Crítica | Vermelho Russo

Vermelho-russo

O desencanto com suas carreiras e a vontade de se reinventarem são as razões por que as atrizes Martha Nowill e Maria Manoella viajaram à Rússia, em 2009, para participar de um curso intensivo sobre o Sistema Stanislavski de atuação. Descrito no diário de Martha, este aprendizado foi revivido pelas próprias atrizes durante as gravações deste Vermelho Russo, que habita na cinzenta e frutífera interseção da ficção e do documentário e resulta não no vão exercício de egocentrismo que aparenta ser a ideia de resgatar um período importante da própria vida, e sim no melhor exemplo daquilo que pretende retratar: as nuances contidas no verbete ‘interpretar’.

Iniciando-se do mesmo modo que qualquer outra viagem a uma cultura distante, a narrativa pincela a dificuldade de comunicação de Martha e Maria com os motoristas de táxi e com a recepcionista da pensão onde se hospedarão por um mês enquanto exibe, ora da janela do passageiro ora tomando por base a visão do turista, o que a Rússia sugere ser. Não o país que de fato é. É no mínimo curiosa esta insinuação porque o estrangeiro mostra-se ao visitante de forma idêntica que o intérprete, ao espectador: debaixo do véu costurado com o tecido da percepção alheia, formado de algo próximo do autêntico, mas sensivelmente distinto para convencer do contrário. E igual ao clima russo, o ator é também imprevisível, hábil em variar do sol à neve para construir um novo alguém.

É essa a proposta do Sistema nos dizeres do Diretor de Elenco, o conceito de o ator transformar-se em um personagem enquanto preserva os atributos de sua personalidade. E, embora seja preciso que Martha incorpore o papel que interpreta na oficina, não o contrário, a atuação oferece possibilidades inúmeras para reproduzir a mesma emoção, como o ato de se estrangular com as contas do colar ou o dedilhar do piano, produzindo um som dissonante e incômodo. Não que todas estas decisões sejam capazes de reproduzir a personagem formada apenas na cabeça do diretor – acabada no cinema, na televisão ou no teatro -, sendo Vermelho Russo também uma discussão sobre o trabalho destes profissionais, que precisam ser heterodoxos, inclusive, recorrendo a cócegas para que a atriz saiba o tom exato que dela requer.

Com isso em mente, o diretor e corroteirista Charly Braun, fisicamente presente na narrativa através do documentarista Tatu (Colombi) e do seu longa-metragem, Além da Estrada, com que presenteia certa personagem, emprega a revisitação de memórias de Martha e Maria para que estas interpretem não si mesmas, mas simulacros daquela viagem, formulados com base nas páginas do roteiro à determinação do diretor. Isto reforça a argumentação existente na frase “as pessoas interpretam toda hora, embora somente o ator pode viver outros destino”, já que nem mesmo em uma obra documental, vê-se a pessoa que se é, e sim a imagem refratada que a câmera capturou naquele instante, como a versão de Maria dirigida por Tatu.

Além de discutir a teoria da atuação, bem exemplificada por Martha e Maria, pessoas e personagens agradáveis dentro da esteira da normalidade de quem, por exemplo, exige-se encanto e fascínio por simplesmente conhecerem a Praça Vermelha, a narrativa balança entre a cumplicidade de melhores amigas de sorrisos gordos e sinceros e a rivalidade entre competidoras que, além de vivenciarem o mesmo mercado de trabalho árduo em que às vezes há mais gente no palco do que na plateia, ainda disputam amores, e a perda deste por quem deseja ser atriz para ser amada, revela-se um baque tão frustrante quanto esquecer o diálogo durante a performance. Sem esquecer que as experiências vivenciadas são, invariavelmente, forças construtivas e destrutivas dentro da arte quase divina de criar alguém com quem o espectador se relacione, que ame ou odeie, com quem se apaixone ou se frustre, crível tal como a pessoa ao lado.

E que estes alguéns sejam figuras nascidas do barro da própria memória e empreguem a voz, os trejeitos e o espírito de quem lhes dá vida porém, ainda assim, soem ligeiramente diferentes de quem são é o maior trunfo deste misto de experiência e ficção.

P. S.: O diário publicado de Martha Nowill que deu origem a Vermelho Russo pode ser lido aqui.


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