Crítica | Cães Selvagens

Caes-Selvagens

Não se pode ignorar a importância do roteirista Paul Schrader ao cinema norte-americano nos anos 70/80, pois de sua máquina de escrever nasceram os argumentos dos clássicos Taxi Driver e Touro Indomável, e de Gigolô Americano e A Marca da Pantera, estes por ele dirigidos. A partir de então, a constatação amarga é a de que seus trabalhos mais relevantes são apenas aqueles textos adaptados por Martin Scorsese (A Última Tentação de Cristo e Vivendo no Limite), o que coloca, não sem justa causa inclusive, o ponto de interrogação sobre a qualidade dos seus escritos. Décadas se passaram e o Paul Schrader, cuja insubmissão e violência inspiravam e assombravam com idêntica intensidade, decompôs em produções ruins (The Canyons) ou medíocres, como é o caso de Cães Selvagens.

Baseado no livro homônimo de autoria de Edward Bunker, o roteiro escrito por Matthew Wilder, apresenta-nos a três ex-presidiários: Troy (Cage), Mad Dog (Dafoe), cujo apelido é o suficiente para entender suas duas características principais, insanidade e lealdade, e Diesel (Cook). O trio reúne-se depois de Troy sair da cadeia e, entre álcool, drogas, prostitutas e delitos menores, resolve aceitar o trabalho oferecido por Greek (Schrader): raptar um bebê para coagir o pai, um criminoso perigoso, a honrar uma dívida milionária. Não demora para que a missão fuja do controle e o trio entre em modo samurai, ou seja, vale tudo, inclusive se matar, para não retornar à cadeia.

O mais deprimente na narrativa não é saber como o roteiro se desenrolará desde determinado ponto, mas de ver Paul Schrader que, sem a menor dúvida, influenciou Quentin Tarantino e os posteriores e inevitáveis covers, satisfeito em emulá-lo, porém com um terço da qualidade da violência gráfica, estilizada e inesperada e sequer isto de conhecimento da cultura pop para infundir vitalidade em diálogos subdesenvolvidos que sobrevoam nomes de famosos, como os de Taylor Swift ou Jackie Chan, ou discutem banalidades, como a quantidade de água necessária para crescer uma amêndoa, na esperança de que isto os torne contemporâneos e descolados.

Com esse objetivo em mente, a fotografia de Alexander Dynan stalkeia o próprio arco-íris na paleta de cores que impressiona visualmente, mas sem o menor propósito narrativa senão o canibalismo do próprio estilo. Isto se repete nas decisões de enquadramento de Schrader, empregando os extremos do quadro sem que isto acrescente informação ao espectador que este não captaria caso a narrativa optasse em ser mais comedida. De forma idêntica, a trilha sonora e a edição sonora sobressaem-se em chamar mais a atenção para os mecanismos da narrativa – tais como o corte mascarado – do que para esta propriamente dita, desperdiçando o talento do baterista Deantoni Parks.

Tudo isto sobre o que comentei o espectador poderá identificar desde a cena introdutória, em tons rosa choque, em que Mad Dog, após ingerir quantidade suficiente de cocaína e heroína (ou crack?) para causar amnésia em elefantes, reencontra-se com a namorada, somente para ver a sugestão de cozinhar costeletas de porco ganhar definição literal na narrativa, o que, é bom citar, é de tremendo mau gosto do roteiro. Enquanto isto, as telas múltiplas apresentando sem-número de informações irrelevantes mais o volume do áudio telefônico acentuado e os efeitos especiais práticos em frente ao espelho pretendem comunicar o estado de decrepitude de Mad Dog tão bem quanto Danny Boyle fizera em Trainspotting – Sem Limites, mas o resultado para no meio do caminho.

Enquanto Mad Dog desponta como o aspecto mais divertido ou irritante da narrativa, a depender da tolerância do espectador quanto aos excessos histriônicos e à logorreia estridente de Willem Dafoe, Nicolas Cage doma a juba e, ocasionalmente, o overacting com um personagem empolgado com a perspectiva de parecer com Humphrey Bogart. Aqui, sim, a narrativa acerta, pois além de Cage ser bom ator – não devemos esquecer disto – e ser capaz de mimetizar a voz cadenciada característica do ator de Casablanca além de reproduzir seus maneirismos, a narrativa acerta na escolha de figurinos clássicos e na opção de introduzir Troy no mesmo preto e branco que eternizou os célebres filmes noir de que tanto gosta. Por fim, Christopher Matthew Cook exclusivamente recorre à cara de mau de Diesel sem honrar seu alardeado brilhantismo, aliás, nem poderia, pois a confusão entre os países Egito e Iraque serve somente para evitar levar a sério os elogios feitos por Troy ao personagem.

Mais apática do que empolgante, esta comédia criminal de humor negro pode não ser o pior que Paul Schrader produziu nos últimos anos, a propósito, é bem provável que seja um de seus melhores trabalhos recentes, e este é a constatação mais lastimosa que há, a de que alguém com a voz tão ativa e pulsante renda-se, na parte final da vida, à mera ordinariedade e derivação.


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