Crítica | Power Rangers

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Diariamente, por volta das 5 horas da tarde, apesar da imagem frequentemente chuviscada, sobretudo na temporada de chuvas, você poderia me encontrar sentado em frente à televisão, sintonizado no extinto canal Manchete para assistir aos denominados Tokusatsu, seriados japoneses cheios de efeitos especiais – digo, para a época – e em que um ou mais super-heróis salvavam o mundo de ameaças alienígenas usando acrobacias e golpes marciais, armas poderosas e futuristas e robôs gigantescos. Assim, antes da Globo exibir Power Rangers, Changeman ou Flashman já haviam vestido adolescentes de uniformes de cores vibrantes para enfrentar as forças do mal, embora esta falta de originalidade da criação do egípcio Haim Saban pouco fizesse diferença para um garoto de 10 anos interessado em se divertir.

Diferentemente deste Power Rangers, que surfa no sucesso atual do subgênero de super-heróis para reimaginar e ressuscitar o fenômeno noventista para uma nova geração de espectadores, assim como também resgatar a nostalgia junto a jovens adultos (cof cof) como eu. Se na teoria mercadológica a proposta pareceria interessante, na prática o resultado é inferior ao esperado: escrita por John Gatins (de O Voo e Gigantes de Aço), a trama tem início na Era Cenozoica quando descobrimos que Rita Repulsa (Banks, surpreendentemente irritante), a então ranger verde, na busca pela fonte da vida na Terra, traiu e matou toda sua equipe, exceto o líder Zordon (Cranston, no papel que Liam Neeson interpretou tantas vezes), que interrompeu seus planos malignos e, acidentalmente, provocou a extinção dos dinossauros.

Milhões de anos depois, os mesmos arquétipos desconstruídos em O Clube dos Cinco encontraram, enterradas nas minas da minúscula Alameda dos Anjos, cinco moedas coloridas que lhes conferem superpoderes. Na exploração, eles também descobrem uma nave espacial habitada pelo simpático e atrapalhado robô Alpha 5 (voz de Bill Hader) e por um agora incorpóreo Zordon, que os guia na sua missão: defender o planeta de Rita Repulsa que, naquelas coincidências necessárias, mas não menos desapontantes por causa disso, despertou ao mesmo tempo em que Jason, Kimberly, Billy, Zack e Trini tornaram-se Power Rangers.

Pegando de empréstimo as piores características de parcela das superproduções contemporâneas (alô Warner/DC, Transformers etc), Power Rangers é circunspecto mesmo que recorra a alívios cômicos juvenis (tirar leite de boi, sério?), sombrio apesar de os heróis vestirem as cores do arco-íris pintadas sobre a armadura do Homem de Ferro, autoindulgente na tentativa de extrair mais do que a tola proposta teria a oferecer – qual o mal em ser “apenas” divertido? – e mais extenso do que deveria, sem que os 124 minutos atendam às expectativas do espectador. E, se de um lado, deve-se admirar o esforço narrativo em recusar construir caricaturas em vez de criar personagens, do outro é preciso constatar a falha no intento, pois atributos como a insubordinação de Jason, o autismo de Billy, o passado de Kimberly ou o cuidado de Zack com a mãe surgem mais como adornos incapazes de diferenciá-los ou justificar suas ações, prejudicados por intérpretes fracos. Entretanto, o comentário acerca da sexualidade de Trini, irrelevante do ponto de vista narrativo, é importante justamente por evitar a problematização da questão e a discriminação que poderia resultar disto, aceitando sem ressalvas, como deve ser, o heroísmo independente da orientação sexual.

Mas de boas intenções o limbo cinematográfico está cheio, e ao desperdiçar tempo e energia para superar todas as etapas típicas das histórias de origem – a descoberta, a adaptação, o treinamento etc –, o diretor Dean Israelite (de Projeto Almanaque) nem consegue cumpri-las com perfeição – repare que quando Jason questiona se os demais se recordam do ‘poço’, a resposta instintiva do espectador é negativa pois a passagem foi tão breve quanto indistinta – nem tampouco disfarça os gigantescos furos do roteiro, como o passeio de Zack a bordo do seu zord ou a destruição no quarto de Trini, ambos ignorados como se fossem prosaicos. Mais preocupado em chamar a atenção para si, e a sequência sem cortes no interior de uma caminhonete é a maneira que encontrou para fazê-lo, Dean Israelite ignora a razão de ser da produção, confiante em que a reutilização dos bordões ou dos elementos típicos bastariam para aplacar a nostalgia dos fãs.

Enquanto faz isso, Dean empurra a ação aos 25 minutos finais, ironicamente a mesma duração de um episódio, porém insuficiente para a quantidade de eventos retratados: a luta contra os bonecos de massa, a invocação dos zords, a luta contra Goldar, o monstro criado pelo cetro de Rita Repulsa. Esta pressa, no entanto, nem chega perto da decepcionante assemblagem do Megazord, escondida sob fumaça para que o espectador apenas confira o resultado final (igualmente desapontante). A propósito, por mais que haja explicação narrativa para a fotografia de Matthew J. Lloyd ser acinzentada e encorpada, para, enfim, ganhar cores vivas depois de os adolescentes transformarem-se nos Rangers, a certeza que permanece é a de que a proposta da narrativa dispensava essa paleta de cores.

Curiosamente covarde nos momentos convenientes, especialmente um capital que não revelarei, Power Rangers esquece de que reimaginações ou reboots devem conservar a essência do material original. Em sendo assim, esta produção poderia até ser ingênua ou tosca, desde que mantivesse presentes o escapismos e a diversão, porém apenas consegue ser um lastimável e desnecessário enfado.


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