Crítica | Vida

Vida (Life, 2017), dir. Daniel Espinosa

A premissa de Vida é rasteira e objetiva: uma equipe de seis cientistas a bordo da Estação Espacial Internacional recupera amostras do solo marciano nas quais está contida a primeira forma de vida extraterrestre em mãos humanas. Trata-se do ser microscópico batizado de Calvin, cujo crescimento acelerado, ímpeto de sobrevivência e apetite voraz ameaçam a vida não apenas dos tripulantes, mas de toda a humanidade. É o clássico encontro da ficção científica com o terror de criaturas, ao estilo O Enigma do Outro Mundo, Predador e Alien – O Oitavo Passageiro, a principal fonte de inspiração do novo trabalho do diretor sueco Daniel Espinosa (de Protegendo o Inimigo e Crimes Ocultos) em razão da variante espacial, pois o isolamento e a claustrofobia estavam presentes nos outros trabalhos citados. Entretanto, perto deles, Vida não oferece nada de inovador, tão somente a oportunidade de assistir a atores famosos serem fagocitados por Calvin.

Escrito pela dupla de roteiristas de Zumbilândia e Deadpool, Rhett Reese e Paul Wernick, o longa tem início de modo promissor com um plano-sequência ousado que percorre os corredores da Estação Espacial, flutuando ao lado dos astronautas no ambiente em gravidade zero, enquanto o Rory (Reynolds, interpretando sua persona falastrona e irreverente) prepara-se para operar, manual e externamente, o equipamento que resgatará o módulo oriundo de Marte. A execução da sequência não deve nada em matéria de destreza à Gravidade, com mudanças de eixo, deslocamentos, emprego de reflexos para introduzir personagens e o ponto de vista da façanha hermeticamente enclausurado no interior da estação, até que a trilha sonora solene de Jon Ekstrand inunde a tela em companhia das letras garrafais do título.

Tamanha pompa percorre a narrativa nos dilemas existenciais de David (Gyllenhaal) e nas atuações dramaticamente presunçosas de intérpretes competentes, mas a serviço de uma trama que os obriga a reproduzir diálogos broncos, do tipo “Calvin não nos odeia. Mas tem que nos matar”, ou de agir de maneira casuística ou empírica, sem jamais apelar à racionalidade, como se esperaria dos cientistas das nações mais desenvolvidas da humanidade. Em certo momento, alguém decide bloquear o acesso à estação disparando os propulsores da nave, embora esquecesse que a) esta ação retiraria a nave da órbita estável em que se encontrava, em direção à Terra ou mesmo longe dela, b) o combustível não é infinito nem deve ser desperdiçado e c) bastaria bloquear os corredores localizados após os propulsores e despressurizá-los para conter a criatura, algo que, tcharam, seria proposto logo na cena seguinte.

Assim, por melhor que seja a construção de atmosfera e tensão feita por Daniel Espinosa ou por mais que ele esteja familiarizado com as melhores ficções científicas para homenageá-las a contento (os tons vermelhos de 2001, por exemplo), ao final de cada sequência, tudo serve somente para saciar a fome imediata por suspense do espectador que, tão logo passe, pode refletir objetivamente acerca do que assistiu e chegar à conclusão de estar na companhia de astronautas sem a menor preparação intelectual ou emocional para ocuparem seus postos: do biólogo Hugh (Bakare) que desobedece quaisquer protocolos na interação com a criatura tida como sua filha à especialista de segurança Miranda (Ferguson), incompetente em manter a ordem no interior da estação ou de empregar seu conhecimento para algo senão repetir “firewall”, do técnico que aciona uma arma semelhante a um lança-chamas livremente em um compartimento fechado a outro que deixa o comunicador para trás quando este é mais necessário.

Afora isto, o esforço dos atores não disfarça interpretarem personagens unidimensionais, não tão diferentes das vítimas de Jason ou Freddy Krueger: enquanto Sho (Sanada) define-se unicamente pela paternidade, David abraça o altruísmo ao confessar por que passou tantos dias consecutivos no espaço mesmo que isto não fosse recomendado do ponto de vista médico. Com isto em mente, é fácil antever qual será a ação capital tomada pelo personagem. Por causa desse desenvolvimento precário dos personagens, não resta nada senão a indiferença quanto à sobrevivência de cada um, e isto faz com que torçamos por Calvin nem que só pelo prazer sádico inerente ao próprio subgênero e é a isto que Espinosa agarra-se, inconscientemente, enquanto constrói o suspense que resulta não na constatação se ‘A’ ou ‘B’ escapará, e sim em que ordem e como eles serão mortos. E a opção de, literalmente, calar um personagem é das mais pertinentes tomadas pelo diretor.

Entretanto, o terceiro ato arremessa ao espaço todo o suspense e a diversão escapista para se focar no desfecho que manipula a percepção do espectador para crer em algo quando entrega exatamente o oposto, ainda que isto contrarie o comportamento dos personagens em favor do choque artificial. E, se isto prejudica Vida em ser o passável filme de gênero que poderia ser, imagine o estrago que faz na obra de arte transcendental e presunçosa que sonhava em ser.


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