes quanto mais fisicamente vulnerável e mentalmente exaurido está o personagem-título, interpretado pela nona e última vez por Hugh Jackman desde que estreou na vaga em X-Men – O Filme (2000).

Com roteiro escrito por Scott Frank (Minority Report – A Nova Lei), Michael Green (Lanterna Verde) e James Mangold, que também dirige, o filme insere-se (acho) na cronologia alternativa pós Dias de um Futuro Esquecido, o que parece lógico se considerarmos que o Professor Xavier morreu em O Confronto Final e reapareceu, junto a Magneto, para convocar Logan a salvar o futuro em Wolverine – Imortal. E enquanto meu cérebro tenta desatar esse nó, a boa notícia é que a trama pode dispensar a exata correlação com os outros filmes da saga cinematográfica para se ater ao pólo emocional entre Xavier e Logan e este consigo mesmo. Em 2029, o não nascimento de novos mutantes põe a espécie na encruzilada da extinção prematura; neste ambiente literal e simbolicamente árido, encontramos Logan, envelhecido e adoentado em razão da deterioração do seu fator de cura – as juntas de onde saem suas garras estão cobertas de pus -, tentando economizar o dinheiro recebido como motorista de limunise para comprar os remédios de Xavier (Stewart), que sofre de doença degenerativa, e para encontrar uma maneira de fugir daquele deserto com ele.

Esses planos vão por água abaixo quando Logan é procurado por Gabriela (Rodriguez), que oferece uma pequena fortuna para levá-la junto com a garota Laura (Keen) bem longe dos lacaios comandados por Donald Pierce (Holbrook), líder de operações militares da corporação chefiada pelo doutor Zander Rice (Grant). Relutante até mais do que o normal, fruto da idade e da desesperança, Logan não vê outra saída senão atender a súplica de Gabriela ecoada por Xavier, depois de este constatar que Laura tem as mesmos habilidades de Logan. Esta temática, a do (anti-)herói misantrópico e relutante compelido a ajudar quem precisa dele, é o ponto de encontro entre a narrativa e o faroeste, gênero referenciado na trilha sonora de Marco Beltrami, na televisão do hotel que exibe Os Brutos Também Amam (que não é mencionado em vão) ou no apego à violência não como mero elemento disruptivo, porém como atributo intrínseco à narrativa e ao personagem-título.

Similar à obra do “poeta da violência”, apelido pelo qual o cienasta Sam Peckinpah veio a ser conhecido, a violência em Logan não é acessória, mas premente; não é direcionada meramente aos antagonistas, mas inclusive a pessoas decentes porém desafortunadas; e não é higienizada, na primeira oportunidade de uma produção X-Men ilustrar as consequências de ter nas mãos facas indestrutíveis. Porém, isto não limita a narrativa a ser um banho de sangue, e James Mangold investe no elemento humano através das lentes ensaguentadas de lutas ferais que comprovam que Logan é um experimento trágico desde que fugiu do projeto Arma X. E é compreensível que, tendo perdido as pessoas que amava, às vezes até pelas próprias garras, Logan deseje a aposentadoria e rejeite o posto de herói, e a narrativa é inteligente em introduzir um nêmesis inusitado que representa, de forma nítida, que seu maior inimigo nada mais é do que o simulacro da fera interior desprovida de consciência e racionalidade que traz dentro de si. Nesse sentido, a performance de Jackman é admirável ao não misturar a maldição em ser o Wolverine – que o envenena mais do que o adamantium – com os caracteres típicos da rabugice ou mau-humor, presentes de modo inconfundível nos breves e escassos instantes orgânicos de distração presentes na trama, como no divertido uso de óculos de leitura.

A narrativa, em tom e estilo, reflete a personalidade desiludida de Logan na velhice, e Mangold evita a introdução de elementos que possam destoar dessa aura lacônica e estéril, inclusive se rebelando contra as convenções do gênero ao introduzir um breve topless jamais visto nas produções da Marvel Studios. Os efeitos especiais computadorizados limitam-se ao rejuvenescimento de determinado personagem ou em cenas pontuais, como aquela em que Logan é alçado de um desfiladeiro, em favorecimento de efeitos práticos, tipo a truncagem que retrata o poder de Xavier e, a sua maneira, cria uma rima poética bonita ao reimaginar uma cena específica envolvendo Jean Grey (ou a Fênix) em X-Men: O Confronto Final.

Por falar em Xavier, não há como ignorar a atuação irrepreensível de Patrick Stewart, cujo encontro com Laura conforta sua mente cansada com a memória dos alunos especiais pelos quais tanto lutou e, em outro espectro, cujas lágrimas doloridas narram um incidente em Westchester sem exageros, exposições desnecessárias ou sentimentalismos, mas com o tom correto para ser emocionante e demarcar o fim do sonho utópico de ver humanos e mutantes convivendo em harmonia, um dos momentos mais tristes que o gênero proporcionou. Já a interação entre Logan e Xavier atinge um grau de complementariedade tão afinado que ambos são capazes de saber o que o outro está pensando ou sentindo somente na troca de olhar (e sem telepatia). Por fim, Dafne Keen, apesar do tropeçozinho do roteiro ao revelar algo sobre sua personagem, é interessante em mimetizar o animalismo instintivo de Logan e a ingenuidade infantil.

Consciente de estar encerrando um capítulo do universo cinematográfica dos X-Men, Logan não realiza concessões nem emprega artifícios narrativos para maquiar o fim da jornada de um personagem querido e que, enfim, ganha uma produção à altura do que tem a oferecer. E que isto esteja na vulnerabilidade, e não nas suas habilidades sobrehumanas deveria inspirar o gênero a ir além dos superpoderes, explosões e efeitos especiais.

Afinal, quando o assunto são super-heróis, o extraordinário está em retratar a dor e o espírito de quem carrega nas costas o peso de grandes poderes.

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