Crítica | Martírio

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Ao lado da indignação, sentimento naturalmente provocado por Martírio, chamou-me também a atenção o reavivamento de uma memória de quando era criança e as propagandas eleitorais, durante a ascensão do lulismo, amedrontavam a população brasileira com afirmações irresponsáveis de que, caso fosse eleito, as propriedades privadas seriam invadidas e ocupadas por militantes dos movimentos sociais. Evidentemente, isto fomentou minha imaginação ingênua com o temor de que, no futuro, na sala de estar ou jardim de onde morava, repartiria espaço com famílias com as quais jamais tive contato, e, devo confessar, revoltava-me a ideia de ter que ceder o que era meu a outros que sequer pregaram um prego no santuário que chamava de lar. É possível, inclusive, que estivesse pensando igual aos políticos inescrupulosos que arrotam, egoisticamente, ser a propriedade o maior bem da vida, mesmo que esta nem seja sua para começo de conversa.

É isto o que nos revela Martírio, documentário que se confunde com o trabalho da vida do antropólogo e indigenista Vincent Carelli e remonta desde sua visita ao Mato Grosso do Sul, em 1988, até os dias atuais para jogar luz sobre o movimento, invisível, aos olhos da grande população, de retomada das terras indígenas de fazendeiros que a obtiveram, em muitos casos, através de circunstâncias históricas obscuras que ignoravam o fato de que ali era lar dos povos Guarani e Caiová. Ao longo de aproximadamente 3 horas, a equipe integrada por Carelli e os co-diretores Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida, a “Tita”, visita acampamentos indígenas ainda sub judice, aguardando a sentença definitiva em processos de demarcação de terras, e retrata o conflito sangrento entre os índios, “fortemente armados” com paus, arcos e flechas, e fazendeiros, escondidos detrás de milícias contratadas e municiadas de armas e bombas e protegidos pela imprensa, que trata o índio como invasor das próprias terras, e pela bancada ruralista no Congresso Nacional, alimentada pelo lobby e alimentando inverdades à população na forma de leis, como a PEC 215 que pretende deslocar a competência para demarcação de terras indígenas da FUNAI a esses mesmos legisladores.

“Nós só queremos paz para trabalhar”, suplica a Senadora Kátia Abreu no palanque legislativo enquanto ignora as agressões sofridas pelos Guarani e Caiovás, pacíficos e de índole benigna como retrata a história, que, ao tentarem defender, das mãos de ruralistas, a posse da mesma terra onde enterraram seus antepassados, são assassinados sorrateiramente – não são inusuais os atropelamentos criminosos na beira dos acampamentos – ou espiritualmente – esmigalhando a honra de séculos de tradição através da transformação do povo em pedintes de cestas básicas, com as quais supostamente vive de forma “nababesca” como bem ironiza o Deputado Ivan Valente.

A propósito, a narrativa enoja-se do processo político ao retratar o solene distanciamento daqueles homens e mulheres, ajambrados, perfumados e articulados, do povo que o elegeu e cujos interesses supostamente deveria representar. E a confissão de que os Guaranis e Caiová votaram em Dilma só para serem traídos pelo dinheiro do agronegócio retrata de modo simples a dinâmica da democracia capitalista contemporânea. Já a sequência na Comissão da Reforma Agrária assusta ao escancarar o preconceito – não acredito ser “somente” ignorância, se bem que a menção ao Rei da Noruega seja jocosa e alienada o suficiente para servir de contra-argumento – de parlamentares da denominada “bancada do boi”. E sem a voz – leia-se: a representatividade – que tiveram outrora na Assembleia Constituinte, quando em poderoso pronunciamento retiraram artigo discriminatório da Constituição –, não há alternativa aos povos indígenas senão protagonizar incidentes lamentáveis, mas imprescindíveis, como a ocupação do Congresso Nacional.

A fim de entender o estágio contemporâneo dos conflitos fundiários, a narrativa resgata a memória histórica através de fotos, imagens de arquivos e da narração in off, e a monta de tal maneira que aquela permaneça entrelaçada com o presente e dele indissociável. Assim, revisitamos a Guerra do Paraguai e o processo de colonização do Cone Sul do Mato Grosso do Sul, área exportadora de erva mate, a atuação do General Rondon e a criação do Serviço de Proteção aos Índios, em 1910, para então, no Regime Militar, ser extinto e substituído pela FUNAI. Nestas etapas, é possível entender a gênese dos conflitos iniciada com a transladação das terras a ricos exploradores, desprezando a propriedade original, assim como o desrespeito aos índios na assimilação da cultura dos brancos – o desconforto do índio civilizado, de terno e sorrindo forçadamente diante das câmeras é uma imagem difícil de ser esquecida –, a tortura, a corrupção e o trabalho escravo na “contratação” de mão de obra indígena para extrair erva mate – as imagens de arquivos são bastante reveladoras – e mesmo a militarização da FUNAI com o desfile de pessoas presas no temido pau de arara.

Por fim, a narrativa não se furta de refletir sobre o assassinato brutal de um fazendeiro cometido por índios, mas dando a oportunidade de defesa a eles – coisa que ninguém mais fez na grande imprensa –, entretanto sem deixar de lamentar o ocorrido. Por mais que seja injustificável, não é incompreensível por que os Guarani e Caiovás recorram à força, única língua que os ruralistas, com exceções é claro, parecem entender: afinal, o Leilão de Resistência, do qual participaram parlamentares de nomes facilmente reconhecidos nas redes sociais, era, antes de mais nada, subterfúgio para arrecadar dinheiro e financiar as milícias que assediam e matam índios. Em sendo assim, a prisão do Presidente do Sindicato dos Ruralistas, acusado de assassinar o cacique de determinado acampamento, não deixa dúvidas de quais são as prioridades daquela gente, escancaradas na seguinte frase: “Gado vale mais do que gente”.

Por outro lado, para os Guaranis e Caiovás, “A terra representa a própria vida”. E, olhando de novo para a minha infância, jamais imaginaria que o temor da perda da propriedade que citei ocorreria debaixo de nossos narizes, mas sem qualquer revolta popular. Tampouco esperaria que o índio, hoje, seria eu.

Corrijo: todos nós.


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