Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 2

Continuação do sucesso de 2014 e 15ª produção da Marvel Studios, Guardiões da Galáxia Vol. 2 (ou GOTG 2) não ambiciona mais do que suas limitações lhe permitem ser nem se vale de subterfúgios ou mistérios em uma narrativa produzida como manda o figurino… de Kevin Feige, que governa o estúdio com cetro de ferro, digo manopla do infinito, para que o resultado permaneça dentro da confortável, inofensiva e bilionária redoma em que os fãs, habituados com a fórmula, estão dispostos a permanecer até mesmo após os créditos finais. Nestes termos, a nova aventura da tropa estelar de super-heróis desajustados não nega suas prioridades tão logo reencontremos o quinteto na iminência de enfrentar uma espécie de molusco gigante, algo tão corriqueiro que pode permanecer no segundo plano enquanto assistimos ao Bebê Groot despreocupadamente dançar.

Mais comédia, irreverência e danças, menos ação e interligação com o restante do MCU, a trama escrita e dirigida por James Gunn inicia-se em 1980, quando Ego (Russell, rejuvenescido digitalmente) vagava por Missouri ao lado de Meredith, a mãe de Quill (Pratt), e plantava um dispositivo de brilho azulado, mas finalidade incerta. Décadas mais tarde, como resultado da negociação frustrada com os Soberanos, raça cuja superioridade vem de fábrica na cor da pele, e da queda da espaçonave dos Guardiões em um planeta inabitado, Ego enfim encontra Quill e o convida a unir-se a ele em seu planeta, acompanhado de Gamora (Saldana), Drax (Bautista) e de Manthis (Klementieff). Enquanto isto, Rocket (Cooper) repara a nave e faz as vezes de babá de Groot (Diesel) e da traiçoeira Nebula (Gillan), enquanto prisioneira, mal sabendo que Yondu (Rooker) está no encalço do bando.

A sinopse permite constatar que GOTG 2 contraria as expectativas ao evitar os excessos que poluem com frequência a maioria das continuações. Com a adição de apenas dois personagens centrais, a empática Manthis, idêntica a Drax quanto à inabilidade social, e Ego, cujo nome deveria ser autoexplicativo, a trama preocupa-se em se aprofundar nos dramas e nas personalidades dos personagens, mesmo que o faça através de menções à família, tão frequentes que o roteirista de Velozes & Furiosos poderia exigir direitos autorais, de diálogos expositivos, contrariando a tal da “não verbalização”, e da afinidade que decorre dos duos recém-formados (Quill e Ego, Rocket e Yondu, Gamora e Nebula, Drax e Manthis e Bebê Groot e nós!). Embora problemática, a abordagem direcionada aos personagens é admirável e reflete em sequências de ação tímidas só em escopo, não em alternativas, com exceção da derradeira, curiosamente a menos eficiente apesar de ser a mais grandiosa.

Existe razão para isto no senso de humor característico não apenas das produções do estúdio, mas também derivado do antecessor: assim, quando a câmera aproxima-se de um personagem em monólogo dramático ou emocional, o corte imediato tem o objetivo de chacoalhar a seriedade mesmo que isto venha soar artificial ou forçado em algumas ocasiões. Não que James Gunn esteja preocupado, já que ele bombardeia o público com comentários irônicos e bem-humorados (“Eu sou a Mary Poppins!” ou “Temos uma caixa cheia de mãos”), gags visuais (a do Pac-Man ou do David Hasselhoff) e ideias bem planejadas e executadas (a procura por fita adesiva narrada do ponto de vista de Rocket). Além disso, o diretor pode confiar no humor irreverente de Drax, afiado e divertido, e nas aparições do Bebê Groot, cujos olhos saídos de um mangá e sua inocência elevam o que poderiam ser sequências triviais, como aquela que envolve a crista de Yondu.

Por outro lado, Chris Pratt mostra-se entediado – fato que também ocorreu em Jurassic World –, ao passo que a invulnerabilidade dos heróis põe em risco o envolvimento do espectador com sua segurança, em cenas que beiram o absurdo e envolvem desde quedas imensas a acidentes de avião de que escapam ilesos de arranhões. Pior, eles riem disto. E se as produções da Marvel caracterizam-se, negativamente, pela ausência de consequências, por menores que sejam, aos personagens – GOTG 2 deve multiplicar por cinco –, o que falar sobre seus vilões de meia tigela (Loki e Zemo são as exceções)? GOTG 2 nem se esforça quanto a isto, limitando-se a criar um sub Lex Luthor – por causa da grandiloquência, da soberba e do visível fascínio, digamos, pelo mercado imobiliário –, que desperdiça o ator que o interpreta, a níveis preocupantes no terceiro ato, quando a narrativa recorre a efeitos especiais computacionais de, pasmem, qualidade bem duvidosa.

E se a trilha sonora de Tyler Bates não é empolgante, outro defeito habitual da Marvel, melhor sorte têm as músicas incidentais do Awesome Mix Vol. 2, que mantêm o alto padrão de qualidade do anterior além de serem termômetros confiáveis das sequências memoráveis da narrativa, como aquela em que a seta de Yondu corta os corredores de uma espaçonave deixando o rastro similar às ondas sonoras da canção de fundo. Menos criativo é o design de produção de Scott Chambliss e a maquiagem de John Blake, limitados a alienígenas humanoides e a planetas de personalidade visual rasteira, culminando no antropomórfico Planeta Ego que, bem, ao menos arrancaria um sorrisinho de George Méliès.

Por fim, James Gunn, sem dúvida o astro detrás do projeto, entende a essencialidade da profundidade de campo para o 3D. Repare como o diretor investe na contextualização da geografia dos planetas em planos abertos que se aproximam, em travelling, dos personagens que lá se encontram, além de procurar evitar cenas de ação truncadas e recortadas, embora mantendo o ritmo acelerado que exigem. Gunn também não perde a oportunidade de criticar os drones de guerra, comparando-os a videogames, e nem de reverenciar o cinema oitentista, como a óbvia homenagem a A Bolha Assassina.

Embora carente do elemento surpresa, Guardiões da Galáxia Vol. 2 aproveita, enquanto ainda pode, o fato de não estar inserido integralmente no MCU, para oferecer exatamente aquilo que dele se espera. Afinal, mais do que ciente de suas limitações, esta aventura intergalática conhece melhor ainda suas qualidades.


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